2 A RELAÇÃO PENSAMENTO–REALIDADE: A PRODUÇÃO HUMANA COMO
2.1 Pensamento e realidade: a dualidade de Descartes e a crítica de Espinosa
a natureza, é fundamental para toda concepção de mundo, pois a sua solução acaba por determinar as respostas para os demais problemas filosóficos, incluindo aqueles relacionados aos aspectos axiológicos, implicando orientações e princípios práticos para as ações humanas.
O modo como resolve o problema acaba por indicar diferentes posicionamentos, pois apresenta o desafio de compreender como se relaciona os conhecimentos (conceitos, teorias, ideias) e os objetos a que se refere. Existe correspondência entre os objetos existentes fora da consciência e os conhecimentos a eles relacionados? Os conceitos com os quais operam os seres humanos correspondem ao real? Como comprovar essas relações?
As questões são de grande complexidade e, evidentemente, esse problema de princípio não se resolve com soluções imediatas. Segundo Ilyenkov, apesar de defender a posição de uma resposta afirmativa, não é simples responder com toda a clareza a essas perguntas, pois as respostas negativas apresentam argumentos sólidos.
Uma coisa, tal como se reflete na consciência, não se pode comparar com a coisa que existe fora da consciência, pois é impossível comparar o que há na consciência com o que não está na consciência; não se pode confrontar o que eu conheço com aquilo que não conheço, não vejo, não percebo e nem compreendo. Antes de eu poder comparar minha representação da coisa com a coisa, devo também compreender essa coisa, ou seja, transformá-la também em representação. Em resumo, eu comparo e confronto sempre a representação com a representação, mesmo que pense que comparo a representação com a coisa. (ILYENKOV, 1977, p. 16)
Outra observação que faz o autor é que coisas e fenômenos do real podem ser comparados e confrontados somente quando se referem a objetos homogêneos. Seria absurdo comparar coisas que não possuem qualquer relação, por exemplo, a queda de uma árvore e a capacidade de aprendizagem de uma criança.
Afirma ainda, que quando se quer estabelecer relações entre os objetos, não se confrontam as qualidades específicas de cada um por suas diferenças, mas que a comparação ocorre somente a partir das propriedades que expressam algo “terceiro”, entendido como propriedade comum aos elementos da relação, distinto das qualidades das coisas enumeradas. Por outro lado, as coisas confrontadas são consideradas como modificações distintas dessa “terceira” propriedade.
O autor utiliza como exemplo o absurdo que seria considerar a distância entre o som “A” e uma “mesa” sem a existência de outra propriedade comum a ambas para se estabelecer relação. Esses distintos fenômenos somente podem ser comparados se forem inseridos no espaço, pois sempre que se aborda a distância entre dois objetos afirma-se a distância dentro do espaço. Os objetos existem no espaço, são pontos dentro do espaço. É a união dentro do ponto de vista do espaço que permite a coisas distintas constituir unidade. O espaço seria a “terceira” propriedade que permite considerar esses objetos em relação.
Para compreender o pensamento, apesar das dificuldades apresentadas, o conteúdo do problema passa a ser a necessidade de identificação da propriedade comum e correlacionada interiormente tanto ao “conceito” (pensamento) como à coisa (realidade). Como é possível confrontar e relacionar aspectos que aparentemente não possuem propriedade comum que possa expressar-se de modos distintos tanto no pensamento como na coisa pensada?
Se não houvesse propriedade comum não seria possível estabelecer relação necessária, interna, ou seja, considerar a existência de unidade entre pensamento e realidade existente de forma independente da vontade e da subjetividade de quem pensa. Sem elemento comum é possível estabelecer apenas relação externa, que foge da posição metódica da questão, pois assim qualquer coisa poderia se relacionar com tudo, e o absurdo se transformaria em regra.
A dificuldade encontra-se na percepção de que pensamento não é coisa e, ao mesmo tempo, de que os objetos e fenômenos reais não são pensamento. Surge a questão de apreender como é possível confrontar e comparar propriedades tão distintas, ou então, qual a “substância” comum a ambos os elementos, qual é o elemento mediador desses opostos.
Esta dificuldade foi eloquentemente expressa por Descartes em uma forma lógica clara. Ela constitui o problema central de toda filosofia: o problema da relação entre “pensamento” com a realidade existente fora e independente dele, com o mundo das coisas no espaço e no tempo, o problema da coincidência das formas do pensamento com as formas da realidade, o problema da verdade, ou, apelando à linguagem filosófica tradicional, o “problema da identidade do pensamento e o ser”. (ILYENKOV, 1977, p. 19, tradução nossa)
A questão de Descartes para a relação sujeito – objeto, ou para o problema da identidade entre o pensamento e o ser, inicia com a postura dualista afirmando que ambos os elementos são
de natureza e de substâncias distintas, que se determinam e existem por si mesmos. A natureza do pensamento se revela pelo mundo dos conceitos e por seus estados internos e a realidade, o mundo das coisas, é determinado pelas formas geométricas e espaciais externas que não são pensamento.
Cada elemento gira em torno de si próprio, constituindo-se como opostos que não possuem nada em comum. A questão cartesiana se coloca na reflexão sobre como se relacionam aspectos tão distintos, os objetos no pensamento e a coisa fora do pensamento, visto perceber que o ser humano atua pelo pensamento e que existe acordo dessas ações com as coisas existentes fora do pensamento.
A questão é explicar a regularidade desse acordo entre pensamento e realidade. O autor cita exemplos de Descates para o problema: a situação em que uma linha curva se realiza no pensamento e depois o indivíduo consciente de seu corpo a realiza como uma curva transcrita no papel, fora do pensamento; ou então, quando em uma guerra de trincheiras um batalhão do exército se confronta com outro, ocorre que um indivíduo com uma arma aponta para o inimigo, construindo um percurso para o projétil no pensamento, e, ao desferir o tiro, o inimigo cai. Realiza-se um percurso no mundo das coisas, externas ao pensamento, correlacionado ao que foi pensado no mundo do pensamento.
O problema colocado por Descartes avançou não apenas na compreensão de que as coisas reais e o pensamento não são da mesma “substância”, como não seria difícil de perceber, mas também apontou o problema da identidade entre contrários absolutos, visto perceber o acordo entre as ações fundadas no pensamento e o real que lhe é externo.
Dentro do sistema do autor, apesar de reconhecer e formular o problema da identidade entre o pensamento e o ser, se manteve a postura dualista de que o pensamento e a realidade possuem substâncias distintas, propondo como explicação para o acordo entre o mundo pensado e o mundo real o conceito de Deus.
Ele é o terceiro elemento presente na relação, uma escala intermediária que une e coloca em acordo o pensamento e o ser, o corpo e o espírito, os conceitos e os objetos. Mantém assim a reconhecida dicotomia entre corpo e alma, que tantos reflexos podemos reconhecer em nossa realidade atual.
pela questão das causas e efeitos. O que seria a causa e o que seria efeito se considerarmos a relação entre o mundo das coisas e o mundo do pensamento.
Segundo Ilyenkov, Espinosa esteve muito acima das limitações mecanicistas de seu tempo e, entre os grandes pensadores antes de Marx, é aquele que melhor apresenta reflexões sobre as relações entre pensamento e realidade de modo a considerar princípios materialistas. Mesmo considerando sua posição idealista, que identifica a natureza como um todo a uma espécie de Deus, o autor afirma que o filósofo na formulação de seu tempo e dentro dessas possibilidades coloca um problema real que continua sendo problema nos dias atuais.
De uma posição fundada no monismo, Espinosa realiza uma crítica ao dualismo cartesiano e afirma que o ser humano pensante real, vivo, é o único corpo pensante que conhecemos e que esse corpo não se compõe das metades referentes a um corpo privado de pensamento e de um pensamento que pode existir sem a materialidade corporal. Considerando o ser humano vivo, tanto um como o outro são abstrações.
Afirma que o problema colocado por Descartes é insolúvel porque foi colocado de modo falso, porque não há um Deus que une o corpo e a alma que existem separadamente, e que por consequência podem ser “separados”, considerando a tese da alma imortal. O autor não pensa a partir de um “espírito” especial, domiciliado por Deus no corpo humano, mas simplesmente considera o corpo do ser humano. Ilyenkov teoriza sobre o pensamento de Espinosa:
O pensamento é uma propriedade e um modo de existência do corpo, como sua extensão, ou seja, como sua configuração espacial e sua posição em meio a outros corpos. Esta idéia simples e profundamente exata expressa Espinosa, na linguagem de sua época: pensamento e extensão não são duas substâncias especiais, como ensinou Descartes, senão somente atributos de uma e mesma substância; não são dois objetos especiais, que podem existir isoladamente, por completo independentes um do outro, senão somente dois aspectos distintos e inclusive opostos, sob os quais aparece o mesmo, dois modos distintos de existência, duas formas de manifestação de algo terceiro. (ILYENKOV, 1977, p. 33, tradução nossa, grifos do autor)
O filósofo avança no sentido da compreensão de que pensamento e corpo não possuem substâncias distintas e, portanto o problema não mais se caracteriza pela dificuldade de explicar a concordância, ou a união, entre o corpo e o pensamento, senão que a questão se volta para um
objeto único, que seria o corpo pensante do ser humano vivo, real. Portanto, considerar o corpo privado de pensamento e pensamento privado de corpo em comparação com o ser humano real seria partir de abstrações falsas.
A propriedade comum é a natureza real e infinita, que se estende no espaço e pensa. O pensamento não é visto como uma realidade independente e separada dos corpos, mas como um modo de existência dos corpos pertencentes à natureza.
A natureza, precisamente no homem, realiza em forma evidente a ação que habitualmente chamamos de “pensamento”. No homem, em forma de homem, em sua pessoa pensa a mesma natureza, e não é em absoluto nenhum ser, princípio singular, que de fora vem a domiciliar-se em sua existência. Por isso, no homem, a natureza mesma pensa, se compreende a si mesma, sente a si mesma, atua sobre si mesma. E o “juízo”, a “consciência”, a “representação”, a “sensação”, a “vontade” e todas as demais ações singulares, que Descartes definia como “modos de pensamento”, são simplesmente distintos modos de revelação de uma das propriedades inalienáveis da natureza, de um de seus atributos próprios. (ILYENKOV, 1977, p. 35, tradução nossa, grifos do autor)
Na contribuição de Espinosa, o pensamento e a extensão, pensamento e mundo dos corpos no espaço, não são duas substâncias, senão atributos de uma mesma substância. O pensamento antes e fora da matéria não existe, princípio que permite ao autor romper com a dificuldade estabelecida pela posição dualista da existência de corpo e “alma” como elementos independentes.
Desse modo, corpo e pensamento não são duas coisas distintas que possuem existência isolada, mas são dois modos de expressão da natureza. O pensamento como ação da mesma natureza a que pertence a extensão é, segundo Ilyenkov, axioma da filosofia moderna e inclina-se para o ponto de vista materialista da questão.
Para Espinosa, o pensamento antes e fora da expressão espacial na matéria favorável para isso não existe. Na busca de resposta sobre o que é o pensamento, o autor, segundo Ilyenkov, apresenta recomendações absolutamente corretas:
Se o pensamento é modo de ação do corpo pensante, para definir o pensamento devemos investigar minuciosamente o modo de ações do corpo pensante, diferenciando do modo das ações (do modo de existência e movimento) do corpo não pensante. E em nenhum caso investigar a estrutura ou a textura
espacial deste corpo em estado inativo. Pois o corpo pensante, quando está em estado inativo, já não é corpo pensante, então é simplesmente um “corpo”. (ILYENKOV, 1977, p. 47-48, tradução nossa, grifos do autor)
Assim sendo, segundo as suas recomendações, o pensamento é um modo de ação de um corpo pensante, sendo que os processos investigativos devem considerar que os modos de ação do corpo pensante são distintos dos modos de ação do corpo não pensante, mesmo considerando o último na sua existência em movimento.
O pensamento é sempre ação realizada por um corpo que se encontra no espaço, portanto, não pode haver relação de causa e efeito entre o pensamento e a ação corporal como no problema cartesiano, pois o pensamento e o corpo não são coisas distintas que existem isoladamente e que podem interatuar. São uma e mesma coisa, expressas de distintas maneiras.
Outra recomendação do autor se refere à afirmação de que o estudo anatômico- fisiológico do cérebro, mesmo sendo um problema científico das ciências particulares, não responde a pergunta sobre o que é o pensamento. A estrutura do organismo e a descrição em estado inativo não podem se fazer passar pelas funções que o pensamento cumpre, portanto, deve se considerar a ação que o corpo pensante executa para procurar respostas para o que é o pensamento.
Compreender as ações dos corpos pensantes passa pelo processo de examinar o modo de interação ativa com outros corpos pensantes e não pensantes. A singularidade da ação do corpo pensante é a de perceber e experimentar a ação do corpo exterior no interior de si mesmo, e ainda, experimentar a sua forma, a configuração geométrica espacial, e a posição entre outros corpos.
Em acordo com Descartes, a ação do corpo pensante é vista como construção ativa da forma de seu movimento no espaço em conformidade com a forma de outro corpo. O corpo não pensante, pelo contrário, se determina por mecanismos interiores próprios, por sua natureza, e não se determina de acordo com outros corpos.
O ser humano, como corpo pensante, constrói seu movimento segundo a forma de qualquer outro corpo. Concorda ativamente a forma de seu movimento no espaço com a forma e disposição de todos os demais corpos, numa ação denominada como pensamento/razão.
apresentando grau máximo de universalidade no sentido de agir em conformidade com outros corpos, para Espinosa, não se encontra separado de alguns animais que também se enquadram na sua definição de pensamento.
Mais uma vez se diferencia da solução cartesiana que tem como fundamento do seu sistema que a diferenciação do modo humano de existir encontra explicação no elemento de união Deus, estabelecendo uma ruptura entre os processos de desenvolvimento dos demais seres vivos que podem ser compreendidos como autômatos, e o modo de existir do ser humano, distinto por possuir “alma”.
Na diferenciação cartesiana de ser humano e animal, o último tem seu funcionamento interno marcado por uma reação esquemática aos estímulos, existentes de antemão, segundo a estrutura: influência exterior – movimento das partes interiores do corpo – reação exterior. Esse esquema não se aplicaria ao ser humano, sendo que há no sistema de acontecimentos que ele integra escala complementar, mediada, que é a reflexão. Caracteriza-se por não possuir esquemas pré-definidos de ação, apresentando possibilidades infinitas, universais, de ação segundo a forma de qualquer outro corpo. O corpo pensante tem como objeto de suas ações a si mesmo, antes de responder reflete, não atua imediatamente.
São por essas distinções que Descartes se vê obrigado a aceitar o conceito de “alma”, visto não estar em condições de compreender o pensamento a partir de um órgão corporal, pois isso pressupunha a ideia de que existiriam ações programadas como no mundo das coisas no espaço.
Espinosa considera esses os motivos razoáveis, no entanto observa que:
Na coisa pensante é necessário revelar e descobrir aquelas mesmas particularidades estruturais que lhe permitem realizar sua função específica, ou seja, atuar não segundo o esquema de sua organização própria, senão segundo o esquema da estrutura e disposição de todos os demais corpos, incluindo aqui também seu próprio corpo. Dessa forma atua claramente no enfoque materialista na investigação do pensamento. (ILYENKOV, 1977, p. 55-56, tradução nossa)
A determinação materialista do pensamento como uma função ativa de um corpo da natureza, complexamente organizado, que aponta tanto para o sistema de determinações em que
funciona o pensamento quanto para fisiologia do cérebro, supera as limitadas possibilidades de interpretar o pensamento e suas relações apenas pela base material, o cérebro, ou pelas especulações dualistas que pressupõe a “alma” como substância independente do corpo.
Para compreender o pensamento como uma função, ou seja, como modo das ações da coisa pensante no mundo de todas as coisas restantes, é necessário ir além dos limites de estudo do que e como ocorre no interior do corpo pensante (seja o cérebro do homem, ou o homem como um todo, que possui cérebro, é indiferente) e examinar o sistema real, em cujo interior se realiza essa função, o sistema das relações: corpo pensante e seu objeto. (ILYENKOV, 1977, p. 56, tradução nossa, grifo do autor)
A tarefa colocada para Espinosa é a de examinar o sistema real no interior do qual se realiza a ação do corpo pensante no mundo de todas as coisas restantes, portanto somente é possível compreender o pensamento a partir da investigação dos modos de ação do corpo pensante em relação com a natureza como um todo, buscando entender o pensamento em geral. Assim, o pensamento se torna uma necessidade somente quando considerada a natureza como um todo e apenas realização casual quando entendido na parcialidade individual.
O pensamento, como modo de ação de um corpo pensante, se determina pela forma de “outro” que é matéria (ação de corpo pensante e/ou não pensante). Assim, para Espinosa o erro não é característica de uma ideia ou uma ação por sua estrutura própria, a pessoa que erra também atua de acordo com a forma da coisa. O problema se caracteriza em saber o que é a coisa envolvida no modo de ação do corpo pensante:
Se ela é “insignificante”, “imperfeita” por si mesma, ou seja, casual, então o modo de ação, adaptado a ela, é também imperfeito. (...) O erro, por conseguinte, começa unicamente ali onde o modo correto, limitado, das ações recebe significação universal, ali onde o relativo se torna absoluto. (ILYENKOV, 1977, p. 63, tradução nossa)
O autor valorizava pouco as ações baseadas na universalidade abstrata, na “ideia” que se fixa a partir daquilo que ocorre com maior frequência, ou seja, a partir daquilo que aparece empiricamente à percepção, visto poder se tratar de formas e de propriedades casuais de uma coisa.
Nesse raciocínio, quanto mais reduzida a esfera da natureza como um todo com a qual se relaciona a pessoa, maior o erro e menor a possibilidade de aproximar-se da verdade. A atividade do corpo pensante encontra-se em proporção direta com a adequação de suas ideias, desta forma, a passividade da pessoa às circunstâncias que a cercam tem vinculação estreita com o modo de ação determinado pelas formas casuais das coisas.
Por outro lado, quanto mais ativamente amplia a esfera da natureza que determina suas ações, mais adequadas são as suas ideias. Para Espinosa, mesmo considerando que a esfera do pensamento humano é finita e limitada, é necessário o esforço para que esse pensamento se construa à imagem e semelhança do pensamento em geral. Quanto mais ativo o corpo pensante, mais revelará a natureza das coisas.
Por isso a composição real das ações psíquicas (incluindo a composição lógica do pensamento) não se determina em absoluto pela estrutura e disposição das partes do corpo e do cérebro da pessoa, senão pelas condições exteriores da ação universal humana no mundo dos outros corpos. (...) No interior do crânio não encontra nada que possa aplicar-se a determinação funcional do pensamento, pois o pensamento é função da ação demonstrativa exterior. Por essa razão deve- se investigar não a anatomia e fisiologia do cérebro, senão a “anatomia e fisiologia” daquele “corpo”, cuja função ativa é em realidade o pensamento, ou seja, “do corpo inorgânico do homem”, a “anatomia e fisiologia” do mundo de sua cultura, do mundo daquelas “coisas” que ele produz e reproduz com sua atividade. (ILYENKOV, 1977, p. 80-82, tradução nossa, grifo do autor)
Em síntese, para o autor o pensamento tem como premissa e como condição de sua realização a natureza em seu conjunto. A investigação e a compreensão do pensamento somente podem ser consideradas como ações do corpo pensante.
Com essas breves considerações, procuramos indicar a complexidade do problema filosófico da relação entre pensamento e a realidade existente fora e independente do pensamento, apresentando algumas reflexões de uma posição crítica sobre a interpretação dualista da relação sujeito e objeto.
Considerando nosso trabalho de pesquisa, gostaríamos de apontar duas observações: a primeira refere-se ao reconhecimento de que visões fundamentadas na dicotomia corpo e alma se expressam nas relações sociais de que a criança participa no espaço escolar. Conteúdos com esse teor, mesmo não diretamente explícitos, sintetizam formas de explicação para a existência
humana e orientam ações na realidade produzindo efeitos reais. Esses posicionamentos podem ser