2 CONCEPÇÃO TEÓRICA E METODOLÓGICA DA
2.2 PENSAMENTOS EMPÍRICO E TEÓRICO E SUAS
Partindo do pressuposto histórico-cultural de que é papel da escola promover o desenvolvimento dos conceitos científicos como condição para o desenvolvimento do pensamento teórico, a presente
seção dedica-se a apresentar aquilo que é considerado como suas principais características, em contraposição ao pensamento empírico. Davýdov (1982), ao tratar dessa temática, coloca-a no contexto das teses principais da Dialética Materialista.
Tal como foi mencionado anteriormente, a correta aplicação ou o inverso das ações de estudos proporcionará um tipo de pensamento: teórico ou empírico. Neste caso, o que pode ser chamado de pensamento teórico e empírico? Antes de avançar nesta questão, importa a conceituação prévia de pensamento. Este, conforme Kopnin (1978), é um meio de atitude racional do homem em face da realidade, por criar ideias cuja manifestação prática constitui um passo com vista à criação de um mundo condizente com a essência e a necessidade do ser do homem. Entretanto, o pensamento surge e se desenvolve em base sensório-material (KOPNIN, 1978).
Davýdov (1982) diz que, em filosofia, chama-se pensamento a modificação do projeto da coisa, com base na experiência das suas transformações práticas, que engendra o tipo de atividade subjetiva do homem. Para o autor, pensar significa inventar, construir na mente o projeto idealizado do objeto real que há de resultar do suposto processo laboral. O pensamento está atrelado à variação de um projeto ideal e esquema idealizado de atividade − transformação da imagem inicial do objeto de trabalho em outro.
Essa transformação das imagens ocorre tanto no plano das representações sensoriais como em atividade verbal-discursiva àquelas relacionadas. Em ambos os casos, têm importância essencial os meios de expressão simbólica e significativa das imagens ideais, ou seja, padrões discursivos e materiais que descrevem e representam os objetos e os métodos de produção dos mesmos (DAVÝDOV, 1982).
Assim, em resposta ao questionamento anteriormente levantado, é possível dizer que, ao representar o objeto pelas suas relações e manifestações exteriores acessíveis à contemplação viva, estar-se-á convivendo com o pensamento empírico. A forma lógica do empírico é constituída pelo juízo tomado isoladamente, que constata o fato, ou por certo sistema deles que descreve um fenômeno. A aplicação prática do conhecimento empírico é restrita e, no sentido científico, um ponto de partida qualquer para a construção da teoria (KOPNIN, 1978).
Este tipo de pensamento, de acordo Davídov (1988), surge da influência da lógica formal e se efetiva com a ajuda das abstrações e generalizações. Desse modo, uma das particularidades do pensamento empírico é a universalidade abstrata baseada no princípio da repetitividade. Sendo assim, constitui-se como forma transformada e
expressada verbalmente da atividade dos órgãos dos sentidos, ligados à vida real. Deriva, pois, diretamente da atividade objetal-sensorial das pessoas (DAVÍDOV, 1988).
Davídov (1988) entende que o pensamento empírico tem um caráter direto. No entanto, concorda com Naúmenko, que diz:
O empírico não é só o conhecimento direto da realidade, mas sim também o que é mais importante, o conhecimento do imediato na realidade, justamente do aspecto que se expressa por categoria de existência, existência presente, de quantidade, qualidade, propriedade e medida. (DAVÍDOV, 1988, p. 123).
Com outras características, o pensamento teórico reflete o objeto no aspecto das relações internas e leis do seu movimento que são cognoscíveis por meio da elaboração racional dos dados do conhecimento empírico. Sua forma lógica é constituída pelo sistema de abstrações que explica o objeto. Se a referência é o conhecimento teórico, vale o destaque para a quase ilimitada aplicação prática. Em seu sentido científico, a construção da teoria se manifesta como um resultado final, como conclusão do processo de conhecimento (KOPNIN, 1978).
Para Davídov (1988, p. 125), “o conteúdo do pensamento teórico é a existência mediatizada, refletida, essencial”. Além disso, reflete o processo de idealização de um dos aspectos da atividade objetal-prática, qual seja: a reprodução que, por sua vez, expressa as formas universais das coisas. Isso significa dizer que tem uma base experimental objetal-sensorial que é a atividade laboral das pessoas. Porém, tem uma perspectiva cada vez mais cognoscitiva, que permite, com o tempo, a realização dos experimentos mentalmente.
No que se refere aos seus níveis, o empírico vincula-se à imediatez da experiência sensorial, conteúdo primeiro do pensamento. A sua racionalidade está na forma de conhecimento e nos conceitos implícitos na linguagem, em que são expressos os resultados do conhecimento pertinente a ele. Por sua vez, o teórico se atrela ao conhecimento com característica realmente universal e procura explicitar o conteúdo da verdade buscada em toda a concreticidade e objetividade (KOPNIN, 1978).
Quanto ao conteúdo, as duas formas de pensamento se diferenciam, uma vez que o pensamento empírico se apresenta
verbalmente como resultado das observações sensoriais. Destas, extrai-se uma clasextrai-se de dependências que extrai-se repetem nos objetos, distintas umas das outras. As diferenças e a classificação se apresentam como funções de representações gerais dos conceitos. Por sua vez, no pensamento teórico, o conceito reúne as coisas dessemelhantes, multifacetadas, não coincidentes, e assinala seu peso específico. Como consequência, o conteúdo específico do conceito teórico traz a relação objetiva do universal e o singular, o diferente (DAVÍDOV, 1988).
Portanto, diferentemente do empírico, não ocorre a inclusão de algo igual, dado pelos órgãos dos sentidos (cor, por exemplo), que une os objetos de uma classe. Em vez disso, identificam as inter-relações de objetos que constituem um todo, dentro do sistema de sua formação.
Sobre a comparação e diferença dos tipos de conhecimentos e formas de pensamentos que se relacionam com os termos empírico e teórico, Davídov e Márkova (1987, p. 178) apresentam a seguinte síntese:
1. A elaboração do conhecimento empírico tem por base a comparação de objetos e as representações pelas quais se separam as propriedades iguais e gerais. Diferentemente, o surgimento do conhecimento teórico tem sua base na análise do papel que uma determinada função desempenha na relação entre as coisas que constitui um sistema.
2. O conhecimento e o pensamento na forma empírica têm como característica essencial: a comparação. Por meio dela, extrai-se a propriedade geral, que permite incluir objetos individuais numa determinada classe, porém, sem a necessária dependência entre si promovida por algo que extrapole as percepções obtidas pela aparência externa. De outro modo, a análise, peculiaridade do conhecimento e pensamento teórico, centra-se na relação real e especial entre as coisas que servem, simultaneamente, como base genética de outras manifestações do sistema. Esta relação atua como forma geral ou essencial de tudo o que é reproduzido mentalmente.
3. Ao ter base na observação, o conhecimento empírico apoia-se somente em representações visuais. Desse modo, explicita apenas as propriedades externas dos objetos. Contrariamente, o conhecimento teórico surge sobre a base da transformação dos objetos, o que possibilita o reflexo das suas relações e ligações internas. A reprodução do objeto em forma de conhecimento teórico permite que o pensamento extrapole os limites das representações sensoriais.
4. A propriedade geral e as propriedades particulares dos objetos, no conhecimento empírico, estão num mesmo plano. No entanto, quando a referência é o conhecimento teórico, a preocupação é com a conexão entre a relação geral e suas diferentes manifestações. Em outras palavras, a conexão do geral ao particular.
5. A concretização do conhecimento empírico se expressa na possibilidade de se estabelecer as ilustrações, as quais se tornam exemplos que pertencem a uma determinada classe. A especificidade da concretização do conhecimento teórico está na necessária conversão em uma teoria desenvolvida por meio da dedução, como também da explicação das manifestações particulares do sistema com base na sua fundamentação geral. 6. A palavra-termo é forma de fixação do conhecimento empírico.
O conhecimento teórico se expressa por meio de procedimentos da atividade mental e de diferentes sistemas simbólicos e signos. Destacam-se os meios da linguagem artificial e natural. Desde o seu surgimento, é possível que o conceito teórico expresse o procedimento que possibilita a separação do singular do geral.
Com essa síntese, conclui-se a discussão sobre o pensamento empírico e teórico e suas particularidades. Na seção a seguir, discutir-se-á sobre as bases da organização da proposta de ensino