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Parte III: Diálogos Impertinentes

1. Pensando a formação

Para dialogar com um grupo de professores/as, no sentido de colaborar em seu processo formativo e estabelecer relações horizontais em que todos/as aprendam juntos/as, é necessário despir-se de prejulgamentos. É preciso conhecê-los para compreender o que pensam a despeito do processo pedagógico na educação básica. É preciso, também, vincular as dores e os sabores particulares de uma carreira que passou, historicamente, por um processo contínuo de desvalorização, com a dificuldade de ser e sentir-se educador em uma era intensamente definida

pelas políticas neoliberais (MÉSZÁROS, 2008). Igualmente, é fundamental estar ciente de suas expectativas em relação à formação e se posicionar de forma afetuosa — e, ao mesmo tempo, com rigor teórico e metodológico — para promover o (re)conhecimento de temáticas que os/as permitam compreender melhor as raízes das agruras que marcam a docência. Afinal, como pondera Kehl (2009), as depressões se apresentam, na contemporaneidade, como um mal social comum, resultante de uma sociedade desigual e ancorada em projeções de competências, hierarquias e divisões cotidianas.

Em diálogo com Freire, temos que “ensinar exige rigorosidade metódica” (1996, p. 13). Isso é condição para o exercício da docência, visto que “o/a educador/a já teve ou tem experiência da produção de certos saberes” (FREIRE,1996, p. 14). Contudo, reconhecemos que esses saberes não podem ser reproduzidos mecanicamente e sim (re)construídos pelos/as educandos/as, numa relação em que todos/as aprendem juntos/as.

No entanto, cabe destacar que a conformação da educação em economias dependentes tem como função a manutenção e a expansão da estrutura que fundamenta o papel desses países nas relações internacionais: serem coadjuvantes aos movimentos impostos pelo capital financeiro internacional. Ante à dependência, a superexploração da força de trabalho

apresenta-se como mecanismo que fundamenta dita atuação. Nesse sentido, a educação em economias dependentes está diretamente associada ao trabalho desvalorizado dos trabalhadores e trabalhadoras deste meio, sendo estes/as condicionados, via lógica dominante, à reprodução da lógica subordinada no próprio processo educativo (TRASPADINI, 2018).

Frente à estrutura material do capitalismo dependente, devemos assumir a dialética que compõe a vida em movimento ininterrupto de ordem-desordem, para denunciarmos, concretamente, a concepção equivocada de que todas as dificuldades no processo ensino e aprendizagem estão centradas na figura do/a professor/a. Evita-se, assim, tornar esses/as trabalhadores culpados/as pelo mal desempenho da educação, pois não se pode explicar tal questão com base na relação direta entre causa e efeito, descaracterizando a complexidade que envolve o mundo do trabalho em geral e do trabalho na educação em particular. Existem inúmeras outras questões que envolvem o ato de ensinar e aprender, visto que há uma multicausalidade desse fenômeno que ainda marca a história da educação brasileira (MCLAREN, 2005).

Nesse sentido, antes do primeiro encontro na escola, o OBEPAL elaborou um questionário estruturado que serviria como um diagnóstico do grupo de professores/as participantes da Formação de

Formadores. Desejávamos saber em que década

nasceram, onde residem, o tempo de experiência com a o processo educativo, o que esperam da formação, dentre outras questões importantes para o planejamento do curso. Dos/as 67 professores/as que participaram desse primeiro encontro, 49 responderam ao questionário, mas não todas as perguntas. Desse diagnóstico, destacamos alguns dados:

Quadro 1. Diagnóstico Inicial de preparação para a

primeira formação

Descrição Informações obtidas

Total de professores que foram convidados/as a responder ao questionário 67 Total de professores respondentes 49

Tempo do magistério 50%, com mais de 15 anos Média de idade 60%, com a idade entre

40 e 50 anos

Procedência/local de nascimento Afonso Cláudio, Anchieta, Bom Jesus do Norte, Cariacica, Ecoporanga, Nova Venécia, Serra,

Vila Velha e Vitória

Local de residência Cariacica, Serra, Vila Velha e Vitória

Fonte: produção das autoras a partir dos arquivos OBEPAL. Construímos uma síntese a partir dessas informações e fizemos um estudo detido quando da reunião para organizar as primeiras propostas para a formação. Tal

síntese, também, apontou em direção às nossas quatro categorias centrais que orientaram o percurso formativo: trabalho, território, educação e beleza. Essas categorias pautaram os estudos e diálogos com o grupo e tornaram-se as raízes deste processo, ramificando temáticas que possibilitaram o exercício do pensar sobre e com a prática, já que o OBEPAL, também, atuaria com os/as estudantes da Educação de Jovens e Adultos da escola, por meio do desenvolvimento de oficinas, conforme elucida o texto de Ana Carolina Costa Andrade e Lívia Costa Araújo.

Quadro 2. Percepções dos/as docentes sobre

uberização e precarização do trabalho da primeira formação, ocorrida em 23/07/19 Número de respondentes Média de idade Média de anos letivos Características que relacionam com o trabalho Palavras chave sobre o documentário 13 52 anos 26 anos Precarização

Desrespeito Desvalorização Paixão Afetividade Precarização Individualismo Desumanização Insegurança Informalidade

Fonte: produção das autoras, a partir dos arquivos OBEPAL. Ou seja, no diagnóstico inicial, identificamos que, dos 13 professores que compuseram a Formação de

Formadores, 6 possuíam a partir de 30 anos ou mais de

docência, 5 possuíam 20 anos ou mais e somente dois possuíam a partir de uma década de docência, dando uma média de 26 anos letivos. Além disso, a maioria (7 dos 13) nasceu na década de 1960. Variando de a 32 a

61 anos, a média de idade é de, aproximadamente, 52 anos. Além disso, observando o quadro acima, é notório o quanto as palavras-chave que traduzem a relação com o trabalho se articulam, diretamente, com o processo de uberização e precarização das relações trabalhistas e o quanto essa categoria precisa ser estudada em um processo de interação com as demais categorias aqui citadas (ANTUNES, 2000; REDE TVT, 2019).

Para pensarmos sobre a prática, é preciso imersão na teoria, na reflexão coletiva, no rigor do método de análise, de investigação e na posterior exposição. Nos momentos de estudos dirigidos, com intencionalidade, é igualmente importante partir da realidade concreta, com vistas à execução de um processo de formação que permita trocar as lentes, ampliar os olhares, ver à luz da historicidade e processualidade, o entendimento comum, dando passo ao sentido crítico. Assim, o OBEPAL, os/as professores/as, os/as estudantes e os/as demais atores da Escola NNG, na modalidade de EJA, integrariam um coletivo em que o diálogo, a reflexão, a (re)elaboração coletiva, o fortalecimento dos sujeitos, o respeito aos saberes e fazeres de todos/as, a valorização do território, a beleza dos encontros seriam as premissas de uma formação enraizada na educação popular.