• Nenhum resultado encontrado

4 BANCO COMUNITÁRIO: UMA EXPERIÊNCIA SINGULAR DE FINANÇAS

4.4 PENSANDO A SUSTENTABILIDADE EM BANCOS COMUNITÁRIOS

A sustentabilidade é uma formulação recente, e ainda pouco clara na Teoria das Organizações; origina-se no latim, da palavra sustentare, que remete a “suportar”, “defender”, “favorecer”, “auxiliar”; “manter”, “conservar em bom estado”, “fazer frente a” e “resistir” (MAGALHÃES E OUTROS, 2006).

Identificamos dois níveis de análise da sustentabilidade. No nível micro (ou sentido restrito), analisa-se a sustentabilidade em projetos e organizações, fundamentalmente com um aspecto interno, que depende de sua própria dinâmica. No nível macro (ou sentido ampliado), analisa-se a sustentabilidade ambiental ou social, considerando o impacto da vida humana sobre o meio ambiente natural.

Na análise de organizações, o conceito de sustentabilidade comumente é reduzido ao aspecto econômico, em particular, à dimensão financeira, significando a viabilidade econômica das organizações. Esse entendimento influenciou a forma como as organizações sociais construíam sua sustentabilidade (MAGALHÃES E OUTROS, 2006).

Para além do âmbito organizacional, o tema da sustentabilidade passou a ocupar lugar de destaque na agenda pública nacional e internacional, principalmente a partir das discussões sobre meio ambiente, e a utilização do termo “desenvolvimento sustentável” (MILANI, 1999). O Relatório Brundtland, publicado em 1987 pela Comissão Mundial para o Meio Ambiente da Organização das Nações

70 Unidas (ONU), é uma das referências mais difundidas acerca da sustentabilidade. Antes disso, “A Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, de 1972, ocorrida em Estocolmo, colocou a dimensão do meio ambiente na agenda internacional” (SACHS, 2002, p. 48).

No nível macro, a sustentabilidade é necessariamente multidimensional, apresentando, além de aspectos ecológicos e ambientais, as dimensões econômica, política, cultural, social, temporal e espacial (MAGALHÃES E OUTROS, 2006).

Observamos que esses níveis podem ser articulados na análise, principalmente em se tratando de organizações sociais, ou seja, “organizações cuja finalidade primeira, por elas anunciada, é o desenvolvimento socialmente justo e ecologicamente equilibrado” (MAGALHÃES E OUTROS, 2006, p. 2).

Para Santos (2005), o paralelo que se tem estabelecido entre esses dois níveis de análise - sustentabilidade ambiental e a sustentabilidade das organizações sociais - é instigante e bastante provocador. Percebemos que é dessa forma que a sustentabilidade é pensada no âmbito dos Bancos Comunitários.

No II Encontro da Rede, o tema da sustentabilidade esteve presente na discussão do marco teórico-analítico, foi aprofundado em um grupo de trabalho e, posteriormente, levado ao plenário, sendo incorporado às Bandeiras e Recomendações da Rede. No âmbito do grupo, a discussão foi iniciada tomando como referência o trabalho de Reis (2005), que nos parece bastante significativo, pois contribui para a superação de uma grande lacuna no que diz respeito às pesquisas em torno da sustentabilidade das experiências de Economia Solidária. Além disso, ele é coerente com o nosso pressuposto de que a sustentabilidade dessas experiências é, sobretudo, plural, articulando diversas dimensões. Posto isso, passamos agora a uma síntese deste trabalho, articulando com os principais pontos da discussão no âmbito da Rede.

A partir da discussão acerca do tema da Economia Solidária e da sustentabilidade, Reis (2005) elabora um quadro analítico propondo parâmetros para compreender a dinâmica da sustentabilidade de EESs. Esta autora utiliza em sua análise cinco dimensões da sustentabilidade: econômica, social, política, gestão e cultural. Tal quadro foi utilizado para a análise da sustentabilidade de três cooperativas populares em Salvador (BA).

Para analisar a dimensão econômica, Reis (2005) considera a pluralidade de princípios econômicos, característica apontada por França Filho e Laville (2004),

observando, assim, que a sustentabilidade econômica deve ser analisada em seus três componentes: mercantil, não mercantil e não monetária. Conforme já sinalizado por França Filho (2007), a sustentabilidade dos Bancos Comunitários também é resultado dessa hibridação de formas econômicas. A Rede Brasileira de Bancos Comunitários (2006) sinaliza que a sustentabilidade econômica (entenda-se, financeira), em médio prazo, deve ser subsidiada. Devido ao caráter do Banco Comunitário (sem fins lucrativos), seu público-alvo (mais pobres, nos degraus 1 e 2 do desenvolvimento) e sua finalidade (pública, visando o desenvolvimento do território), justifica-se que seja subsidiado em seus primeiros anos. Todavia, é preciso pensar não em formas de auto-sustentabilidade, mas em combinar outras formas de sustentabilidade para evitar dependência.

A dimensão social diz respeito ao caráter associativo e comunitário dessas experiências, que comentamos neste mesmo capítulo. Essa dimensão analisa a construção do vínculo associativo a partir de dois indicadores: padrão de sociabilidade e grau de coesão social do grupo. Segundo França Filho e Laville (2004), as organizações de Economia Solidária combinam, em suas relações no interior da organização, padrões comunitários com práticas profissionais, o que eles chamam de sociabilidade comunitário-pública. Quanto à coesão, quanto mais alta ela for, mas forte será o vínculo associativo.

Para analisar a dimensão política, Reis (2005) divide-a em dois níveis: interno e institucional. O primeiro nível busca dar conta de aspectos relativos à autogestão, refletindo, por exemplo, o grau de democratização dos processos decisórios e o nível de participação das pessoas. O segundo nível pensa a dimensão institucional. Essa dimensão permite verificar outras duas características apontadas por França Filho e Laville (2004), quais sejam, a autonomia institucional e a finalidade multidimensional, particularmente a projeção dessa experiência no espaço público. Esta última se articula particularmente com o Banco Comunitário, cuja razão de ser não reside em si mesmo, mas no atendimento às necessidades da comunidade do território onde se insere.

A dimensão gestão é aprofundada em dois níveis, a saber, a infra-estrutura e o conhecimento. Quanto ao primeiro, “a infra-estrutura reflete os recursos físicos necessários para a gestão dos empreendimentos” (REIS, 2005, p. 119), sendo analisada a partir do grau de acesso a meios de produção, tecnologias gerenciais e espaço físico. A dimensão conhecimento – técnico, gerencial e sociopolítico - é

72 fundamental para compreender a dinâmica da autogestão nas organizações de Economia Solidária.

O estudo de Reis (2005) conclui que os EESs constroem uma sustentabilidade plural, onde diversas dimensões se articulam. Pensamos que, de igual modo, isso ocorre com os Bancos Comunitários. Nesse diapasão, ao final do II Encontro da Rede, foi levantada como bandeira a afirmação da sustentabilidade plural dos Bancos Comunitários, em suas dimensões social, econômica, cultural, política, ambiental e de gestão. Isso inclui, além das dimensões já apontadas por Reis (2005), a dimensão cultural e ambiental.

França Filho e Santana Júnior (2007) realizaram uma pesquisa cujo objetivo foi examinar as contribuições da Economia Solidária para o desenvolvimento local, contribuindo também para uma redefinição da sustentabilidade. Eles esclarecem que, em se tratando de organizações com finalidade multidimensional (FRANÇA FILHO; LAVILLE, 2004), tal aspecto deve ser considerado na análise de sua sustentabilidade, que articula várias dimensões, como: econômica, social, política, cultural e ambiental. As dimensões econômica, social e política são abordadas tal como Reis (2005) o faz, incluindo, portanto, as dimensões apontadas pelos Bancos Comunitários: cultural e ambiental.

Embora cite a dimensão cultural, para Reis (2005) ela está presente em todas as outras dimensões, sendo, portanto, uma dimensão transversal. França Filho e Santana Júnior (2007) esclarecem que a dimensão cultural se refere à afirmação identitária dos grupos. Segundo eles,

A compreensão de tal dimensão parece passar, primeiro, por um conhecimento relativo à própria história do local e, fundamentalmente, o grau de identificação das pessoas com esta história; o que supõe: sentimento de pertencimento das pessoas em relação ao seu território, práticas e valores comuns compartilhados. Neste sentido, deve se considerar como critério de relevância o grau de enraizamento das atividades empreendidas na experiência no tecido da vida cultural do lugar, o que implica não apenas reafirmação de valores e costumes próprios, mas também o usufruto de recursos naturais locais e tecnologias socialmente apropriadas (FRANÇA FILHO; SANTANA JÚNIOR, 2007, p. 8).

Por fim, a dimensão ambiental trata do respeito às características ambientais no território, considerando a tecnologia empregada, os recursos extraídos e a geração de resíduos. Além disso, “[...] importa avaliar o grau de centralidade do ser humano em relação aos processos utilizados. Isto quer dizer que não basta a boa conservação dos recursos ambientais sem se considerar o humano” (FRANÇA

FILHO; SANTANA JÚNIOR, 2007, p. 9). Assim, França Filho e Santana Júnior (2007) sintetizam que esta dimensão “[...] relaciona-se com a boa utilização dos recursos ambientais, sua preservação e bem estar humano” (FRANÇA FILHO; SANTANA JÚNIOR, 2007, p. 9).

Ponderamos que a realidade não está dividida em dimensões; trata-se, portanto, de uma tentativa de simplificação da realidade. A sustentabilidade é um aspecto complexo, que implica a soma de diversos fatores, que estarão presentes, em maior ou menor grau, nas organizações estudadas, variando, inclusive, a depender do período analisado. Nesse sentido, Reis (2005) sugere que a melhor forma de perceber a sustentabilidade nessas organizações é através da articulação entre suas dimensões.

Deste modo, o trabalho de Reis (2005) propõe parâmetros para analisar a sustentabilidade de um EES, considerando as dimensões e articulação entre elas. Consideramos seu trabalho pertinente para a presente pesquisa, pois pressupomos que o Banco Comunitário é, sobretudo, uma expressão da Economia Solidária, e, assim sendo, pensamos que as dimensões apontadas por ela estarão presentes nos casos analisados. Nos casos apresentados a seguir, entretanto, não analisamos as dimensões, mas sim, como tem sido pensada a sustentabilidade - conceito e as dimensões contempladas – e que ações específicas têm sido desenvolvidas nesse sentido.