4. O mundo do “faz-de-conta”
4.4. Pensando a partir do mundo do “faz-de-conta”
O mundo do “faz-de-conta” que o conto de fadas proporciona torna-se o “palco” onde a imaginação da criança se alia às suas próprias memórias e à observação do seu mundo envolvente. Conhecido e desconhecido cruzam-se aqui, onde esta chama o seu passado e ao tomar decisões, se torna capaz de imaginar e se projectar no seu futuro. O conto de fadas torna-se assim a possibilidade de materialização de todos os instantes, desejos e projecções. Então o conto de fadas é a mediação entre o que já foi e o que ainda será, entre a tradição que se revela como apoio para a criança e o seu futuro que depende do desenrolar deste presente “fantástico”.
A capacidade de tomar decisões, de pensar criticamente, de tomar o conto de fadas como referência e dimensão “anterior” à sua realidade permite à criança poder alargar, ampliar a sua consciência. O conto de fadas, pela dimensão do seu mundo do “faz-de-conta” torna-se fundamental para o desenvolvimento do seu pensar permitindo que com a sua capacidade imaginativa esta possa e seja capaz de antever ou analisar uma situação antes que esta se torne efectiva ou concreta.
Neste sentido pensamos que quando a criança entra no (seu) mundo do “faz-de- conta”, torna-se capaz de, ao analisar as circunstâncias que lhe são apresentadas, elaborar hipóteses para a resolução das situações aparentemente aporéticas. Esta capacidade de tomar decisões, de se excluir a uma dependência de um adulto protector, revela que ela própria toma atitudes de adulto, pois saindo do seu quotidiano infantilizante é capaz de procurar alternativas para transformar a “realidade” que se lhe apresenta problemática.
O conto de fadas, pelo mundo do “faz-de-conta” torna-se um topos, o lugar onde ao tomar decisões se concretiza a possibilidade de realização de desejos62 e pelo reconhecimento de uma reflexão cuidada, a criança, tal como o seu herói, alcança com justiça a sua recompensa.
É neste ponto que a criança encontra a grandeza do mundo do “faz-de-conta”. Este, que a deixou experimentar a sua decisão sem a dureza da consequência efectiva,
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No mundo do “faz-de-conta” os desejos da criança podem ser realizados todas as vezes que esta quiser, criando e recriando as situações que ajudam a criança a compreender alguma necessidade sublimada e interiorizada até alcançar por si mesma a maturidade e a decisão necessária para ser capaz de uma integração harmoniosa de si mesma com os seus pares.
mostra-lhe que qualquer que seja a sua angústia, por reflectir e agir sobre a mesma neste mundo do “faz-de-conta”, será capaz e terá confiança para na “sua” realidade atingir os seus objectivos63.
A auto-estima da criança é assim alimentada, pois todo o choque que sente, as angústias, conflitos e desilusões que lhe são íntimas encontram eco na própria linearidade estrutural do conto de fadas e do seu mundo do “faz-de-conta”. Aqui constantemente verifica que o herói (com quem se identifica) sofreu mas foi capaz por si mesmo, de superar as dificuldades que se lhe depararam. E porque viu o seu herói vencer, também se sente capaz de chegar à sua vitória e tal como no conto de fadas, encontrar o seu final feliz.
“Sabemos que quanto mais infelizes e desesperados formos mais precisamos de engendrar fantasias optimistas. Mas estas não nos são acessíveis nesses períodos. Então, mais do que em qualquer ocasião, precisamos que outros nos amparem com a sua esperança em nós e no nosso futuro”64.
Como vimos, sentir o conto de fadas, sentir-se dentro ou no mundo do ―faz-de- conta‖ é sentir que se pertence a uma realidade onde o pensar se torna a realidade. É aqui que a criança projecta sem penalização a dicotomia que sente em si sobre o que considera bom versus mau pois as personagens adequam-se efectivamente às suas projecções. É também aqui que são engendradas as soluções estranhas e fantasiosas que tornam toda a sua vitória possível65.
Pensar-se no conto de fadas e a partir deste, permite à criança pensar e reflectir sobre o que sente como sendo um problema seu. Projectando este(s) problema(s) sobre o seu herói/heroína a criança como que se abriga enquanto assiste de um exterior seguro ao desenrolar dos acontecimentos. Por este motivo, todos os seus conflitos e desilusões dos quais resultaram sentimentos que lhe causam angústia ou que sente como aterradores ou ameaçadores são sentidos e avaliados protectoramente de forma
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“Quando isto acontece, os desafios que a criança enfrenta, em virtude das suas experiências alargadas, são de forma esmagadoras (e tão pequena a sua habilidade em conseguir atingir estas coisas novas e a sua possibilidade de resolver os problemas criados pelo seu caminhar rumo à independência) que ela precisa de satisfações fantasiosas para não ter de desistir, desesperada”, BETTELHEIM, Bruno, Psicanálise dos Conto de Fadas, op. cit., p. 160.
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Idem, p. 161. 65
“Os fantásticos exageros da história (…) tornam plausíveis e aceitáveis reacções que, em situações apresentadas de forma mais realista (…), o não seriam”, Idem, p. 44.
indirecta, pois são desviados de si e projectados ou transferidos para a personagem com quem se identificou.
O conto de fadas, e neste caso preciso, o mundo do “faz-de-conta” torna-se a dimensão mediadora entre várias fases do pensar da criança.
Assim encontramos um pensamento conceptual que se torna operatório numa dimensão que se torna estruturalmente operatório-concreta na elaboração de mundos ou universos cuja representação corresponde à necessidade de resposta que lhe é mais urgente.
Neste sentido poderemos dizer que o conto de fadas, e aqui o mundo do “faz-de- conta” se tornam dimensões que ao permitirem uma reflexão, pelo envolvimento que se estabelece com a situação retratada e com o herói/heroína com quem se sente uma empatia íntima, possibilitam que a criança elabore conclusões ou mensagens para si mesma, isto é, produza significados a partir de uma situação.
O conto de fadas revela-se a possibilidade para um desenvolvimento reflexivo onde a criança se sentirá em segurança pela promessa que o fim do mesmo sempre cumpre.
Mas, a transversalidade que o conto de fadas demonstra, misturando dimensões espaciais e temporais, permitindo seres fantásticos e com capacidades acima do normal, é ainda uma transversalidade incompleta se não considerarmos a dimensão afectiva.
É certo que encontrar um final feliz, como todo o desenrolar dos acontecimentos neste mundo do “faz-de-conta” revela, pode efectivamente contribuir para que a criança crie uma crença positiva na vida. No entanto, é necessário salientar que tal como no conto de fadas, nenhum herói/heroína esteve sozinho(a) num mundo vazio e estéril de sentimentos, mas sempre encontrou seres e apoios a partir dos quais desenvolveu as suas próprias aptidões. Assim, também a criança para que seja capaz de reflectir e superar dificuldades necessita de apoio pois “os contos de fadas criam nas crianças confiança, no sentido de que, eventualmente, elas podem levar a melhor sobre o gigante – isto é, que elas podem crescer e ficar como eles e adquirir os mesmos poderes. Estas são «as poderosas esperanças que fazem de nós homens».
Mas significativamente, se nós, os pais, contarmos estes contos de fadas aos nossos filhos, podemos dar-lhes a mais importante de todas as confianças: a de que concordamos com a ideia de que podem levar a melhor sobre os gigantes”66
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Se encararmos o mundo do “faz-de-conta” como um instrumento pedagógico para que a criança se insira e seja capaz de interferir com as diferentes leituras do mundo, e a partir daqui criar a sua própria, diremos que este é uma potencialidade aberta para que a criança concretize etapas do seu desenvolvimento. Respondendo às angústias mais interiores como morte, vida, sexualidade, entre outras, o mundo do “faz-de-conta” que o conto de fadas apresenta torna-se a possibilidade de descobrir outros mundos onde os conflitos derivam em soluções, e onde a criança pode sentir novas e por isso, emoções diferentes, um mundo onde todos os lugares e os seres são novos, e por tudo isso, ser capaz de formar ou estruturar novos critérios, novos conceitos, opiniões e novos valores.
Pensar, reflectir, elaborar estratégias e prever conclusões tornam-se operações que será sem dúvida, capaz de efectuar. Mas só estará inserida no seu mundo, na sua realidade se estiver envolta numa dimensão afectiva, tal como o seu herói quando no fim voltou para casa, ou encontrou o seu par …