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6 Educação em Cabo Verde

6.1 Período colonial

A abordagem da educação no contexto colonial assume uma relevância acrescida, atendendo aos percursos inerentes ao projecto do desenvolvimento nacional conquistado. Posto isto, vale a pena abordar, ainda que de uma forma breve, a educação colonial e a sua prática em Cabo Verde, o que permitirá não só avaliar a herança educativa que o Estado pós-colonial recebeu, mas também, e sobretudo, os constrangimentos com que este se defrontou inicialmente e as acções que levou a cabo com vista à concretização de uma nova estratégia educativa.

De acordo com as autoridades portuguesas, nos anos 70, cerca de 90% das crianças cabo-verdianas em idade escolar tinham acesso à escola. Por outro lado, havia 18 escolas primárias e 248 postos escolares, sendo que 80% da população era rural (Foy, 1988:135). Segundo a mesma fonte, o ensino secundário assegurava, por seu turno, uma educação de qualidade que em nada ficava a dever aos padrões europeus de então, registando um rácio professor/aluno, 1/19, raramente alcançado no âmbito de outros países europeus e nunca atingido em Portugal.

Refira-se que a educação proporcionada na altura era, essencialmente de carácter elitista e desligada da realidade social cabo-verdiana. Os jovens eram educados e instruídos ou mesmo alfabetizados nos pressupostos das modalidades portuguesas, fazendo com que tendessem a adoptar um estilo de vida mais português do que cabo-verdiano. Ou seja, na verdade, tudo indica que o Estado colonial proporcionava uma educação fragmentada, que como tal era dirigida a alguns jovens, excluindo em grande parte as classes sociais e os povoados mais desfavorecidos.

Segundo Ferreira (1977), a pequena elite possuidora de uma formação escolar com base na cultura portuguesa, conseguia uma ascensão social que lhe permitia orientar os destinos da sociedade local e estabelecer uma ligação com o “Império”.

É de referir ainda, que a escola colonial funcionou, por conseguinte, como veículo de consolidação do poder colonial, dando aos indivíduos uma formação moral, religiosa e política baseada nos padrões portugueses, com o objectivo de incrementar ou reforçar o poderio metropolitano nas suas colónias. Os conhecimentos relativos aos factos e às realidades históricas da metrópole eram transmitidos aos alunos desde os primeiros anos da instrução, contrastando com a quase totalidade de referências às culturas locais. Registavam-se sinais de educação colonial que rigorosamente obedecia a uma estratégia política mais vasta em prol dos interesses económicos e políticos de Portugal metropolitano.

Ainda nos relatos de Ferreira (op. cit.), a pretensão do Estado colonial também passava pela ideia de falsear a história colonial, a fim de, por um lado, conquistar o apoio ou a convivência do povo português, sobretudo, no que diz respeito às guerras coloniais, a partir da glorificação do passado e, por outro, justificar através de propaganda, junto da opinião pública mundial, a presença colonial portuguesa em África e a ideia de que o colonialismo português representava uma contribuição valiosa para o progresso da humanidade.

Uma das formas encontradas pelo colonialismo português para executar essa política, parece estar no controlo educacional através do qual tentou, por um lado, o “aportuguesamento dos africanos” e, por outro, a formação de “bons trabalhadores”, que pudessem garantir efectivamente a rendibilidade da economia colonial.

Atendendo ao Censo de 1950, o índice de analfabetismo revelado mostrava que as percentagens do analfabetismo eram de 96.97 em Angola; 78.50 em Cabo Verde; 98.85 na Guiné; e 97.86 em Moçambique. Essas percentagens seriam ainda mais elevadas se se considerasse de forma isolada a população africana, dado que a

mesma fonte apresentava uma percentagem consideravelmente mais baixa em relação à população branca (Ferreira, op. cit.).

A qualidade do ensino para os africanos, indubitavelmente era muito baixa, pelo que as múltiplas contestações tinham razão de haver, internamente como externamente, contra as más condições do ensino nos finais da década de 50, exigindo o Governo a fazer alguns esforços no sentido de encontrar uma forma de ensino menos limitada do que a proporcionada pelo referido Estatuto (Ferreira, op. cit.).

Os protestos que se levaram a cabo com vista a melhorar as condições de ensino, tiveram como impacto maior a abolição formal e definitiva de uma educação especialmente destinada a africanos através do Decreto n°45908 de Setembro de 1964, embora aplicado desde 1961. A educação tornou-se obrigatória para todas as crianças entre os 6 e os 12 anos, dentro dos mesmos princípios aplicados na metrópole (Ferreira, op. cit.).

Por outro lado, há que referir que a nova política educacional implementada trouxe consigo alguns melhoramentos a nível da expansão do ensino, traduzida num aumento do número de escolas, de estudantes e de pessoal docente. Contudo, o seu objectivo principal continuava a ser a inculcação dos valores portugueses e o fortalecimento da unidade nacional, nomeadamente através da Língua Portuguesa, que permanecia obrigatória e a única a ser utilizada no ensino. A pouco e pouco, curiosamente, houve a necessidade de desenvolvimento do próprio colonialismo português, pela situação internacional e particularmente pelas manifestações de uma alternativa que os movimentos de libertação ofereciam à dominação portuguesa. Portugal conseguiu, sem dúvida, formar uma elite africana que, ainda que em número reduzido, constitui uma pequena burguesia e encoraja alguns funcionários e pequenos empresários africanos a aliarem-se a Portugal. Tais quadros representavam pré-condições para uma solução neocolonialista que poderia ser então considerada um “sucesso” da política educacional portuguesa. Contudo, o facto não significa certamente uma promoção das populações africanas (Ferreira, op. cit.).

Em Cabo Verde, a educação colonial terá encontrado a sua máxima expressão numa estratégia colonial de recrutamento de administradores e de pequenos chefes de Posto. Com efeito, esses executivos eram recrutados para trabalhar noutras colónias, sobretudo, naquelas paragens para onde os metropolitanos não se sentiam encorajados a ir, devido à inospitalidade do clima e à distância do continente. E porque se tratava de uma colónia em que os nativos eram considerados assimilados (conforme a hierarquia colonial), Cabo Verde apresentava-se, por excelência, como um viveiro de pequenos executivos (Lopes, 1993).

A influência da Igreja foi decisiva na determinação do sistema de ensino colonial em Cabo Verde, à semelhança do que estava a verificar nas restantes ex-colónias portuguesas. Além do seu carácter limitado, o ensino colonial passou por vicissitudes e dificuldades diversas, devido à desorganização do sistema educativo associado à insuficiência do pessoal docente e ainda mal pago. Os primeiros momentos de alfabetização datam do séc. XV, e mais uma vez, refira-se a intervenção da Igreja nesse domínio, com a chegada dos missionários religiosos enviados, a propósito da propagação da Fé cristã. Processo esse, que teria de passar pelo acto de educar e ensinar nas escolas missionárias. Essa alfabetização também nunca atingiu um número significativo de educandos. Em 1525, Portugal tentara proporcionar ao Arquipélago uma base mínima do ensino, todavia, esta limitava-se mais à formação do clero. Só em 12 de Janeiro de 1740 foi nomeado um mestre de gramática para a ilha de Santiago. Em 1773, as autoridades locais pediram a designação de um mestre de leitura escrita e latim para ensinar o povo. A primeira escola primária oficial foi criada em 1817, a mesma que veio a ser encerrada em 1821 devido à morte do professor, tendo retomado a sua actividade logo depois para ser novamente fechada em 1840. Em 1911, em Santiago, só existiam dezassete escolas oficiais face a pelo menos trinta mil alunos. Esta situação alargou-se paulatinamente ao resto do arquipélago (Margarido, 1983).

Ainda no entender de Margarido (op. cit.), atribuía-se seguramente ao sistema administrativo a responsabilidade das múltiplas dificuldades que rodearam o ensino em Cabo Verde.

Por outro lado, Lopes (1993) reforça a constatação e alude que o estado lamentável de instrução deve ser atribuído à administração colonial do antigo regime que propositadamente procurava manter os filhos das colónias em perfeita ignorância, acentuando-se este facto desde 1884 nos pressupostos doutrinários do Poder Real. No entanto, a primeira reforma do ensino primário em Cabo Verde, deu-se no decorrer do período da Republica parlamentar em Portugal (1910-1926), pelo governador Fontoura da Costa, em 1917.

Era patente a necessidade de desenvolver esforços com vista ao desenvolvimento e criação de melhores condições com o objectivo principal de uniformizarem os métodos de ensino, cooperarem na selecção de indivíduos convenientemente habilitados para exercerem o magistério, melhorando efectivamente todo o sistema de instrução elementar em Cabo Verde, ainda que deficiente e defeituoso.

O ensino secundário só conheceu algum êxito a partir da criação do Seminário-Liceu em S. Nicolau, não obstante as grandes dificuldades. O Fundado D. José Alves Feijó, que tinha sido eleito Bispo de Macau, foi depois transferido para Cabo Verde. O Seminário-Liceu de S. Nicolau foi criado pelo Decreto de 3 de Setembro de 1866 (Lopes, op. cit).

O surgimento do Seminário-Liceu constitui rigorosamente a materialização de um desejo que antes não tinha sido possível realizar devido, sobretudo à escassez de fundos para custear as suas despesas. Essa instituição nasceu na sequência da proposta da Igreja ao Estado para criar um estabelecimento com a dupla finalidade. Por um lado, preparar os jovens que desejassem seguir a vida eclesiástica. Por outro lado, incutir na formação dos jovens que não querendo seguir a vida do sacerdócio, tivessem optado por seguir os estudos superiores ou apenas adquirir uma formação literária e científica (CERRONE, 1983).

Pode-se dizer, em síntese, que pelo menos até aos anos 60 do séc. XX, o sistema de ensino em Cabo Verde foi muito limitado. Desta feita, no olhar de Silva (1991), o

investimento na educação por parte do Estado colonial era diminuto. A maioria da população não teve qualquer contacto com a escola, cujo papel foi o de criar uma reduzida minoria, capaz de assumir funções auxiliares no quadro do sistema colonial. Com a reforma da política colonial, a partir de 1962, designadamente a promoção de uma expansão significativa do ensino nas colónias, Cabo Verde quadruplicou a sua população escolar, em 1970.

Na verdade, o que a metrópole pretendia era conseguir uma identificação da população com Portugal ou pelo menos uma filiação cultural. Estas oportunidades de acesso à escola proporcionadas a uma parte das crianças cabo-verdianas antes da independência resultaram, no entanto, na formação de uma elite constituída por aqueles que haviam frequentado escolas pós-primárias ou mesmo superiores, o que permitiu uma diferenciação social ainda mais acentuada. Daí que, pode se dizer que o aparelho do Estado colonial constitui um importante meio de reprodução desta elite, como de resto aconteceu nas outras colónias.