Capítulo 4 – O caso de Górdion
4.1 Período Helenístico
A cidade de Gordion (ver fig. 7) tem muito a oferecer no que diz respeito à análise de um espectro variado de elementos provenientes da cultura material da população gálata, que habitava o sítio durante o período helenístico, ou seja, 330 a 100 a.e.c..
Figura 7: Mapa do sítio arqueológico de Gordion destacando os tumuli como pontos vermelhos (DARBYSHIRE e PIZZORNO, Expedition, vol.51, n. 2: 14)
Nos anos 2000, descobertas da equipe do Penn Museum da Universidade da Pensilvânia originaram publicações que permitem novas interpretações sobre o caráter e a ocupação da cidade por estas populações. Nos relatórios de escavação disponíveis sobre o sítio arqueológico de Gordion hoje são classificados um primeiro ciclo de escavações no qual havia um interesse principal nos vestígios provenientes do período alexandrino e um novo ciclo de escavações, iniciado nos anos noventa, dando ênfase às mudanças ocorridas em Gordion ao longo de seus períodos de ocupação.
Com o avanço das pesquisas e o desenvolvimento teórico e metodológico da arqueologia e das ciências humanas, os dados coletados passam a ser analisados de forma
69 interdisciplinar. Isso explica as mudanças no foco das pesquisas arqueológicas que ali acontecem e também constitui um grande avanço para o estudo do sítio.
A cidade é identificada por Selinsky (2005) como o local onde ocorriam rituais de sacrifícios humanos durante o período helenístico. A autora chega a essa conclusão através da observação de patologias traumáticas presentes em ossos humanos que sugerem violência interpessoal como causa mortis ou que ocorreram próximo a morte do indivíduo (ver fig. 8 e 9) (SELINSKY, 2005: 121).
Figura 8: Trauma peri mortem no fêmur encontrado no conjunto 11 (Selinsky, 2004: 39)
Figura 9: trauma causa mortis no crânio encontrado no conjunto 5 (Selinsky, 2004: 39)
Os trabalhos sobre o sítio de Gordion desde os anos noventa até 2012 formaram uma coleção de esqueletos datados do séc. XVII a.e.c. ao IV séc. e.c.. Um dos ciclos de
70 escavação, entre 1993 e 1995, sob coordenação de Mary M. Voigt, deu origem à primeira publicação que interpretava determinados vestígios como indícios de sacrifícios humanos oriundos do período helenístico tardio.
Para caracterizá-los como fruto de ritualização é importante salientar que os esqueletos foram frequentemente encontrados em posturas atípicas, parecendo ter sido cuidadosamente posicionados, por vezes misturados a ossos de animais, além disso diversos depósitos consistiam nos restos de mais de um indivíduo. (DANDOY et al. 2002 e VOIGT et al 1997; SELINSKY, 2005: 121)
Estes tipos de depósitos têm paralelos com sítios da Idade do Ferro na Europa e foram interpretados como resultado de atividade ritual (CUNLIFFE, 1997). Provenientes do período helenístico tardio, ou seja, do período de assentamento das tribos celtas de Trocmi, Tolistobogii e Tectosages que migraram da Europa para a Anatólia, e similares a outros vestígios deixados por outras tribos na Europa e Ilhas Britânicas. Assim, foram interpretados como indícios da prática de sacrifícios humanos. A similaridade na cultura material destas populações costuma ser interpretada como permanências culturais ou heranças guardadas pela tradição. Aqui propõe-se o abandono destas concepções e a flexibilização da noção de tradição que é aqui entendida como continuamente criada e recriada no processo da prática ritual (BELL, 1992).
Assim, com as fontes de que se dispõe atualmente, não há como recuperar o quanto estas práticas teriam sido ressignificadas durante os períodos de migração e assentamento dos Tolistobogii em Gordion. O que é possível dizer é que a prática de sacrifícios humanos entre os Tolistobogii de Gordion se deu de forma mais ou menos regular no período helenístico e era dotada de alguns padrões principais.
Observou-se nos relatórios de escavação e nos trabalhos sobre a cultura material do sítio de Gordion durante o período helenístico uma ênfase clara dos escavadores nos esqueletos humanos e sua disposição em detrimento dos demais objetos em conjunto não constando por vezes a identificação dos ossos animais ou dos objetos encontrados. A área A, por exemplo, foi caracterizada como uma superfície desnivelada coberta por pequenas porções do que foi interpretado como lixo pelos pesquisadores do sítio, no entanto, não há informações sobre esse lixo ou sobre o que embasou uma tal interpretação, o que constitui um problema já que este material dificilmente será acessado novamente.
Enquanto esta área apresenta majoritariamente esqueletos completos, à exceção de uma junção de esqueletos parciais, a área B é descrita como dotada de “bone clusters”, ou
71 seja e tal como vemos na figura 10, aglomerados de ossos diversos pertencentes a diferentes indivíduos e cuidadosamente unidos e depositados no local apresentando também ossos de animais em conjunto. Estes conjuntos haviam sido inicialmente interpretados como vestígios de banquetes, mas sua interpretação mudou ao perceber-se ali a presença também de esqueletos humanos ainda que parciais como na ilustração do conjunto 9 presente na figura 10 (VOIGT, DANDOY e SELINSKY, 2002).
Figura 10: Conjunto 9 (VOIGT, 2012: 269)
Não se verifica uma predileção de gênero ou idade entre os indivíduos encontrados nos conjuntos de ambas as áreas. Há um conjunto em que deformações congênitas se tornariam visíveis para o grupo social na forma de dificuldade de locomoção do indivíduo devido a dor nas articulações, mas sua baixa ocorrência, apenas um conjunto, parece indicar que este não seria um dos fatores preponderantes na escolha dos indivíduos a serem sacrificados. Também não há marcadores que demonstrem que os indivíduos teriam um status social determinado apesar de fontes escritas relatarem o sacrifício de prisioneiros (CUNLIFFE, 1997).
Tampouco há uma relação entre o local dos depósitos e uma zona específica da cidade – comércio, cultivo, pastoreio, centro político - que pudesse indicar sua motivação.
72 A localização do território utilizado para os depósitos parece ter sido feita pela ausência ali de inundações e de vegetação densa, além de tratar-se de uma suave elevação, o que permitiria a clara visualização do terreno pela cidade e preservaria o contexto de depósito. Isso faria com que a prática ritual perdurasse, pois esta seria iniciada no momento de produção e depósito do conjunto e teria sua memória prolongada pela visualização constante, como lembrete frequente do ritual.
Embora haja similares entre si, o tratamento dado às ossadas encontradas neste período demonstra que as práticas rituais de Gordion apresentam especificidades que transparecem na análise da cultura material selecionada.
A escolha de ossos específicos, por exemplo, parece indicar uma rede de significados particulares para cada ritual no qual cada osso era dotado de uma função ritual específica que transcendia a importância do indivíduo em si. Isso explicaria a utilização de ossos e indivíduos diversos e a não utilização frequente de indivíduos inteiros. Isto quer dizer que, o fato de serem estes ossos provenientes de indivíduos de sexo e idade diferentes e cuja proporcionalidade não aparenta nenhum tipo de predileção parece indicar que os ossos e os rituais teriam uma importância maior do que o indivíduo utilizado.
Embora o catálogo demonstre que nem todos os indivíduos eram vítimas de "assassinato ritual" (INSOLL, 2011), esta prática ocorria em alguns casos mencionados anteriormente (ex.: conjuntos 2, 5, 6, 7, 9, 10, 11, 12). Esta prática poderia, portanto, estar ligada a objetivos rituais específicos que não é possível recuperar através da análise de cultura material disponível.
A excarnação anterior à deposição era uma prática frequente, o que pode ser depreendido de marcas nos ossos. Esta prática também poderia estar relacionada a determinadas mortes naturais específicas como acidentes, ou fatalidades; mas estas últimas não são detectadas na análise osteológica dos conjuntos. Havia, no entanto, diferentes tratamentos para os ossos após a remoção da carne, o que lhes garante graus variados de deterioração.
Os conjuntos ficavam expostos para que fossem vistos pela comunidade embora estivessem fora da cidade em si, por isso a escolha de uma localização um pouco elevada com relação ao assentamento.
Estas premissas apontam para a aparente existência de um "banco de ossos" no qual esqueletos são mantidos até que seja necessário utilizá-los em práticas rituais. Isso não exclui a prática do “assassinato ritual” (INSOLL, 2011) e explica a existência dos
73 aglomerados de ossos encontrados na forma como foram produzidos. Seu significado e propósito, no entanto, se mantém uma incógnita. Não é possível tecer inferências mais profundas a partir da documentação apresentada.