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3 1 O início da trajetória

PERÍODO POA SP RJ BH

1986/1989 PDT PDC-PTB PDT PDT 1989/1993 PT PSB PMDB PSDB 1993/1997 PT ARENA – PP PDT PT 1997/2001 PT PTB PSDB PT

O quadro revela-nos a relação entre o andamento da Reforma Psiquiátrica e o diálogo governo federal / governos estaduais ou municipais, mostrando-nos exatamente o porquê de a Reforma Psiquiátrica em Pernambuco apenas ter engatinhado a partir de dispositivos legais – e não como nos locais referidos, como resultado efetivo de demandas sociais. Isso evidencia a falta de vontade política e vocação democrática dos governantes locais.

Esses dados tornam-se mais explícitos se o confrontarmos com o DOCUMENTO245 elaborado pelo Movimento de Luta Antimanicomial, informando-nos acerca da relação entre as reivindicações por uma Reforma Psiquiátrica no país e os intelectuais e partidos de esquerda; desse documento, constam as idéias para os programas de saúde propostos por partidos/candidatos à Presidência da República de 1994 (campanha de 1993). De todos os programas – PFL, PRONA, PSDB e PT –, apenas no deste último havia questões referentes à saúde mental, como: a extinção progressiva dos manicômios (pela desativação anual de 20% de seus leitos e proibição da construção de novos prédios com tal fim), assim como a feitura de novas modalidades assistenciais e/ou serviços alternativos aos manicômios.

244 Cf. Wikipedia (fonte on-line).

Do mesmo modo, na campanha anterior, salvar-se-iam os programas de saúde dos candidatos de partidos como o PCB e PT, incluídos aí aspectos referentes à área psiquiátrica, como a normatização para internações e extinção dos manicômios judiciários.

E, para além das propostas em si, cabe-nos aqui salientar que a adesão de intelectuais, partidos / candidatos de esquerda à Reforma Psiquiátrica demonstra em que medida o processo articulou-se com os quadros mais gerais dos movimentos sociais, evidenciando sua intensidade na saúde a partir de esforços de médicos, enfermeiros e corpo administrativo/técnico, mas também de membros de associações comunitárias e eclesiais, todos demandando a democratização e universalização do acesso à saúde mental.

Assim, houve um avanço relativo entre as propostas de Reforma durante o processo eleitoral de 1989 – quando as questões de reforma psiquiátrica foram contempladas ainda de modo tímido – e as proposições de 1993, quando as questões sobre Reforma Psiquiátrica aparecem mais sistematizadas, pondo em xeque a histórica função política de exclusão e segregação do hospital psiquiátrico e seu caráter pouco terapêutico da instituição manicomial.

Podemos observar, também, a ênfase crítica ao modelo psiquiátrico vigente, sobretudo em seu aspecto tutelar e custodial, contemplando a questão da cidadania e da extensão dessa categoria ao louco de modo mais proeminente, pela defesa à fiscalização dos locais onde fossem gerados e reproduzidos o sofrimento psíquico e onde fossem mantidos os cronificados. O programa ainda apontaria para formas de produção de uma cultura antimanicomial na sociedade mediante ações educativas e comunicativas, com o objetivo de estimular também ações locais integradas pela rede do Sistema Único de Saúde para a atenção aos dependentes de álcool e drogas, incluindo a proibição de sua presença / intervenção nos manicômios.

As propostas de democratização e humanização das instituições psiquiátricas, por meio de uma efetiva participação do Movimento, buscaram a viabilização da Reforma Psiquiátrica. Sem dúvida, essas propostas, claramente inspiradas nas proposições da

Psiquiatria Democrática Italiana, representaram um enorme avanço para a discussão

sobre o modelo assistencial psiquiátrico concretamente ofertado no Brasil e também um progresso no que diz respeito ao próprio conceito de saúde mental, admitindo, publicamente, a complexidade do fenômeno loucura.

O governo de Pernambuco, no período que vai de 1986 a 1999, esteve sobre a rubrica partidária de partidos políticos que apoiavam o governo central, quando é então eleito o candidato do Partido Socialista Brasileiro PSB, Miguel Arraes246 e, de maneira análoga, a Prefeitura de Recife estaria, no período entre os anos de 1994 a 2001, nas mãos de representantes do PFL. Com a exceção do então candidato a governador Miguel Arraes (em seu segundo mandato e, mesmo assim, sem uma efetiva participação da sociedade), nada foi oferecido de relevante em termos de propostas reformistas.

Dessa forma, a emergência da Reforma Psiquiátrica em nosso Estado apenas começou a ser esboçada, efetivamente, a partir de 1992, mediante a publicação da Instrução Normativa nº 001/92247, cujas intenções de cunho reformista para a assistência psiquiátrica prestada no Estado são esboçadas. Em obediência aos preceitos já estabelecidos pelas Portarias Federais nºs 189/91 e 224/92, que dispuseram sobre as prerrogativas necessárias ao início de uma Reforma Psiquiátrica, que em alguns outros Estados brasileiros já se iniciara:

- considerando excessivo número de leitos em hospitais psiquiátricos, ultrapassando totalmente os parâmetros da Organização Mundial de Saúde do Ministério da Saúde;

- considerando a necessidade de humanização e diversificação dos métodos e técnicas terapêuticas, compatíveis com as atuais diretrizes de saúde mental;

- considerando a necessidade de complementar e regulamentar a nível estadual, as Portarias nºs, 189, de 19. 11. 91 e 224, de 29. 01. 1992 do Ministério da Saúde.

[...]

I – Aprovar a instituição de normas técnicas para funcionamento e supervisão dos serviços de saúde mental, cadastrados pelo Sistema Único de Saúde – SUS/PE [...]

II – Determinar que a presente instrução, passe a vigorar a partir desta data. Recife, o6 de julho de 1992248.

Importa-nos demarcar que, através dessa Instrução Normativa, a Secretaria de Saúde do Estado limitou-se a executar (e se possível acompanhar) os parâmetros e diretrizes estabelecidos por organizações de saúde em nível global e nacional: em primeiro lugar, mostra o descompasso com os parâmetros permitidos pela OMS e pelo MS; em segundo, busca acompanhar as diretrizes estabelecidas pela saúde mental, ratificando duas outras Portarias federais.

246

A Lei. nº 11.064 foi aprovada no segundo mandato de Dr. Miguel Arraes de Alencar.

247 Cf. Diário Oficial do Estado de Pernambuco (1992). 248 Cf. op. cit.

De modo que as ações locais quase sempre esperaram por soluções vindas de Brasília, mostrando uma letargia quanto às mudanças em saúde, diferentemente do que se verifica em outras localidades, cujas transformações na área se deram de forma mais democrática e efetiva, ensejadas por reivindicações de organizações sociais ou de familiares de doentes mentais, além de médicos e intelectuais engajados nessa problemática.