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10. PARANÁ. Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos

1.2 PERÍODOS INTERMEDIÁRIO E RECENTE DO URBANISMO NO BRASIL

Um segundo período do Urbanismo no Brasil pode ser concebido como aquele que vai de 1930 a 1950, de acordo com LEMOS.54 Já OLIVEIRA (1995)55, ampliando o período anterior, inicia-o a partir do segundo pós-guerra, em meio a uma sociedade em permanente transformação, rumo à industrialização e urbanização crescentes, quando acontecem tentativas de instaurar no Brasil políticas permanentes de intervenção no espaço urbano. De forma consciente ou não, o urbanismo passara a fazer parte do ideário coletivo da população, tanto que “a marca mais significativa da época é a construção de uma nova capital, inteiramente pautada nos pressupostos da “ciência” do urbanismo: Brasília (1960)”.56

No entanto, esse período, sem dúvida, é aquele no qual são desenvolvidos os planos para áreas urbanas já caracterizadas como tal e desenvolvidos como parte de estruturas administrativas das cidades principais. Um dos exemplos exponenciais do período é o chamado “Plano de Avenidas”, elaborado por Francisco Prestes Maia em 1930 para a cidade de São Paulo. Desse período também é o trabalho de Agache, que, além do plano para o Rio de Janeiro e outros, faz, em 1943, um Plano Urbano para Curitiba. O conceito de urbanismo usado por esse profissional era, nas suas próprias palavras:

...uma ciência e uma arte e sobretudo uma filosofia social. Entende-se por urbanismo, o conjunto de regras aplicadas ao melhoramento das edificações, do arruamento, da circulação e do descongestionamento das artérias públicas. É a remodelação, a extensão e o embelezamento de uma cidade, levados a efeito, mediante um estudo metódico da geografia humana e da topografia urbana sem descurar as soluções financeiras.57

53 MICELI, S. Intelectuais e classe dirigente no Brasil (1920 - 1945). São Paulo: Difel, 1979, p.39. apud STUCKENBRUCK, op. cit. p. 71.

54 Op.cit.

55 OLIVEIRA, D. Op. cit.

56 OLIVEIRA, D. Op. cit. p.23.

57 LEME, M.C. S. A formação do pensamento urbanístico no Brasil, 1895-1965. In LEME, M.

C. S. (Coord.)Op. cit., p. 29.

No terceiro período, compreendido entre 1950 e 1964, são focalizados os planos regionais como etapa necessária à organização do território nacional. Já são notáveis os movimentos migratórios do campo para as cidades, o crescimento da população concentrada em centros urbanos, o surgimento de conurbações e maiores demandas por serviços e equipamentos nas cidades.

A década de cinqüenta abre novos panoramas para o urbanismo e o planejamento urbano. Desde o final dos anos 40, a área adquire consolidação mais efetiva, processo favorecido com as idéias trazidas pelos profissionais estrangeiros Bouvard e Bardet ao país.58 Forma-se uma geração de profissionais - engenheiros, arquitetos, sociólogos e geógrafos - que trabalham em equipes multidisciplinares, organizam os primeiros departamentos de urbanismo das prefeituras, produzem os primeiros planos diretores pelo país afora. Também se tornam mais diferenciados os objetos de trabalho do urbanismo e planejamento urbano.59

No quarto período do Urbanismo no Brasil, verifica-se a consolidação de diretrizes urbanas já estabelecidas nos três períodos anteriores. O governo federal, sob o regime militar (1964-1985), direcionou-se para implantar o planejamento, a modernização e a reforma urbana, sobretudo nas metrópoles em expansão. Nesse período, foram criadas entidades como o Banco Nacional da Habitação - BNH60, a Empresa Brasileira de Transporte Urbano - EBTU e o Serviço Federal de Habitação e Urbanismo - SERFHAU.

O Serviço Federal de Habitação e Urbanismo - SERFHAU, criado em 1964, tinha por função prestar assistência técnica para elaboração dos planos diretores para os municípios, porém, tal qual a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste - SUDENE e as superintendências de desenvolvimento regional, “não tinha

58 Nesse caso, a presença de urbanistas estrangeiros soma à sua atuação profissional, oportunidades para a formação técnica do quadro nacional. Gaston Bardet ministrou curso intensivo em Belo Horizonte em fins dos anos 40. O padre dominicano Joseph Lebret esteve em São Paulo, Recife e Belo Horizonte em 1946-47, para palestras visando difundir o Movimento Economia e Humanismo e estabelecer escritórios regionais da SAGMACS, que congregavam arquitetos, sociólogos, economistas, engenheiros, segundo Leme,(ld).

59 A esse respeito, ver os conceitos adotados no trabalho, citados em nota de rodapé, item 1.

60 “No período compreendido entre 1965 e 1985, duas grandes tradições teorizaram sobre o papel dos urbanistas na sociedade capitalista contemporânea: a weberiana e a marxista”.

Segundo Oliveira, “a perspectiva weberiana inspirou inicialmente estudos voltados para o papel desempenhado pelos burocratas do serviço público, envolvidos tanto com a alocação de serviços como de infra-estrutura urbana, notadamente a habitação. Pouco conhecida entre nós, esta corrente alcançou notável divulgação entre a sociologia urbana européia até, pelo menos, meados da década passada”.

nenhuma autoridade sobre os órgãos que executavam e/ou financiavam as políticas afetas às áreas urbanas”. Esse órgão foi extinto em 1974, sendo substituído pela Comissão Nacional de Regiões Metropolitanas e Política Urbana (CNPU), que se transformou em Conselho Nacional de Desenvolvimento Urbano (CNDU), o qual foi extinto pelo governo do Presidente José Sarney, que o substituiu pelo Ministério do Desenvolvimento Urbano, extinto pelo governo do Presidente Fernando Collor de Mello61

A criação das oito62 regiões metropolitanas em 1973, pela Lei Federal Complementar n.° 14, objetivou a coordenação das atividades das diversas agências relacionadas com os problemas urbanos e caracterizou as metrópoles como pólos de desenvolvimento urbano coordenado por entidades específicas.

O II Plano Nacional de Desenvolvimento - II PND (1975-1979) “foi, sem dúvida, a primeira tentativa de formulação de uma política nacional de desenvolvimento urbano“.63 Quanto às regiões metropolitanas, no entanto, a estrutura política e organizacional, com coordenações de alcance estadual, sem verbas próprias, sem articulação formal com os órgãos federais e limitadas às capitais, dificultou a sua implementação.

O objetivo principal da política nacional para áreas urbanas era a descentralização inter-regional de Rio de Janeiro e São Paulo e também das atividades industriais. A Região Metropolitana de Curitiba foi objeto de estudo do IUPERJ/MINTER de 1975, que avaliou as realizações de planejamento urbano da capital paranaense até a metade dos anos setenta, e concluiu que a dimensão técnica dessas soluções era o que havia de menos original, pois poderiam ser produzidas por outros centros urbanos maiores e mais desenvolvidos. Nem mesmo originais seriam as soluções curitibanas. O que havia de notável nelas é que tais soluções puderam ser implementadas. Assim, no “caso de Curitiba” a contribuição para o aprimoramento das técnicas de planejamento urbano nacional não estaria na

61 Segundo OLIVEIRA, op. cit.

62 A Região Metropolitana do Rio de Janeiro foi a nona região metropolitana instituída no país, no ano seguinte às demais regiões metropolitanas brasileiras, quando foi extinto o Estado da Guanabara.

63 OLIVEIRA, op. Cit. p.28.

originalidade mas “em sua dimensão político-institucional. Não é a técnica do planejamento, mas a política do planejamento o fator mais relevante”.64

Ao longo do tempo, inovações foram incorporadas ao repertório do planejamento nacional. Integrante da Constituição de 1988, o princípio de função social da propriedade é um dos pontos mais importantes, pois torna obrigatória a propriedade do solo urbano dar aproveitamento adequado a seus terrenos, sejam não-edificados, subutilizados ou abandonados. Para obrigar o cumprimento, o poder público conta com três instrumentos: a edificação ou parcelamento obrigatórios, cobrança de IPTU progressivo ao longo do tempo e a desapropriação, pagável com títulos resgatáveis em dez anos.65Esse instrumento ainda não foi regulamentado por lei complementar necessária.

A idéia do “solo criado” surgiu na mesma época e vem sendo aplicada em diferentes versões da proposta original, devido a dificuldades iniciais, principalmente à resistência dos proprietários em renunciar aos seus direitos de construção adquiridos por força de lei aprovada anteriormente, para reavê-los por meio de pagamento ao Estado, o que vem sendo aperfeiçoado.66

De forma sintética, pode-se afirmar que a urbanização brasileira apresentou perfil de crescimento acentuadamente ascendente e bastante significativo a partir da década de sessenta. Esse processo de urbanização ocorreu especialmente nos anos oitenta, coincidindo com um período em que os investimentos caracterizaram- se pela retração, devido à conjuntura econômica internacional e interna, o que veio a maximizar as carências de implantação de infra-estrutura, serviços públicos e equipamentos sociais comunitários nas cidades.

Nos anos noventa, observa-se a acentuação das condições de pobreza nas maiores cidades, formando um quadro de contraste com “ilhas de primeiro mundo”

formadas pelas áreas urbanas bem servidas por infra-estrutura e equipamentos, nas quais as soluções da moderna tecnologia atendem às camadas de maior poder aquisitivo. Essas áreas “de ponta” das cidades brasileiras encontram-se conectadas a um circuito global de comunicações, servido pela telemática, e que funcionam à

64 id„ p.34.

65 BRASIL. Constituição Federal. Brasília : Senado Federal,1988, art.182, parágrafo 4o.

66 Exemplo é o uso no município de Curitiba, que persiste na nova lei de zoneamento.

parte do “circuito inferior e periférico da pobreza”.67 Nos países com grandes lacunas de desenvolvimento, como o Brasil, formam-se então cidades de grandes dimensões marcadas por grandes desigualdades econômicas, sociais, de demandas e formas de utilização do espaço.

Contemporaneamente, percebe-se a conformação de rede de cidades em função do mundo globalizado e teleinformatizado. A rede vem evoluindo a partir de várias dinâmicas, dentre as quais se destacam as de comunicação e comércio.

Nesse ponto, as cidades, tanto brasileiras como mundiais - especialmente do Terceiro Mundo - tornam-se espaços de complexidade crescente. O contexto urbano apresenta fragmentações radicais e os estudos que pretendem aprofundamento têm que optar por um dos dois circuitos apontados por SANTOS, determinados por temporalidades hegemônicas ou hegemonizadas.68

Nesse período de rápidas transformações, observa-se o aprofundamento da teorização sobre as cidades, em que se encontra o pensamento de Manuel Castells - importante autor da corrente marxista-estruturalista - que considera o sistema urbano como uma expressão do sistema total do qual ele é parte: o modo de produção capitalista: “O sistema urbano desempenha uma função específica no sistema total, isto é, a reprodução da força de trabalho através da organização do processo de consumo". A cidade, através de seus compartimentos espaciais específicos, seus diversos espaços, incrementaria a reprodução da força de trabalho, conforme sustenta OLIVEIRA (1995), que assim se expressa:

...o processo de consumo está se tomando concentrado, bem como a própria população está também se tomando mais e mais concentrada. Nele o Estado assume de forma crescente a responsabilidade pela provisão de meios de consumo essenciais. Assim, espaço urbano e a reprodução da força de trabalho estão se tornando crescentemente dependentes do nível e da forma pela qual o Estado provê os necessários meios de consumo. Logo, na medida em que o consumo se toma uma questão coletiva, a questão urbana se transforma numa questão política. [grifo nosso]

67 Em alusão ao termo criado por Milton Santos em O espaço dividido. Rio de Janeiro : Francisco Alves, 1979, p.30 et seq.

68 SANTOS (1997 p. 31).