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As determinações que envolvem os deslocamentos entre países, atravessando fronteiras físicas ou oceânicas, são, muitas vezes, bordadas nos mapas pessoais com outros deslocamentos. Quase como um ‘perambular’ entre localidades, os sujeitos percorrem diferentes trajetos até atingirem aqueles com os quais mais se identificam. Os eventos marcantes dessas trajetórias são retidos na memória, e através da lembrança, são trazidos à tona. As perguntas são as mesmas, porém as respostas diferem, afinal, recordações são subjetivas.

Representações de si em relação ao local do passado, quando ocorrem, organizam-se de formas diferentes, remetendo a sujeitos com origens semelhantes, como pequenas localidades, porém de grupos abastados no caso de Peter:

eu sou de um pequeno vilarejo [ ] [...] perto, cerca de uma hora de Londres, então a cidade mais próxima é Londres, hmm, a cidadezinha mais próxima é chamada High Wycombe, e é bem no meio entre Oxford e Londres. [...] [o vilarejo de onde venho é] muito pequeno, é do tamanho de, eu não sei, eu não sei, talvez de Intermares, é um local pequeno, um local pequeno. [...] sim [r] ok. É nesse condado chamado Buckinghamshire, no sudeste, é calmo, como uma boa parte do país, é bem verde, rural, e é bem afluente, eu creio, a maioria das pessoas que vive lá, muitas pessoas que vivem lá trabalham em Londres [...] (PETER, 2013)74

Características como vir de uma cidade pequena, que é calma e !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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I’m from a small village [ ] […] near, about an hour from London, so the nearest city is London, ahm, nearest town is a place called High Wycombe, and it’s pretty much in the middle of Oxford and London. […] very small, it’s like the size of … I don’t know, I don’t know, maybe like Intermares, i’ts a small place, a small place. […] yeah [r] ok. It is in this county called Buckinghamshire, it’s in the southeast, it’s quiet, as a nice part of the country, it’s very green, rural, and it’s quite affluent, I suppose, most people live there, a lot of people who live there commute to London to work […] (PETER, 2013)

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oferece uma relativa proximidade com o local de trabalho são apontadas por Peter na descrição da sua cidade de origem e que a aproximam das características de João Pessoa, já que muitas pessoas vivem em Intermares e trabalham em João Pessoa. Outro interessante ponto apontado por ele é sobre a associação entre a cor verde e a ruralidade da localidade de origem, uma vez que a cor pode ser utilizada como a cor da esperança, força e vida longa (CHEVALIER & GHEERBRANT, 1996). Vir de uma cidade que detém tais simbolismos sinaliza que ele também carrega consigo esperança, força e o desejo de vida longa, muito embora esta última não se realize no ponto de origem e sim em outra localidade. Mais à frente, outro entrevistado – Robert – também faz uso da cor verde como referência, porém desta vez para a sociedade- lar.

O perambular pelas fronteiras pode ser fruto de relações de afeto. Adriana Piscitelli (2011), ao abordar a temática dos casamentos transnacionais e que são atravessados pelas relações de afeto, de interesse, entre outras, aponta que a formação das díades amorosas ocorre agenciada por viagens turísticas, de cooperação entre agências internacionais e convênios entre universidades. Meus entrevistados estão inseridos nesses universos aos quais eu acrescento o do trabalho voluntário e também o do trabalhador que se desloca a convite. A possibilidade de uma viagem ao exterior, como voluntário, poderia abrir portas e ajudar na superação de dificuldades pessoais, como mostra Steve:

[...] eu era muito tímido, gagueja [gaguejava] muito, gagueja [gaguejava]. Pra mim essa profissão [de professor] era a última coisa que ia pensar. Mas alguém, nos últimos dias, do último ano, dessa primeira universidade, mencionou que uma organização chamada Voluntary Services Overseas tava fazendo entrevistas para serviço voluntário no exterior. Eu me interessei. Eu fui na entrevista. Eu gostei do que estavam me explicando e chegou uma carta depois. A carta me convidou a trabalhar como voluntário em Colômbia. Meu primeiro pensamento era: eu não

sabia que Canadá era um país em

desenvolvimento. Entendeu? (STEVE, 2012) Apontada de forma crítico-reflexiva pelo próprio Steve, a timidez é destacada como um comportamento com o qual ele não estava satisfeito e, por isso, gostaria de modificá-lo, bem como o tartamudear

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167! que, igualmente, o afligia. Em suas próprias palavras, a escolha do magistério não estaria em conformidade com suas dificuldades pessoais. Não obstante, acredito que a opção profissional permitiu-lhe uma reconstrução do seu futuro, uma fuga da condição pessoal e possibilidade de mudança comportamental, já que hoje em dia, Steve não mais gagueja e, a julgar pelas entrevistas realizadas, considero-o um sujeito bem extrovertido. Além disso, o convite de trabalho, voluntário nesse caso, funciona como um dispositivo facilitador no processo de motivação do deslocamento e da aclimatação no novo local, afinal, ele está indo a convite daquela nação, isto é, sua presença é interessante para a nação.

Outro aspecto que chama atenção no relato de Steve é a momentânea confusão territorial entre o país, Colômbia, e a província canadense, Colúmbia Britânica. Apesar disso, ele não se deixa deter, pois afinal, a necessidade de mudança pessoal, de expansão de conhecimentos e horizontes é latente:

[r] eu saí, eu nasci no noroeste da Inglaterra, no campo, meu horizonte era muito reduzido a um vale, muito bonito, perto dos distritos dos lagos, mas eu sempre senti uma ansiedade de conhecer o mundo [...]. (STEVE, 2012)

Percebo que o entrevistado desloca-se do campo para a cidade, um deslocamento habitual em várias épocas e países, porém suas escolhas lexicais demonstram que a mudança vai além do deslocamento ocupacional. Ciente do seu lugar de origem, contudo inconformado com esta condição, um desejo ontológico de mudança é desencadeado pela possibilidade do serviço voluntário, e realizado por intermédio deste. Fica claro que seu ‘horizonte reduzido’ não seria capaz de deter sua vontade de conhecimento, já que ele buscaria os meios e as estratégias para atingir suas metas. Sendo assim, sair do noroeste da Inglaterra representa um desafio social já que não mais deseja ser o mesmo ou seguir o que o destino ou a família ‘lhe reservara’.

Se não são de regiões distantes das grandes cidades então o meio urbano e, em especial, um local com cenário e histórico de imigrantes, é o ponto no espaço que marca, ou talvez, influencia, a trajetória de Robert:

eu fui educado no Leste de Londres. É carinhosamente conhecido, historicamente [ ] como cockneys, você já ouviu falar de cockneys? Sim, é, é uma área de Londres que é reconhecida pelas gírias inglesas que estão em uso e agora são

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corriqueiras em Londres. Mas tem uma história maravilhosa, tem uma história legal. O Leste de Londres, desde a virada do século, muitas pessoas migraram, imigrantes que vieram para a Grã- Bretanha, especificamente para trabalhar em Londres. O Leste de Londres foi um local que atraiu muitos imigrantes e ainda é o caso hoje em dia. Continua a ser o caso. (ROBERT, 2013)75 As descrições dos locais onde nasceram, ou de onde partiram, falam de passados estruturados de forma factual, mas ao mesmo tempo com representações simbólicas que têm em seu corolário a mudança para o Brasil. São estratégias narrativas que tomam o local de origem como ponto de partida, e referencial de motivação para a mudança. Isto se deve ao fato de que, os habitantes do local de origem também são elementos interseccionais na rota de mudança, pois, no caso de Robert, por ser de uma família de imigrantes e habitar um local que recebeu – e ainda recebe nos dias atuais – um grande volume de imigrantes, acredito ser justo dizer que consciente ou inconscientemente, Robert pode ter sido influenciado pelo ambiente em que morava. A herança migratória é construída na memória coletiva daqueles que estão ao seu redor estimulando – talvez inconscientemente – a sua mudança.

Os elementos constitutivos das memórias, compostos de acontecimentos, de pessoas e ou de personagens, pelos sujeitos referenciados em suas narrativas, e os lugares por eles descritos, são naturalmente trazidos nos discursos. Relações são estabelecidas entre o conjunto de razões que levam os sujeitos a viajar e, em paralelo, com a profissão que exercem para o lugar que se destinam:

então, na Colômbia, quando cheguei lá, pra me convencer que podia aprender mais ou menos o espanhol. Era difícil pra me convencer e eu acho que também, quando me caí como casualidade, nessa carreira de professor, e de professor de língua estrangeira, eu fiquei mais que tudo pela, !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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I was brought up in the east end of London. It is affectionately known, historically [ ] cockneys. Have you heard of cockneys? Yes, it’s, it’s an area of London that’s renown for the slangs of English that is in use and now is common throughout London. But it has a wonderful history, it has a nice history. The East End insofar as the turn of the century a lot of people that migrated, immigrants that come to Britain, specifically to London to work. The East End of London was a place that attracted lots of immigrants and it is still the case today. Very much the case. (ROBERT, 2013)

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169! pela razão de que queria ajudar alunos a aprender, ajudar a professores a ensinar melhor e não passar a humilhação e a péssima experiência que eu tive e milhões. A maioria dos alunos, sejamos realistas, no mundo inteiro, enfrenta, é um fracasso. Melhor não ensinar, melhor não ensinar com esses métodos. (STEVE, 2012)

A crítica à metodologia de ensino que ele havia experimentado com a língua espanhola proporciona um reposicionamento subjetivo no sentido de poder propiciar uma maneira menos frustrante de aprendizagem. A ocupação profissional pode não ter sido uma ‘escolha’ propriamente dita, mas seu desempenho, a partir daquele momento, é regido pelas experiências prévias e com elas é redesenhado o percurso da profissão de Steve. A permanência na carreira é motivada pela necessidade de mudança no panorama da aprendizagem e, potencial, bloqueio de que outros aprendizes tenham experiências infrutíferas semelhantes.

Algumas das primeiras viagens são agenciadas pela intersecção entre religião e assistencialismo:

ele era seminarista das Testemunhas de Jeová nos Estados Unidos e veio ao Brasil como missionário. Chegou ao Recife aos 25 anos de idade e trabalhou como missionário por cinco anos. (BARLOW, 2013)

Uma vez instalados no território brasileiro são levados a perambular pelo Brasil ou em decorrência das ocupações ou via curiosidade de ver o que os outros horizontes têm a oferecer. A igreja funciona como o mecanismo transnacional do pontapé inicial para os sujeitos, contudo, depois que eles se fixam no país a igreja deixa de ser mencionada. John, do mesmo modo, se deslocou para o estado do Rio de Janeiro, no sudeste do Brasil, no ano de 1993, como parte de um projeto pessoal e social, associado à igreja da qual é membro:

eu vim pela primeira vez ao Brasil em 1993, em junho, como parte de um projeto de uma igreja para construir uma creche para crianças de rua em uma favela chamada Xavantes, em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, Rio de Janeiro. (JOHN, 2012)76

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76 I first came to Brazil in 1993 and it was in June, and it was part of a church

project to build a creche for street children in a favela called Xavantes in Belford Roxo, in Baixada Fluminense, Rio de Janeiro. (JOHN, 2012)

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A conexão transnacional Norte-Sul estabelecida, nessa situação pela igreja, enquanto congregação que auxilia os mais fracos, ou aqueles em situações de risco ou vulnerabilidade, pode sinalizar uma atitude colonizadora e europeia de assistencialismo para com o Brasil. Uma relação de poder é instaurada entre aqueles que podem doar o conhecimento, o capital financeiro e o capital humano, e os beneficiários de tais doações. Ser membro de uma congregação religiosa que presta serviços voluntários ou assistências pode sinalizar uma afinidade com aqueles para os quais os serviços são prestados.

A vontade, individual, de ajudar aliada tanto à formação profissional quanto à necessidade coletiva de serviços sociais básicos que a localidade, a favela de Xavantes, em Belford Roxo, apresentava, une cidadãos de diferentes países, como ilustro no exemplo a seguir: “sou um engenheiro civil, então, por três semanas, ajudei a construir a creche” (JOHN, 2012)77. O elo entre ele é a igreja, que de forma transnacional estabelece relações sociais, assistenciais e estruturais, aqui refletidas na construção de uma instituição que acolhe, cuida e socializa através de recreação crianças moradoras da favela.

Observo que os objetivos nesse primeiro momento poderiam estar relacionados de forma assistencial e ligaram-se a produção de uma satisfação pessoal do self, a qual parece transparecer e transferir um retorno do conhecimento que possui tanto para aqueles que, potencialmente, não o possuem, quanto para aqueles que do seu trabalho colhem os frutos. A creche, portanto, seria um local para as crianças passarem parte do dia, enquanto seus/as genitores/as trabalham ou executam outras tarefas, e que não poderiam fazer se tivessem que cuidar dos filhos.

Quando falo que os beneficiários ‘potencialmente’ não possuem conhecimento, faço-o tendo em mente a possibilidade de uma participação dos sujeitos locais através da mão de obra, do conhecimento local: ensinando a John as expressões culturais daquele espaço urbano, estabelecendo uma relação de mútua realização na qual um dispõe de conhecimento e recursos técnicos e financeiros, na forma da sua representação da instituição religiosa da qual faz parte, e os outros da participação local.

O papel da igreja torna-se central não somente na disposição da assistência humana e profissional, na forma de trabalho voluntário, bem !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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I’m a civil engineer so for three weeks I helped build the creche. (JOHN, 2012)

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171! como da assistência financeira, como é ilustrado em:

a igreja a qual eu pertencia na Inglaterra havia doado uma boa soma em dinheiro para essa comunidade, e eles haviam feito contato com alguns brasileiros e alemães e [ ] eles vieram para a nossa igreja falando sobre todos os problemas que eles estavam enfrentando nessa favela, e eu estava na congregação naquela época e como um homem solteiro, eu senti, eu sinto, senti que poderia ajudar em algum lugar, então foi através deles que eu vim para o Brasil [...] (JOHN, 2012)78

Fazer parte da igreja não quer dizer apenas assistir missas e doações financeiras, mas implica em um envolvimento que vai além das celebrações de Eucaristia e promove construções, faz com que o seguidor daquela religião saia, literalmente, de sua zona de conforto e viaje para outros países. A Igreja, enquanto instituição religiosa, é inserida como parte integrante do sujeito pois ela é, em suas palavras, a ‘nossa’ Igreja. A ‘congregação’, como John a nomeia, promove conexões nos países onde tem representações, aqui exemplificados através das nações inglesa e germânica e, a partir daí, pode mobilizar os voluntários que assim desejarem participar dos seus projetos. A motivação de John, enquanto cidadão de um país localizado no Norte hegemônico, capitalista, com histórico imperialista e colonizador, para vir ao Brasil, um país do Sul menos favorecido, que apresenta localidades em situações vulneráveis, gira em torno do sentimento de poder ajudar, sentimento esse que se assemelha ao de um missionário.

A primeira vinda ao Brasil, enquanto projeto particular, possui um espaço que permite maior liberdade de ação: a disponibilidade pessoal. O fato de ‘estar solteiro’ favoreceu, sutilmente, um estado de espírito favorável para a ajuda, pois ‘estar solteiro’ poderia significar a disposição de tempo para com os outros, nesse caso, as crianças da favela, uma vez que não existia no cenário uma família com a qual ele deveria ocupar-se. Não oblitero o fato de que o estado civil de John agrega pessoalidade e singularidade à situação, podendo configurar um !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

78 The church that I belonged to in England had donated quite a lot sum of

money to this community and they made some contacts with some Brazilians and Germans and [ ] they came to our church talking about all the problems they were experiencing in this favela and I was in the congregation at the time and as a single man I feel, I feel, felt I could help in somewhere so it was through them that I came to Brazil […] (JOHN, 2012)

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caso específico. A mobilização no âmbito ‘emocional’ e pessoal é realizada através do relato dos ‘problemas experienciados na favela’79.

A recorrência do termo ‘favela’ é observada para destacar o espaço urbano e sua especificidade social onde o primeiro contato de John com o Brasil foi realizado:

quer dizer [ ], eu fiquei no Rio por muito tempo, eu estava em uma favela, um ambiente muito muito difícil, um ambiente muito violento, mas foi lá que eu primeiro conheci o Brasil [...]. (JOHN, 2012)80

John não faz uso de termos traduzidos em inglês, como por exemplo shanty town, jerry-built shack ou slum, mas sim do vocábulo em português, hoje já internacionalizado pela mídia, atribuindo uma força significativa ainda maior ao contexto em que prestou assistência. A ênfase adverbial na violência serve, simultaneamente, para destacar as dificuldades enfrentadas por ele e pelos moradores, mas também serve como contraponto para a cristalização da imagem sobre o primeiro local, que marca John no contato com o país.

Língua e cultura não podem ser dissociadas e, por isso, muitas vezes, os termos são utilizados no original, já que traduções tornam-se impraticáveis. A língua traduz os pensamentos e os termos são levados para o discurso que, por sua vez, materializam os pensamentos. Em outras situações, o uso de vocábulos ou expressões em línguas estrangeiras, ou que foram internacionalizados, muitas vezes reflete o peso semântico e cultural de tais expressões.

Conexões entre sujeitos e culturas podem ser estabelecidas através da língua. Entendo isto como prática social, portanto as escolhas linguísticas feitas no discurso são perpassadas por razões sociais de crenças e valores inerentes às subjetividades do locutor. Logo, a utilização do termo ‘favela’, em oposição a outras formas vocabulares em sua língua materna, configura um marcador vocabular que tem motivação social (FAIRCLOUGH, 2010a) e cultural, pois está diretamente relacionado às culturas brasileiras. Nesse sentido, a aplicação de termos em português faz da língua um dispositivo de !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

79 É interessante observar que o dicionário Merriam-Webster já registra em seu

banco de dados o substantivo ‘favela’ indicando a origem como o português brasileiro e o primeiro uso, em inglês, no ano de 1946.

80 I mean [ ], I stayed in Rio a lot, I was in a favela, very very rough

environment, very violent environment, but it was there that I first met Brazil […]. (JOHN, 2012)

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173! inclusão e hibridização.

Ressalto o fato de que, ainda que o termo ‘favela’ não faça parte da etimologia das palavras anglo-saxônicas de forma original, é através do uso internacional que John conecta-se à cultura, como um indicador do vínculo que o sujeito tem com aquela língua e, portanto, com aquela cultura, fazendo marcar no seu discurso que somente aquela palavra pode, de fato, expressar e dar sentido ao que ele deseja enunciar. Desse modo, a favela de Xavantes, em Belford Roxo, estado do Rio de Janeiro, mais do que figurar o espaço em que John esteve, indica um lugar que passou a fazer parte da memória dele, como um local de memória.

Na esteira dos deslocamentos agenciados por convênios acadêmicos, Peter comenta:

em 1999 eu era aluno da Universidade de Leeds, e a universidade tinha um programa de intercâmbio com a UFPB, a universidade federal aqui, e então eu vim como parte daquele programa, eu vim para João Pessoa [...]. (PETER, 2012)81

A relação entre as universidades, inglesa e brasileira, constrói um espaço transnacional e de sociabilidade entre as diferentes culturas, tornando-se multicultural e cosmopolita por intermédio das trocas ocorridas quando do contato entre os/as brasileiros/as e os/as estrangeiros/as. Percebo que esse primeiro contato é fundamental para estabelecer a força de atração, ou não, entre os sujeitos, o que pode ser explicado na ênfase de Peter ao apontar que veio diretamente para a capital paraibana.

Vir para o Brasil pode ocorrer através do intercâmbio acadêmico, via universidade, como relatado por Peter (2012, 2013) e Gary (2012), ou por meio de instituição internacional, no caso de Steve (2012, 2013). As conexões religiosas foram apresentadas por John (2012) e Barlow (2013), além das motivações que entremeian as duas, estabelecendo links entre as motivações da área religiosa e os estudos,