Capítulo 5 – Análise e Interpretação dos Dados
5.2. Perceções acerca da amizade
Todos os entrevistados mostraram-se decididos aquando da questão acerca da preferência da interação com os seus amigos, todos preferem a interação fora do ecrã, sendo que a justificação mais dada (9) prendeu-se com o facto de darem preferência ao contato/interação pessoal:
“Fora, mas não tenho oportunidade de o fazer regularmente, mas dou sempre preferência ao contato pessoal porque acho que é muito melhor falamos,
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conseguimos falar diretamente, o contato ocular é importante. Muitas vezes eles no Messenger podem dizer que estão bem e cara-a-cara é mais fácil detetar se realmente eles estão assim tão bem, é diferente, dou sempre preferência ao contato pessoal.” (Entrevistado 17)
“Claro que fora do Facebook estando com a pessoa é muito melhor, não é? Cara- a-cara e falar com a pessoa, agora dentro do Facebook aquilo é uma realidade que… não é?” (Entrevistado 19)
Uma outra justificação muito comum, dada por cinco dos entrevistados, prende-se com a possibilidade de ver as expressões dos outros e/ou o que estão a fazer naquele momento. Veja-se dois exemplos ilustrativos:
“Fora principalmente. É diferente estás, em contacto com eles, conversas à vontade, sabes a expressão que as pessoas estão a fazer ao falar contigo, apesar de existirem os smiles sabes lá se se estão a rir, se estão a chorar.” (Entrevistado 6)
“Fora da rede, sem dúvida. Porque na rede é uma coisa virtual, é uma conversa virtual, é um ambiente todo virtualizado e eu a falar contigo no contexto fora do Facebook, é uma coisa totalmente diferente porque é a realidade, é o contacto, é as expressões, é toda uma panóplia de coisas espetacular.” (Entrevistado 10)
As restantes justificações foram relativas ao facto de o utilizador não gostar de escrever; de ter receio de pirataria, perfis falsos e que descubram a sua palavra passe; de não se conseguirem construir relações através do Facebook; da interação cara-a- cara ser mais real/fácil; e do facto de, no caso interação cara-a-cara, a resposta ser espontânea. Neste sentido, pode verificar-se o argumento de Lee e outros (2011) que refere que a comunicação cara-a-cara e o contacto interpessoal irão manter-se relevantes no desenvolvimento de relacionamentos a longo prazo e apoio recíproco entre os indivíduos.
Ao analisar as respostas referentes à questão da facilidade da manutenção da amizade, constata-se que a maioria dos entrevistados (13) considera que a amizade é mais fácil de manter fora da rede. As justificações mais frequentes para tal resposta foram: 1. Os amigos verdadeiros conhecem-se antes da existência do Facebook /a possível
quebra não é tão fácil como nesta rede social virtual (dois entrevistados):
“Os verdadeiros amigos conhecemo-los aos anos, antes de existir Facebook e tentamos preservá-los ao máximo fora disso. O Facebook são amizades virtuais.” (Entrevistado 19)
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2. O facto de existirem expressões que o Facebook não consegue transmitir (trêsentrevistados):
“Fora. Porque tu através do Facebook não fazes nem metade das coisas que podes fazer na vida real, no Facebook podes enviar gostos, fotos, vídeos, mas não podes transmitir um olhar.” (Entrevistado 13)
3. A amizade verdadeira ser cara-a-cara (quatro entrevistados):
“Fora. Porque se são mesmo teus amigos é para tu criares laços com eles fora, não é só numa rede social a pores uma foto com eles de vez em quando porque isso… isso toda a gente faz.” (Entrevistado 5)
As restantes justificações prenderam-se com o facto de ser muito raro ter conversas com os seus amigos nesta rede social virtual (um entrevistado); o facto de estarem juntos pessoalmente (um entrevistado); receio de uma possível pirataria, pedidos de amizades de perfis falsos (um entrevistado); e, por fim, as “mesquices” (um entrevistado).
Apenas quatro entrevistados consideram que esta manutenção é mais fácil dentro da rede, argumentando o seguinte:
“É muito mais fácil manter a amizade na rede porque na rede podemos conseguir esconder partes de nós que não queremos mostrar… podemos mostrar ser uma pessoa que na realidade não somos, podemos querer mostrar só o nosso lado bom.” (Entrevistado 1)
“Dentro, porque por vezes quando estamos mais vezes com as pessoas cá fora fartamo-nos e pode haver chatices e no Facebook não é tanto assim porque tu podes deixar de falar com a pessoa e depois encontrarem-se cá fora e falarem- se na mesma.” (Entrevistado 3)
“Dentro. Porque se calhar não falamos tanto assim, cara-a-cara, mas por Facebook se calhar até falamos todos os dias e cara-a-cara se calhar nem nos vemos. E não teres disponibilidade ou não te apetecer sair de casa e ali falas com a pessoa todos os dias.” (Entrevistado 15)
“Por essa razão, porque se a minha amizade for só diretamente, se calhar já não tinha tantos amigos como tenho no Facebook, é mais fácil falar com eles diretamente por lá e saber deles por lá porque um telefonema não custa, é verdade, mas com tantas coisas no dia-a-dia acabamos por nos esquecer e sair todas as semanas não dá, estou fora, estou deslocada, portanto acho que é mais
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fácil manter as amizades pelo Facebook, relembrar se está tudo bem por lá, acho que é mais fácil.” (Entrevistado 17)
No que toca aos restantes entrevistados, um deles afirma que depende, pois no caso dos envergonhados é mais fácil mantê-la dentro; outro deles diz ver ambas as partes, não consegue decidir entre uma delas; e, por fim, o outro entrevistado menciona que a amizade se mantem, quer dentro quer fora do Facebook.
A maioria dos entrevistados (14) afirma que as suas amizades permanecem iguais com a utilização do Facebook, ou seja, este não serve para as fortalecer nem enfraquecer. Contudo, para os restantes seis indivíduos, esta rede social virtual serve para fortalecer as suas amizades. Neste sentido verifica-se que nenhum entrevistado considera que o Facebook serve para enfraquecer as suas amizades.
Pode também constatar-se que metade dos entrevistados (10) já transpôs amizades feitas no Facebook para fora, sendo que em cinco casos se trata mesmo do/da atual namorado/namorada:
“Já, é curioso isto... de facto foi a minha namorada, eu conheci no Facebook por volta dos meus 17/18 anos e por acaso olha, deu um amor bonito.” (Entrevistado 10)
“Já, mas lá está… por exemplo o meu namorado, eu conhecia-o de vista e tínhamos estado juntos num encontro juvenil, mas não… mas falámos lá, só olá e adeus, e o Facebook, como ele estava longe, fez com que começássemos a falar e com que fosse crescendo a amizade inicial, estás a perceber? Foi um meio de fazer a amizade crescer e depois encontrávamo-nos e depois aí é que houve a troca de telefones e isso tudo. Lá está, isso foi bom porque eu já conhecia a pessoa, mas se eu não a conhecesse, nunca teria falado com ela sequer.” (Entrevistado 16)
Assim verifica-se que, tal como evidenciado por Baym (2010), os indivíduos podem e desenvolvem relacionamentos pessoais importantes online, pois nestes meios é possível saber-se mais sobre o outro do que cara-a-cara.