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PERCEBER O AMBIENTE É VALORIZAR A ARQUITETURA EXISTENTE Da força nitidamente racional das escolhas projetuais, mas também utilizando uma

restauro ou projeto? história, técnica e linguagem comuns

PERCEBER O AMBIENTE É VALORIZAR A ARQUITETURA EXISTENTE Da força nitidamente racional das escolhas projetuais, mas também utilizando uma

raiz simbólica, Giovannoni sintetizou este método no conceito de “diradamento”148. Por

uma metáfora agrícola149 – diradare, na tradição italiana, remete à prática do cultivo em

que plantas nocivas ou pouco desenvolvidas são retiradas para o fortalecimento da plantação como um todo –, foi ponderada a necessidade de promover a mesma técnica no centro da cidade de Roma. Com conhecimento de causa, ou seja, selecionando previamente edifícios de interesse, retiram-se aqueles que prejudicam a leitura ambiental numa análise filológica da estrutura urbana, rechaçando-se a associação comum e uniformizadora entre degradação, insalubridade e antiguidade (FIGURAS 54 A 57). Para ele,

é possível tornar esses espaços mais saudáveis e compatibilizar a nova urbanidade requerida com seu aspecto pitoresco:

Assim a devastação poderia ser evitada. E se razões de higiene propusessem ao mesmo tempo trazer ar e luz a alguns pontos muito restritos das velhas ruas, bem se poderia dispersar as casas, retirando

[diradando] alguns edifícios isolados sem importância e colocando em seu

lugar pequenas praças ou pequenos jardins; abrir alguns pontos, sem se deixar seduzir pela regularidade geométrica de uma rua larga, sem transformar com novas construções o ambiente. Nem se diga que este ambiente é sujo; se é sujo em alguns lugares, não o é porque é antigo, e pode-se saná-lo sem precisar da extrema medicina da picareta.150

                                                                                                               

147 “Introdurre un senso pittoresco nelle nuove città, sia valendosi delle visuali naturali e monumentali, sia studiando le linee di circolazione e

gli spazi aperti non come linee e figure geometriche ma come aggruppamenti variati e vivi; limitare l'adozione del rettifilo per le vie ai casi necessari, ma possibilmente deviandolo ed associandolo a curve, ampie e brevi, o valendosi di monumenti e di giardini per interrompere la continuità uniforme; ritornare per le piazze principali al carattere racchiuso di quelle dei nostri antichi; e sopratutto serbare nella concezione generale e speciale il carattere individualistico alla città od al quartiere: ecco i canoni fondamentali della nuova tendenza: la quale, del resto, in quanto ricerca una vera ed alta forma d'arte, non potrebbe giungere a formule precise e determinate per la materializzazione dei principi generali, senza ricadere nella rettorica e senza decampare al suo criterio dell'applicazione caso per caso, secondo l'ispirazione subbiettiva

dell'artista e secondo le condizioni obbiettive degli elementi concreti di arte locale, che costituiscono l'ambiente.” GIOVANNONI, 1913a,

p. 457.

148 “rareamento”, de diradare, “rarefazer”. Vocabolario Treccani – Edição online, verbetes “diradamento”,

“diradare” e “rado”. A tradução da palavra assume diferentes vocábulos em português, a depender do contexto em que é empregada.

149 “A habitação nos velhos quarteirões das cidades podem de algum modo ser semelhantes às árvores de um bosque.” Do Italiano:

“L’abitato dei vecchi quartieri delle città può in qualche punto somigliare agli alberi di un bosco.” GIOVANNONI, 1913b, p. 53.

150 “Così la devastazione potrebbe essere evitata. E se ragioni d’igiene consigliassero intanto di portate aria e luce in alcuni punti troppo

Da avaliação destes textos, podemos verificar que dois princípios estão implícitos. O primeiro é a identificação criteriosa dos bens culturais, cujo trabalho requer coesão de método: “Deve-se determinar, sob o conhecimento preciso dos elementos de vários gêneros, relativos à rua e às casas, à arte e à vivência histórica, quais são os fundamentais imutáveis, isto é, os edifícios de caráter histórico e artístico que devem ser conservados, as obras e os grupos de que deve ser respeitado o ambiente”151. Em seguida, a

congruência dos parâmetros registrados (os edifícios) filiados a posturas projetuais: “a possibilidade de rarefação [diradamento] deve ser pois considerada do ponto de vista do máximo aproveitamento de luz e de ar que uma parcial demolição pode comportar às casas próximas, dos efeitos perspécticos que resultam nos novos quadros que se vão compor, e ainda, em razão de sua viabilidade”152.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                        loro posto piccole piazze o piccoli giardini; aprire in alcuni punti, senza lasciarsi sedurre dalla regolarità goemetrica di una larga via, senza mutare con nuove costruzioni l’ambiente. Nè se dica che questo ambiente è lurido; se è lurido in alcuni luoghi, non lo è perchè antigo, e può

risanarsi senza bisogno dell’estrema medicina del piccone.” GIOVANNONI, 1908, p. 319. Grifos meus.

151 “Occorre anzitutto determinare, sulla conoscenza precisa degli elementi di vario genere, relativi alla via ed alle case, all'arte ed alle storiche

vicende, quali siano i capisaldi immutabili, cioè gli edifìci di carattere storico ed artistico che debbono essere conservati, le opere ed i gruppi di cui

deve esser rispettato l'ambiente” GIOVANNONI, 1913b, p. 64.

152 “La possibilità del diradamento deve essere poi considerata dai punti di vista del massimo rendimento di luce e d'aria che una parziale

demolizione può portare alle case prossime, degli effetti prospettici che risulteranno nei nuovi quadri che verranno a comporsi, ed anche delle

ragioni della viabilità” Ibid.

FIGURA 54: Perspectiva D, 1913.

Gustavo Giovannoni. La via ed il palazzo Vecchiarelli. GIOVANNONI, 1913b., p. 75, fig. 11.

 

FIGURA 55: Perspectiva C, 1913. Gustavo Giovannoni. Via Coronari e piazza S. Salvatore in Lauro. GIOVANNONI, 1913b., p. 73, fig. 10. Notar Castelo S. Angelo ao fundo.

 

FIGURA 56: Perspectiva B, 1913.

Gustavo Giovannoni. La via

trasversale ai Coronari.

GIOVANNONI, 1913b., p. 72, fig. 9.

 

FIGURA 57: Projeto alternativo para o

“Quartieri del Rinascimento”, 1913. Gustavo Giovannoni. Sistemazione proposta per la Via dei Coronari e le sue adiacenze in Roma - Planimetria d’insieme. GIOVANNONI, 1913b, p. 69, fig. 7.

Compreendida desta maneira, é bastante claro como a perspectiva, seja enquanto

meio de representação do projeto, seja enquanto procedimento de análise espacial,

coloca-se como instrumento de valorização histórica do centro urbano quinhentista, possibilitando ainda a defesa da proposta e do método defendido pelo engenheiro153. Em

síntese, sua função era mesmo reforçar os valores históricos e artísticos, demonstrando que não poderia haver intervenção eficaz em relação ao ambiente do centro urbano se ela não considerasse minimamente o registro físico, morfológico e simbólico dos edifícios que o compõem, caracterizando-os numa “escala de valores” ambiental decorrentes do uso no

tempo e suas significantes históricas. Diante dos destruidores planos reguladores da cidade

e por meio dos textos que avaliamos, pode-se dizer que Giovannoni reclamou um desenho adequado, que compreendesse e sintetizasse a complexidade histórica de uma cidade estratificada como Roma, e que visse a arquitetura existente como objetos catalisadores da nova cidade ao futuro. Conservá-la, portanto, seria garantir esse diálogo,

na sua acepção, “integralmente”. Como demonstra Alessandra Muntoni,

Giovannoni está convencido que não se pode mais intervir empiricamente ou com métodos diletantes, mas que esteja quase maturado um tempo de uma construção científica do urbanismo. E assim, a seu critério, ele tem como principal nó para resolver exatamente o nexo a instaurar entre o velho e o novo (...). A ideia de Giovannoni é, sobretudo, que o velho e o

novo sejam ambos valores positivos: o primeiro porque “irradia luz”

enquanto local da arte que não pode assim continuar obscurecido; o segundo porque é a realidade do contemporâneo e deve ser satisfeito e melhorado. Esquivando-se de uma alternativa entre “renovadores” e “conservadores”, evitando se aproximar com uns ou outros, Giovannoni penetra em uma terceira via, que não é exatamente de equilíbrio, mas que se pode ao invés dizer, de integração154.

O ambiente colocou-se, assim, como chave de uma postura profissional e como uma forma de intervir na cidade com bases científicas. Segundo Guido Zucconi, é um conceito que propõe ao monumento histórico um “sistema de relações muito mais amplo”155 e “não

compreende somente os problemas urbanísticos em sentido estrito mas (...) inclui ainda a valorização dos monumentos (como sujeitos indistintíveis do espaço que o circunda)”156. Não é preciso discorrer muito para observar

que esse desenho qualitativo, caracterizado por sutis percepções racionais, deve recair, sobretudo, na qualidade das práticas projetuais restaurativas:

                                                                                                               

153 MAESTRI; CENTOFANTI, 1990, p. 107.

154 “Giovannoni è convinto che non si possa più procedere empiricamente o con metodi dilettantechi, ma che sia ormai maturo Il tempo di una

costruzione scientifica dell’urbanistica. E siccome, a suo avviso, essa ha come principale nodo da risolvere próprio Il nesso da instaurare tra vecchio e nuovo (...). L’idea di Giovannoni è, anzitutto, che Il Vecchio e Il nuovo siano entrambi valori positivi: Il primo perchè “irradia luce” in quanto è luogo dell’arte e non v adunque oscurato; Il secondo perché è realtà del contemporâneo e v adunque soddisfatto e migliorato. Rifuggendo da un’alternativa tra ‘novatori’ e ‘conservatori’, evitando di schierarsi con gli uni o con gli altri, Giovannoni si inoltra per una terza

via, che non è propriamente di compromesso, ma che si può dire invece di integrazione.” MUNTONI, 2005, p. 58. Grifos meus em

negrito. Grifos da autora em itálico.

155 ZUCCONI, 1996, p. 45. 156 Ibid.

das casas que existem; restauros de adaptação não-radicais às exigências modernas, explorando [diradando] e abrindo com o mesmo senso de medida adotado para a rua, e restauros artísticos que o reportem ao aspecto primitivo; e mesmo os dois restauros poderiam ser concomitantes, pois o edifício pode elevar de categoria com a retomada de sua antiga dignidade.157

Assim, o papel da restauração, enquanto prática arquitetônica e operação urbana é, antes de tudo, a defesa do papel do arquiteto na construção da cidade. A verificação de “difíceis” bons restauros demonstra a crítica sobre a falta de capacitação, não por “especialistas” no tema, como por vezes tendemos a compreender parcialmente essas ideias hoje, mas por escolas que formem profissionais “integrais”158, capazes de avaliar o

meio urbano em seu desenho do ponto de vista formal, ambiental, técnico-construtivo e, claro, histórico e artístico, para lhe propor coerentes propostas de intervenção física.

A RESTAURAÇÃO COMO EIXO DE UMA DIDÁTICA AUTÔNOMA EM ARQUITETURA

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