• Nenhum resultado encontrado

A ÁGUA NA CONSTRUÇÃO DA PAISAGEM

46 Ian L McHarg – ao definir o conceito e a metodologia do planejamento ambiental, é prevista a proteção e

1.4 PERCEPÇÃO AMBIENTAL E CONSCIÊNCIA ECOLÓGICA

A percepção da água na paisagem de São Paulo atualmente encontra-se prejudicada, devido ao dessecamento das áreas úmidas e verdes nos extensos trechos de várzea ao longo dos rios da cidade.

A preservação e recuperação de espaços agradáveis e/ou naturais é uma questão muito delicada, tanto que contemporaneamente se discutem dois paradigmas sociais54 opostos na

interpretação das atitudes perante o meio ambiente.

O primeiro é o chamado “paradigma dominante nas sociedades ocidentais”, segundo o qual é importante justificar o crescimento econômico, que mesmo exercendo controle e domínio da natureza, também trabalha a crença de que o homem tem o “direito e capacidade” para utilizar os recursos naturais e atingir seus fins, assumindo, portanto, plena confiança na ciência e na tecnologia como forma de assegurar os meios e conhecimentos para a execução destas ações – trabalha a crença do progresso através dos métodos científicos.

O segundo chamado de “paradigma ambiental alternativo”, se afirma no extremo oposto, pois não acredita no conceito do crescimento material orientado, unicamente, por objetivos econômicos, priorizando uma filosofia de valorização primordial da natureza e de uma ética de vida em harmonia com a mesma. Dá prioridade aos valores não materiais, demonstrando descrença na ciência e tecnologia para solução dos problemas ambientais.

Tanto o paradigma dominante nas sociedades ocidentais quanto o paradigma ambiental alternativo apresentam a importância de buscar diferentes formas de abordar o conflito, pois há grande dificuldade em entender o contexto contemporâneo e dificuldade ainda maior na busca de outros horizontes teóricos que ampliem o “leque de opções” de ação entre os diferentes grupos sociais de extremos opostos. Como fruto do desdobramento dos diferentes conflitos observados nos debates ambientais nas ultimas décadas, surgem quatro paradigmas55

que estão citados a seguir:

54

Os paradigmas sociais citados foram definidos por COTGROVE, 1982 apud SARAIVA: 1999, pág. 25.

55

- extremo tecnocentrismo, voltado à exploração dos recursos naturais e a favor do crescimento econômico;

- tecnocentrismo acomodado, a favor da conservação dos recursos naturais e de crescimento baseado em regras de gestão econômica e ambiental;

- ecocentrismo moderado, a favor da preservação dos recursos naturais e das restrições ao crescimento econômico devido aos limites biofísicos e sociais;

- extremo ecocentrismo ou ‘ecologia profunda’, radical na preservação dos recursos naturais e na valorização prioritária da natureza promovendo a bioética.

FIGURA 14

Evolução dos paradigmas ambientais, segundo Colbin e Schulkin, 1992 (adaptado de Correia, 1994) em SARAIVA: 1999, pág. 28.

Na exploração teórica sobre a evolução dos paradigmas ambientais, são identificados em uma seqüência natural das linhas expostas acima cinco sistemas de valores56 que enquadram a

evolução do pensamento ambiental nas sociedades ocidentais ao longo das últimas décadas. A exploração teórica se dá no cruzamento do expansionismo ilimitado - “frontier economics” e o ecocentrismo radical - “deep ecology”, considerando como vetores o espectro de valores

56

Nesta busca pela evolução dos paradigmas ambientais encontra-se o gráfico desenvolvido por COLBY e SCHULKIN (1992), citados por CORREIA (1994) apud SARAIVA:1999, pág. 28.

ambientais – econômicos sobre a evolução do tempo. Deste cruzamento surgem, como demonstra o gráfico, três conceitos que integram as emergências ambientais e os modelos conhecidos de desenvolvimento da sociedade.

- Salvaguardas Ambientais (décadas de 60/70), recomendam limites para a emissão de poluentes assim como limite para o crescimento econômico, devido aos graves problemas ambientais gerados pela indiscriminada emissão de resíduos no meio ambiente.

- Gestão de Recursos (décadas de 70/80), promove a atribuição de valor econômico aos recursos naturais, preocupa-se com a capacidade de renovação destes recursos, propõe estratégias que contemplem possíveis reparações dos recursos ambientais inserindo no planejamento urbano tradicional a gestão dos recursos ambientais através de medidas econômicas mitigadoras, como por exemplo, o princípio poluidor – pagador.

- Desenvolvimento Sustentável (décadas de 80/90) – defende a necessidade de conservação dos recursos naturais para as próximas gerações através da integração dos princípios ecológicos e econômicos no estabelecimento de políticas de desenvolvimento, alinhavando os interesses do setor público à economia do setor privado com o intuito de preservar os recursos naturais e desenvolver a economia nacional. Muitas vezes este conceito abrange escalas internacionais no que tange a recursos naturais, como aqüíferos internacionais, correntes de ar ‘que trafegam poluentes entre países’, rios que fazem divisas, entre outros.

O desenvolvimento sustentável tem sido parâmetro para as políticas de desenvolvimento mundial desde a Conferência das Nações Unidas para o Ambiente e Desenvolvimento em 1992 (ECO 92), realizada no Rio de Janeiro, encontro que estabeleceu a Agenda 21 global e a constituiu como diretriz geral dos processos aliados ao desenvolvimento sustentável, devendo ser revista, ampliada e reinterpretada pelos diversos países e cidades segundo suas características sócio – culturais a fim de buscar o desenvolvimento humano sustentável.

No Brasil, país sede deste encontro, a ‘Agenda 21global’ já foi revista desdobrando-se na ‘Agenda 21 brasileira’ e foi novamente reinterpretada por diversos estados e municípios, mais especificamente no estado de São Paulo e no município de São Paulo este documento já foi elaborado.

O reconhecimento da ‘Agenda 21’ é parte importante de um programa de desenvolvimento sustentável, pois valoriza os compromissos assumidos na ‘Cúpula da Terra’ em valorizar a

vida e protegê-la, investindo em novas tecnologias de produção e também em programas sociais de conscientização ambiental, a fim de minimizar os conflitos entre o ‘ecocentrismo’ e ‘tecnocentrismo’.

O entendimento dos problemas ambientais, à luz da perspectiva social57, demonstra a

importância da evolução dos paradigmas ambientais, transferindo ações e políticas existentes entre o ‘ecocentrismo’ e o ‘tecnocentrismo’ em um eixo contínuo que facilita a compreensão das linhas de pensamento em evolução.

FIGURA 15

Eixo de atitudes entre o ecocentrismo e o tecnocentrismo (adaptado de Vlachos, 1993) SARAIVA: 1999, pág.30.

O homem encontra-se em constante evolução, de forma que os paradigmas ambientais apresentam-se em constante adaptação às atitudes humanas impulsionadas pela percepção socioeconômica e ambiental e expressas através de uma prática profissional orientada, compromissada e dedicada, como também a uma cidadania informada, ativa e responsável. A preservação dos ecossistemas naturais integrados aos cenários ambientais urbanos é de extrema importância na leitura do território e na percepção da identidade ambiental. Sendo a água um elemento importante na leitura dos processos ecossistêmicos, faz-se necessária a visualização e a valorização dos rios, lagos e córregos da cidade, pois o ressurgimento das águas na paisagem da cidade de São Paulo é um fator fundamental para o desenvolvimento sustentável.