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5 RESULTADOS DA PESQUISA COM OS ATORES ENVOLVIDOS NO

5.8 Equipe multidisciplinar da coordenação técnico-pedagógica

5.8.2 Percepção da Equipe Multidisciplinar da COTEP a respeito do que a

O fator externo, como a falta de base relacionada ao baixo desempenho dos estudantes, aparece nas falas das pedagogas e demais integrantes do setor, que sinalizam um amplo conjunto de medidas que deveriam ser tomadas pela Instituição para minimizar a reprovação e a evasão escolar, destacando-se entre elas: elaborar um projeto no sentido de sanar algumas deficiências básicas trazidas do Ensino Fundamental, incorporadas ao calendário da Instituição; rever o seu currículo, de modo a introduzir nas matrizes curriculares algumas disciplinas que sejam básicas para as demais do Ensino Médio, disciplinas preparatórias ou introdutórias; realizar o nivelamento com as disciplinas de Matemática e Língua Portuguesa; ampliar e dar agilidade aos programas da assistência estudantil, para que haver maior efetividade

e eficácia, no sentido de cobertura do número de estudantes atendidos, dos valores e dos benefícios; planejar e articular, de forma eficiente, as ações docentes e técnicas com o objetivo de criar condições de aprendizagem favoráveis; adequar à metodologia utilizada pelos docentes à demanda da turma, ou do estudante; desmistificar a ideia de que estudar no IFBA é muito difícil, pois os estudantes chegam à Instituição com esse medo e, quando não conseguem avançar, alguns evadem.

Esses aspectos podem ser observados nos seguintes depoimentos:

Para ser realmente algo ideal não precisaria começar com a Instituição, precisaria começar com as escolas por onde esses estudantes já passaram (EM3).

Então, precisa rever o seu currículo de modo que introduza nas matrizes curriculares algumas disciplinas que sejam básicas para as demais disciplinas do Ensino Médio, são disciplinas preparatórias. Disciplinas introdutórias que permitam a consolidação dos conhecimentos que ainda não foram realizados por esses estudantes, se a escola trabalha com essa perspectiva de preenchimento de lacunas no conhecimento, de consolidação de conhecimento, vai estar tratando justamente na principal causa. [...] Então, na verdade, nós fazemos uma pseudo inclusão, é uma inclusão excludente, porque o estudante não consegue dar conta ou ele desiste ou é reprovado ou é jubilado ou evade (EM1).

No caso da reprovação, as ações precisariam ser mais sistemáticas e concretas no sentido de tentar sanar algumas deficiências básicas que são trazidas do Ensino Fundamental, mas ações que fossem mais consistentes, não ações pontuais e que elas fossem efetivas do primeiro momento do ingresso dos estudantes. Não sei se um reforço, não sei se um nivelamento, mas ações não podem ocorrer um ano ocorre de uma forma, no outro de outra forma. Uma ação mais efetiva, organizada, sistematizada, já incorporada ao calendário da Instituição para que pudesse sanar ou amenizar essa dificuldade (EM5).

E eu penso que a gente tem que ter um planejamento melhor do trabalho de ensino, a gente comenta às vezes que um estudante tem quatro avaliações num dia. A gente precisa planejar melhor, articular melhor as ações docentes e técnicas e tal, pra que a gente crie condições de aprendizagem favoráveis. Às vezes, a gente não cuida muito disso, e acho que é um fator bem determinante (EM6).

Então, acho que assim, a formação docente, pra que o docente consiga compreender né... os fatores, é.. que levam o estudante à não aprendizagem, acho que é uma medida bem urgente. Aí cai naquela coisa, por exemplo, do professor inicialmente numa primeira unidade, por exemplo, ele já criar um rótulo pra um estudante ou pra uma turma. Aquela estorinha da profecia autorealizadora né. Assim, ele já cria uma concepção ali fechada, essa concepção às vezes ela é compartilhada inclusive com outros professores da turma e tal, e esse tipo de expectativa formada acaba interferindo no processo de aprendizagem né... No processo todo lá de interação do professor com a turma, e acaba interferindo nos resultados. Então, acho que essa formação docente ela é um ponto grave e imediato. Acho que a gente também podia trabalhar no sentido de fortalecer a

questão dos pré-requisitos né, isso é muito difícil pra gente trabalhar dentro do Instituto porque você trabalhar e vê como se fosse uma revisão dos conteúdos que a gente considera como pré-requisitos, essa revisão assim às vezes você tem que fazer a revisão do Ensino Fundamental inteiro num tempo curto, quer dizer, é muito complicad. (EM6).

Existe um mito, e sei que é mito mesmo, que estudar no IFBA é muito difícil, os estudantes já chegam aqui com esse medo e aí, “ah, eu não vou dar conta”, e aí repete essa coisa que “não vou dar conta” e muitos acabam não tentando, não conseguindo avançar e evadem (EM2).

Nos depoimentos da equipe multidisciplinar aparece a compreensão de que são importantes mudanças na educação pública do país para que transformações possam ocorrer na Instituição, especialmente no que diz respeito à falta de base dos estudantes. No entanto, o Instituto pode adotar medidas mais sistematizadas para acompanhamento do trabalho docente.

Assim, existe a clareza de que um conjunto de ações que promovam a equidade pode ser desenvolvido na Instituição. Nesse sentido, essa compreensão se articula na perspectiva possibilidade de a escola fazer a diferença, considerando a realidade socioeconômica dos estudantes e a precariedade das políticas públicas na área da educação. Nesta mesma linha de raciocínio, Torrecilla (2008) pontua que:

Atualmente, entende-se que uma escola é eficaz se consegue um desenvolvimento integral de todos os seus alunos, em grupo e individualmente, maior do que seria esperado, levando-se em conta seu rendimento prévio, além da situação social, econômica e cultural das famílias (TORRECILLA, 2008, p. 468).

Acreditamos que a escola pode influir no desempenho dos alunos a partir de um projeto articulado com a comunidade escolar, contribuindo no sentido de ser uma Instituição inclusiva e promotora da equidade. Entretanto, o envolvimento da equipe e o desejo de mudança são fundamentais.

5.8.3 Ações do setor pedagógico no sentido de evitar a reprovação e evasão escolar na Instituição

A pesquisa em educação possibilita o entendimento dos fenômenos e proporciona uma melhor compreensão para futuras intervenções na melhoria do processo. Na percepção dos componentes da equipe multidisciplinar da COTEP foram destacados alguns aspectos que deveriam conduzir o trabalho do setor, a

saber:

a) promover ações de formação continuada, especialmente, sobre como ocorre o processo do conhecimento;

b) desenvolver junto ao estudante um trabalho de metodologia de estudo de forma eficiente e sistematizada;

c) desenvolver pesquisa para diagnosticar os problemas da Instituição na questão do ensino e da aprendizagem dos egressos, o perfil dos estudantes, entre outras questões ligadas à área;

d) estabelecer uma parceria efetiva com a família, assim que o estudante apresente dificuldades com relação à aprendizagem ou mesmo à questão da frequência às aulas.

[...] Promover ações de formação continuada, no sentido da gente fazer uma troca de conhecimentos maior com a equipe docente. Então, eu percebo. [...] Por exemplo, que o professor compreenda exatamente o que é aprender, se eu vou ensinar eu tenho que conhecer como o estudante aprende, e eu vejo que muitos professores nunca tiveram essa formação e precisariam ter, pois se eu quero ensinar eu tenho que saber como é que o outro aprende, né? Alguns professores têm isso muito claro, outros nem tanto, então outros estão assim... Às vezes até são ótimos profissionais, conhecem naquele campo, naquela área de conhecimento, eles conhecem bastante, mas não necessariamente estão instrumentalizados para o ensino (EM6).

A relação professor/equipe multidisciplinar nem sempre é uma relação tranquila, uma relação de parceria, porque alguns aceitam e outros não aceitam. Então, eu acho que isso também é um entrave, esta relação que nem sempre é bem tranquila com os professores, e isso também prejudica porque a gente não tem acesso ao professor e o professor tem práticas equivocadas, práticas inadequadas, e a gente fica sem poder fazer nada (EM4).

Esse problema será resolvido em um trabalho conjunto e com o envolvimento dos docentes, que são eles que passam a maior parte do tempo com esses estudantes e que são mais capazes de apontar onde está a falha e dar uma orientação mais segura (EM3).

Acho que os estudos dos fenômenos podem contribuir porque, a partir daí, dos estudos sistematizados, da pesquisa que você faça trazendo o acompanhamento desses estudantes que fique comparando a cada ano. Entendo como é o impacto das disciplinas no processo da reprovação. Qual o impacto da disciplina de humanas, de exatas nesse processo, como a trajetória escolar dos estudantes tem contribuído para resultado. Se você pegar o histórico e ver como foi a trajetória dele, e também associando a informações da organização familiar da estruturação da família, eu penso que só os estudos realmente (EM5).

Muitos desses alunos que conseguem entrar por conta dessas ações afirmativas, não conseguem se manter por conta da falta de uma política de permanência, e aí a política da permanência não é só para sanar a questão socioeconômica. A questão da deficiência de aprendizagem também que

esse é um ponto que ainda falta (EM2).

Intervenção junto às famílias e com os professores. Então, os estudantes que são faltosos e estão com baixo rendimento, a gente tenta identificar porque é que ele está com esse baixo desenvolvimento. Desenvolvemos um trabalho de orientação da metodologia de estudo para ele organizar melhor seu horário e buscar as disciplinas que eles têm mais deficiências para sanar esses problemas, chamar a família para fazer esse trabalho de parceria (EM2).

[...] E transformar a avaliação num instrumento de apoio e de acompanhamento, de verificar até que ponto o estudante aprendeu, onde ele precisa melhorar, onde eu posso melhorar, onde o estudante precisa mais de apoio, de uma revisão. Eu acredito que selecionando o trabalho do professor selecionando os conteúdos, fazendo planejamento e mudando o caráter da avaliação, a equipe pedagógica tem condições, tem conhecimento na sua formação para ajudar os professores (EM4).

Os depoimentos da equipe multidisciplinar apontam para um conjunto de ações de ordem institucional e outras na dimensão externa, relacionadas às políticas públicas da educação, para fazer o enfrentamento ao processo de exclusão escolar. Observa-se, entretanto, em todas as falas dos atores entrevistados, a falta de base dos estudantes como sendo uma das causas para os fenômenos da reprovação e da evasão escolar. Este fato expressa a baixa qualidade da educação pública do país, especialmente do Ensino Fundamental. Observa-se, ainda, nas falas, a crença ou a esperança de que a escola pode fazer a diferença na promoção da equidade e da eficácia a partir de um conjunto de ações articuladas e sistematizadas de âmbito institucional e externo.

Na visão de Torrecilla (2008) no que diz respeito à equidade como um elemento básico do conceito de eficácia:

Uma escola diferencialmente eficaz, no sentido de “melhor” para uns alunos que para outros, não é escola eficaz, mas sim discriminatória. E aqui não vale optar entre equidade e a excelência, entendida como um rendimento médio alto: sem equidade não há eficácia, o que confere a tal escola a característica de ser socialmente descartável (TORRECILLA, 2008, p. 469).

Toda escola, bem como todo o sistema educativo, deveriam ter como meta o desenvolvimento integral dos estudantes. Assim, as ações propostas pela equipe multidisciplinar da COTEP apontam para a superação da exclusão a partir de um conjunto de ações articuladas com os docentes e as famílias dos estudantes, em uma perspectiva de trabalho coletivo, inclusive com a necessidade de mudança de paradigma do conceito de avaliação. Entretanto, ações de permanência com aportes

de recursos do governo federal são importantes para a garantia da equidade. Assim, a escola reflete a dinâmica política da sociedade.

Por isso, concordamos com a afirmação de Bourdieu (2008) quando diz que “se é verdade que o real é relacional, pode acontecer que eu nada saiba de uma Instituição acerca da qual eu julgo saber tudo, porque ela nada é fora das suas relações com o todo (BOURDIEU, 2010, p. 31).