CAPÍTULO 3: POSSÍVEIS REFLEXÕES
3.3 REFLETIR PARA TRANSFORMAR
3.3.3 Percepção das modalidades e das semioses
significa negar aos seus falantes o direito ao pleno conhecimento e domínio das formas linguísticas de prestígio” (BAGNO; RANGEL, 2005, p. 78). Nossas aulas também buscaram mobilizar diferentes modos semióticos, conforme explicitado a seguir.
importante a/o professora/or se atentar para as demandas que surgem da realidade, da vivência em sala de aula e em outros ambientes nos quais as/os alunas/os vivem. Retomei com elas/es a ideia de serem contraditórias/os em suas atitudes. Afinal, há poucas aulas, havíamos discutido sobre os prejuízos para a saúde mental relacionados ao bullying.
Em todas as aulas da pesquisa, busquei trabalhar textos de diferentes gêneros e que contemplassem a linguagem verbal, não verbal e mista. Por estar quase no final da coleta de dados, pensei em algo que envolvesse mais imagens, afinal, vivemos em mundo muito visual.
Além do mais, algumas/ns alunas/os reclamaram da quantidade de leitura. Logo selecionei várias imagens de pessoas. Começamos a aula conversando sobre a importância de reconhecer e respeitar as diferenças individuais, a diversidade que compõe tanto a sala de aula quanto a sociedade como um todo, mostrando o quanto é essencial valorizar as individualidades e as subjetividades.
Selecionei cerca de dez imagens e, aletoriamente, as/os estudantes que se sentissem mais à vontade descreviam a imagem, sobre fatos que acham interessantes como profissão, idade, alguma característica etc. Conversamos sobre a importância da descrição, em um texto narrativo e/ou descritivo, para que a/o leitora/or possa ter uma imagem da/o personagem. A atividade foi bem dinâmica e as/os discentes se envolveram bastante, concordaram e discordaram das colocações feitas por algumas/ns colegas. Depois desse momento, dialogamos sobre os estereótipos que são colocados pelas pessoas com base em nossa aparência e analisamos de forma crítica as manifestações estereotipadas hegemonicamente na sociedade. Abaixo, ilustro algumas das falas das/os alunas/os.
Capitã Marvel: Infelizmente vivemos em uma sociedade muito preconceituosa e cheia de estereótipo quanto a aparência, por exemplo, se a menina usa uma roupa mais curta é piriguete, se usa roupa mais comprida é santinha, povo não pensa o quanto a aparência engana.
Titio: Sim, mas as pessoas julgam mesmo pela roupa, tem gente que falou que a imagem do cara de terno era de uma pessoa bem-sucedida, mas nem sempre a pessoa que veste bem é uma pessoa feliz, ser bem-sucedido, para mim, não só ser rico.
Capitã Marvel: Esse conceito de bem-sucedido é muito relativo, na imagem falaram que a mulher que cuida das crianças não é bem-sucedida, porém uma dona de casa que optou por cuidar dos filhos pode ser bem-sucedida.
Stitch: Para mim, o pior estereótipo é aquele que é colocado pela nossa cor, muito triste pensar que só pelo fato de ser negro, a sociedade já te condena, o nosso país é muito racista, colegas dessa turma são racistas.
Grisele: Fala não, já vi uma mulher esconder um celular porque meu amigo que é preto sentou perto dela no ônibus, cara, o celular do meu amigo era melhor que o dela.
Hermione: Mas a mídia reforça esses estereótipos, e muita gente aplaude.
As/os alunas/os ainda relataram outros casos de estereótipos. Conversamos sobre o racismo e a necessidade de uma educação antirracista, ou seja, que não basta problematizar esse tema em uma redação, como acontece na maioria das vezes, são necessárias atitudes. As pessoas podem até não ter práticas racistas, não ofender ninguém, mas o silêncio é também sinal de racismo. Precisamos ter atitudes para combater tal ato, é necessária uma mudança de postura.
Djamila Ribeiro (2019, p. 19) afirma que “é impossível não ser racista tendo sido criado numa sociedade racista. É algo que está em nós e contra o que devemos lutar sempre.”
Dessa maneira, durante a aula em que conversamos sobre os estereótipos, aproveitamos para relacionar com o racismo, ressaltamos sobre educação antirracista e quais atitudes temos tomado frente ao preconceito racial. Afinal, às vezes, aceitamos e até compartilhamos ideias racistas, por isso precisamos sempre refletir sobre como nos dispomos a sermos antirracistas.
Por meio dessas rodas de conversa, buscamos promover a formação/construção de uma consciência política e histórica da e para a diversidade.
Outra temática analisada foi sobre mobilidade urbana. Notei, por meio das produções textuais, que as/os estudantes melhoraram a escrita. Elas/es fizeram uma redação avaliativa com o tema “Os desafios da mobilidade urbana”, temática selecionada pela/o professora/or regente das outras turmas. Ao corrigir as redações, observei que houve uma melhora relacionada ao uso da pontuação e conectivos. Algumas/ns estudantes relacionaram a melhora da mobilidade com o momento pandêmico.
Após a correção dos textos, comentamos os problemas relativos à escrita e selecionei algumas imagens sobre o trânsito, em vários momentos e lugares diferentes, e conversamos sobre o assunto mediante tais imagens e as informações já contidas na coletânea da proposta de PT. No entanto, a questão da mobilidade urbana foi o assunto sobre o qual as/os alunas/os menos demostraram interesse para discutir, talvez por já estar quase no final da pesquisa ou o fato de as/os estudantes estarem também se preparando para os jogos de interclasse35, que aconteceria nas próximas semanas. Em seguida, apresento algumas das reações delas/es.
Maria Cururu: É impressionante a desorganização do trânsito na nossa cidade, aliás no país, pegar ônibus é terrível.
35 Os jogos de interclasse são promovido pela própria escola. As/os alunas/os selecionam times de várias modalidades (futebol, vôlei, basquete) e competem entre as turmas. As/os estudantes estavam ansiosas/os para tais jogos que aconteceriam nas últimas aulas. Assim, as/os discentes teriam só as primeiras aulas, nas quais elas/es ficavam mais agitadas/os.
Janetão: Precisamos de soluções mais práticas, como citado no texto, rodízio de carros, carona coletiva, por exemplo. O trânsito é sempre péssimo, quando chove fica ainda pior.
Jack Sparrow: Eu achei legal na época da quarentena, o trânsito deu uma melhorada boa, tudo mundo em casa, até a poluição diminui.
Grisele: Não precisava voltar a quarentena, porque foi horrível, mas as pessoas precisavam ter mais consciência, eu venho de bike, prático, barato e ainda faço atividade física.
Capitã Marvel: Acho que é isso que falta para solucionar um monte de problemas:
falta de consciência das pessoas.
Interessante observar que as/os alunas/os reconhecem a importância das pessoas se conscientizarem para melhorar o trânsito da cidade. Conversamos sobre o transporte coletivo e o uso de bicicletas, já que esses são os principais meios que as/os estudantes usam para irem à escola. Falamos sobre as possíveis soluções para o problema, algumas já estavam elencadas nos textos que lemos. É importante que as/os discentes refletitam sobre as situações presentes em sua vida se se sintam envolvidas/os na discussão.
Por meio das redes sociais e mídias digitais, as imagens estão cada vez mais presentes na nossa sociedade, o que nos faz refletir sobre sua importância no cenário educacional.
Frente a esse cenário, consideramos importante que as/os alunas/os tenham aulas com interpretação de imagens já que elas têm um papel fundamental na constituição de significados e sentidos sociais das/os estudantes. Afinal, “as imagens não se constituem apenas enquanto suportes para textos verbais, mas são tão carregadas de sentido quanto o texto escrito” (ALMEIDA, 2008, p. 30). Em síntese, as aulas devem buscar uma educação mais crítica, colocando a importância do letramento visual36 como meio de construirmos significados sociais no mundo. Mediante a esse processo de promover aulas mais críticas, são necessárias algumas rupturas que permitam que as/os alunas/os tenham mais participação nas aulas.