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Percepção dos representantes do poder público

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CAPÍTULO III – O REORDENAMENTO DAS ESCOLAS RURAIS NO MUNICÍPIO DE BELA VISTA DE GOIÁS – UMA HISTÓRIA DE ENCONTROS E

3.3 Pesquisa empírica: Caracterização do processo de investigação

3.3.3 Percepção dos participantes da pesquisa

3.3.3.3 Percepção dos representantes do poder público

Este item tratará dos resultados obtidos a partir da percepção das pessoas que ocupavam cargos de gestão à época do fechamento das escolas rurais. Decidimos iniciar esta parte da pesquisa com os representantes do poder público justamente com a intenção de perceber se seus representantes à época do processo pensavam em uma proposta de educação no campo como política pública educacional, preocupada em formar cidadãos capazes de reivindicar e lutar pelos seus direitos.

Caldart explicita bem o que entendemos como educação do campo:

A educação do campo se identifica pelos seus sujeitos: é preciso compreender que por trás da identificação geográfica e da frieza dos dados estatísticos esta é uma parte do povo brasileiro que vive neste lugar e deste as relações sociais específicas que compõem a vida no e do campo, em suas diferentes identidades e em sua

identidade comum: estão pessoas de diferentes idades, estão famílias, comunidades organizações, movimentos sociais... a perspectiva da educação do campo é exatamente a de educar este povo estas pessoas que trabalham no campo, para que se articulem se organizem e assumam a condição de sujeitos da direção do seu destino. (CALDART, 2011, p.151).

Nossa busca, nesta fase da pesquisa, foi de evidenciar no pensamento dos gestores públicos se este entendimento sobre a educação do campo permeava as políticas públicas para a educação à época.

O questionário foi aplicado a 2 representantes do poder público, que na época eram Secretárias Municipais de Educação. A primeira delas estava à frente da gestão quando houve o maior número de fechamento e reordenamento de escolas rurais 1996/1997. A segunda estava à frente da Secretaria de Educação no período que foram nucleadas as escolas remanescentes do município 2006/2007. A Secretária (S.A) ainda continua trabalhando na rede Municipal de Educação como coordenadora pedagógica. A Secretária (S.B) não está mais trabalhando no município, aposentou-se.

Perguntadas se participaram de reuniões para tratar do tema de fechamento das escolas ambas declararam que sim, e não só de uma, mas de inúmeras reuniões. Segundo elas os pais foram informados com antecedência, quanto ao processo de desativação/nucleação.

Vejamos o relato das Secretárias:

S.A. Foram realizadas várias reuniões na Escola Antônio Cândido, João Chrisóstomo, Nicanor Gomes e Antônio Batista. Eu particularmente participei de duas na Escola Antônio Cândido, duas na Escola Nicanor Gomes, uma na Escola João Chrisóstomo e inúmeras na prefeitura.

S.B. Sim

De acordo com elas as reuniões aconteceram na sede das escolas e na prefeitura. Foram coordenadas pela Secretária de Educação e Prefeito municipal da época. As justificativas não foram diferentes dos relatos dos pais e professores: “Escolas próximas uma das outras e com poucos alunos matriculados”, “modalidade de ensino multisseriado”, “alto custo”, “melhoria da qualidade do ensino”, “professores mais qualificados”, “melhor acompanhamento pedagógico”. Mais uma vez a questão econômica é reforçada pelas gestoras públicas o que nos permite afirmar que o fator econômico foi recorrente nos discursos do poder público para justificar o fechamento das escolas.

Segundo elas os pais resistiram bastante, principalmente quanto aos alunos pequenos serem transportados para a cidade. Quando analisamos a opção da nucleação, as secretárias reforçaram o que foi dito pelos pais em relação às tensões vivenciadas à época. (SA) Em relação à nucleação foi uma situação bem desgastante, pois havia uma briga política entre as comunidades e todas queriam que a escola polo fosse na sua comunidade. No caso da Escola

Antônio Batista a comunidade não queria que os alunos fossem para a cidade e temia a segurança deles dentro do transporte escolar. (SB) Algumas comunidades desejavam que os alunos continuassem os estudos, mas resistiam quanto aos pequenos. Pelos seus relatos os membros da comunidade resistiram bastante e não aceitaram com facilidade, pois tinham várias preocupações, principalmente com o transporte e a segurança.Mesmo enfrentado essas dificuldades acreditam que os avanços foram significativos.

Vejamos o relato das Secretárias de Educação da época em relação esse assunto: Quadro 06: Avaliação da Política de Fechamento ou Nucleação das Escolas Rurais -

Avanços e Retrocessos- Gestor

AVANÇOS RETROCESSOS

S.A. Acredito que no caso das três escolas que foram nucleadas foi bastante positivo, pois na época a escola polo iniciou com mais ou menos 90 alunos e hoje conta com 123. As turmas são seriadas e contam com a maioria dos professores do meio rural, o que possibilita um trabalho pedagógico diferenciado da cidade, com uma proposta pedagógica de acordo com a realidade rural dos alunos matriculados; hoje a escola tem diretor, secretário e coordenador pedagógico. S.B. Houve avanços, principalmente a qualidade do ensino, pois a grande maioria das escolas eram multisseriadas. A maioria dos professores tiveram oportunidade de aperfeiçoar. O transporte escolar melhorou, garantindo mais segurança para os alunos.

S.A. Quanto a Escola Antônio Batista da região do Cará que foi desativada na mesma época, acredito que não foi positivo para os alunos que tiveram que ser transferidos para a cidade, num contexto descontextualizado da sua realidade. Crianças muito pequenas de 4 anos de idade tinham que vir para cidade no ônibus escolar, o qual não era adaptado para crianças desta idade e estavam sempre super lotados. Mas naquele momento foram alavancadas várias tentativas com intuito de aumentar o número de alunos de lá que na época eram 24 de todas as séries; no entanto as tentativas foram em vão.

S.B. Acho que não houve retrocesso, mais foi um processo lento, com muitas dificuldades, principalmente com o transporte escolar.

Fonte: Dados da pesquisa

Mais uma vez a questão do transporte é evidenciada na fala dos participantes da pesquisa. Isso nos leva a inferir que, mesmo diante das preocupações apresentadas pelos pais, professoras e secretárias quanto ao uso do transporte escolar pelas crianças não foi suficiente, prevalecendo a decisão de fechamento/nucleação da educação, que no nosso entendimento respondia à época aos interesses de uma classe, a dominante.

É importante considerar que a nucleação, pelo exposto, foi um fator positivo, resolveu em tese o problema das salas multisseriadas. Na visão das professoras e Secretárias Municipais de Educação tratava-se de um problema que colocava os alunos do meio rural em desvantagem comparados aos alunos da cidade, pois em salas multisseriadas recebiam menos atenção do professor que trabalhava com várias séries concomitantes.

De fato, podemos ampliar a reflexão sobre alguns aspectos desta política. A parte física e pedagógica da escola melhorou e os problemas de ordem didática e administrativa passaram a ser resolvidos na própria unidade escolar; o acesso à biblioteca escolar e internet propiciaram ao aluno do meio rural o contato diário com as letras e tecnologia, o que facilita o processo ensino aprendizagem; a participação do Conselho Escolar nas decisões de ordem administrativa e financeira favoreceu e deu transparência às ações desenvolvidas pela equipe gestora da escola; favoreceu o planejamento participativo e transdisciplinar dos professores que são acompanhados diariamente pelo diretor e coordenador pedagógico. Enfim algumas mudanças que ocorreram de imediato no cotidiano das escolas. No entanto, não se pode dizer que estas alterações serão impossíveis de aplicação nas escolas rurais.

O que continua presente na vida dos alunos e famílias residentes no campo é a preocupação com o transporte que não é de boa qualidade, superlotado, sem segurança e com um custo muito elevado. Para os pequenos municípios o gasto com transporte escolar detém uma fatia considerável dos recursos, como o caso de Bela Vista de Goiás, impossibilitando assim, o investimento na formação dos professores, melhores salários e melhoria da infraestrutura das escolas.

Um fator que merece destaque é a visão das Secretárias de Educação em épocas distintas que, pelo descrito, confirma o motivo que levou ao fechamento da maioria das escolas rurais no município. A Secretária (S.B), mais antiga, tinha uma visão mais técnica e administrativa o que levou a culminar no fechamento várias escolas rurais.

S.A. Não concordo. Acredito que os alunos devem permanecer inseridos na sua realidade, para que assim evite o êxodo rural.

S.B. Sim, porque acho que não justifica manter a estrutura e funcionamento destas escolas visto que o número de alunos na maioria delas é muito pequeno, com salas multisseriadas. Outro fator importante é que a maioria destes alunos são filhos de funcionários das fazendas os quais são nômades.

Essa afirmativa nos leva a inferir que, dependendo de cada momento histórico, a posição das pessoas pode ser bem distinta. A pesquisa se faz importante para compreender o processo e corrigir injustiças. A ideia de nuclear escolas, segundo a descrição dos sujeitos da pesquisa, buscava promover um projeto educativo para o povo do campo na tentativa de chegar a uma educação de qualidade. Entretanto, nosso estudo indica que, o que se buscava inicialmente não se concretizou em sua totalidade, contraditoriamente, a educação apresenta variáveis que envolvem outros interesses, ficando a concepção de educação do campo apenas como proposta, prevalecendo os interesses econômicos e políticos. Neste sentido, a oferta de uma educação na escola núcleo não passou de uma extensão da educação oferecida na cidade.

Na sequência será apresentada a percepção dos diretores da escola núcleo Nicanor Gomes Pereira na tentativa de compreender esse processo como melhoria da qualidade da educação.

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