• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO 3. PERCEPÇÃO DOS INDIVÍDUOS AGENTES DO SISTEMA

3.3. PERCEPÇÕES DOS INDIVÍDUOS AGENTES: UMA ANÁLISE DO CENÁRIO

3.3.1. Percepções e relatos dos indivíduos agentes

Construída em meados da década de 1970, a casa prisional do município de Passo Fundo/RS, insere-se em um contexto histórico onde seu projeto arquitetônico “Tinha toda uma concepção e não tinha uma legislação muito precisa, assim... Fazia meio que dentro daquilo que a gente tinha como conhecimento da época e da necessidade da ampliação” (Entrevistado 4).

Em contrapartida ao contexto apresentado no Presídio de Passo Fundo, o projeto da APAC Santa Luzia, do ano de 2002, estava inserido em âmbito federal, estadual e municipal e “É o resultado de uma negociação sabe, com muitas partes, inclusive espacialmente falando porque essa APAC ela foge muito da regra de espaço prisional em Minas, então foi muito negociado” (Entrevistado 7).

O processo de criação do projeto envolveu muitas discussões entre as partes envolvidas, ordenando todas as normativas projetuais a fim de se chegar a um único consenso:

O pessoal do Ministério da Justiça, na época, foi extremamente flexível foi até surpreendente, eles estavam muito abertos sabe, para experimentação. A dificuldade maior foi aqui no Estado por que o DEOP (Departamento de Obras Públicas de Minas Gerais) tinha o departamento de projetistas de prisões e já tinha uma prática longa né, e as regras e caderno de detalhamento, então assim... já tinha uma cultura mais especifica dentro do DEOP e isso a gente teve que discutir bastante (Entrevistado 7).

O grande espaço temporal entre ambos os projetos, evidenciam as mudanças ocorridas em termos de legislações para a arquitetura penal e demonstram também os diferentes modos de projetar, aprimorados conforme o passar do tempo, tendo maiores exigências para o espaço prisional e exigindo mais do profissional projetista. Por estes mais de 40 anos, a estrutura do Presídio Regional de Passo Fundo/RS recebeu a implantação de novos anexos, além da reforma de áreas já existentes, destacando:

A construção da Unidade Básica de Saúde por volta de 2016 pra 2017 com a inauguração, os depósitos de alimentação e almoxarifado e o alojamento da Brigada Militar na área externa intramuros ainda. A reestruturação do pátio de visita, refeita a rede de esgoto e concretado o pátio onde as mulheres tem o banho de sol e implantado grama em uma outra partezinha (Entrevistado 1).

Ademais, foram realizadas melhorias e ampliações também no Instituto Penal de Passo Fundo, destacando-se construções no subsolo do novo pavilhão construído em 2010, como por exemplo “Foi construído no subsolo do pavilhão, 3 salas de aula, 3 outras salas que estão sendo usadas, uma para uma fábrica de vassouras, a outra para um depósito e a terceira então está sendo reformulada para uma cozinha geral” (Entrevistado 1). E, da mesma forma que as manutenções ocorrem em uma edificação de 42 anos, devem ocorrer em uma com 13 anos, a fim de manter a qualidade de seus espaços. A unidade APAC Santa Luzia, em 2019, passou por uma grande manutenção em suas instalações, conforme depoimento abaixo:

A APAC começou a passar por este processo de reformas pra visitas dos governadores, que vieram o governador de Minas, os governadores do Sul e do Sudeste e ai daí pra cá já começaram muitas mudanças, tipo assim de melhorias mesmo, de pintar, estamos com um projeto agora pra fazer reforma geral mesmo pra mexer na padaria, pra mexer nas oficinas lá embaixo, então assim, daí pra cá teve a visita do Ministro da Justiça também (Entrevistado 6).

Estas reformas, manutenções e criação de novos espaços para os apenados são de fundamental importância para a conservação dos espaços e da qualidade dos

projetos, mantendo os ambientes com características capazes de ressocializar, com aspectos psicológicos, sociológicos, arquitetônicos e higiênicos (FIKFAK et al., 2015). Contrariando essas colocações e as melhorias já feitas em suas estruturas, o Presídio de Passo Fundo/RS encara problemas de superlotação e, principalmente, problemas de comprometimento da infraestrutura já muito antiga, testemunhados a partir do depoimento do Entrevistado 4:

Mas Passo Fundo... pelo contexto da arquitetura hoje, hoje ele é uma estrutura bastante comprometida assim... a gente não diz que ele é um grau de risco crítico, mas que ele é um grau de risco médio assim né... do ponto de vista da estrutura. Mas por conta destas melhorias que vão fazendo ao longo dos anos, vão arrumando algumas coisas né [...] alias, a 4° Região é a pior região do estado, que é a região de Passo Fundo, é lamentável, mas essa a situação deles hoje (Entrevistado 4).

Os relatos demonstrados anteriormente, repetiram-se com outros entrevistados, quando o questionamento voltava-se para a infraestrutura atual do presídio: “Nesse tempo que eu tô aqui é.… como que eu posso dizer... basicamente é enxugar gelo” (Entrevistado 3). Relata-se, também, problemas hidráulicos, elétricos, “Há infiltração, há pouco espaço, há enfim toda uma questão hidráulica e elétrica comprometida, a parte hidráulica não sustenta hoje a capacidade que se tem [...] a parte elétrica da mesma forma” (Entrevistado 1).

E quando o questionamento é feito sobre a infraestrutura das celas e alojamentos, entendidos por Fikfak et. al., (2015), como sendo os espaços de maior importância e impacto no processo de ressocialização do apenado, influenciando o comportamento humano, os relatos sobre estes ambientes do Presídio de Passo Fundo expõem a precariedade e os problemas no uso destes lugares, onde “O preso passa dentro da cela em torno de 22 horas... 21 mais especificamente por que eles têm um horário de banho de sol que a gente diz” (Entrevistado 3).

A seguir o principal relado sobre as celas do PRPF:

Além do número exorbitante do aumento da população carcerária tem realmente o espaço físico né, hoje a gente tem celas que seriam pra 4 no máximo 5 presos, tem de 15, tem celas com 20 presos, então seria realmente o espaço físico [...] Existem algumas celas assim que tem um número menor de presos devido ao planejamento de segurança né... que são aquelas celas que dão pro muro, que possibilita fuga... mas também não diminui muito né, são 10/12 presos [...] Nas celas existem buracos, túneis foram abertos então a questão física tá bem degradante mesmo (Entrevistado 3).

Esta mesma análise pode ser feita na unidade APAC Santa Luzia “As celas do fechado são ótimas, eu vejo como ambientes muito bons, bons mesmo. Do semiaberto

precisa de reforma, não tá bom. Do semiaberto trabalho externo pra mim tá precário, ali já chegou no limite” (Entrevistado 6). E a unidade não enfrenta problemas de superlotação como o Presídio Regional pois parte de princípios metodológicos:

A APAC ela oferece além da estrutura que tem alojamento pra todos com dignidade, saneamento nem se fala, a parte jurídica, odontológica, a parte pedagoga que nós temos escola que inclusive nessa parte nós temos até faculdade e o convívio dele com o mundo externo vai se colocando a partir de que nós também recebemos muitas visitas e que ele no convívio com outras pessoas eles começam a ter vontade de se tornarem pessoas melhores também [...] A diferença já começa com pelo tratamento do nome e que no sistema comum eles tem um número o nome dele de batismo não é mais importante [...] e a APAC a primeira coisa que resgara pra ele virar um cidadão é o nome de batismo (Entrevistado 5).

E nesta estrutura de mais de 7.000m² construídos “Tem espaço pra tudo que você quiser, tudo que a gente quiser desenvolver a gente vai ter espaço, tem espaço, foi pensado em espaço pra tudo” (Entrevistado 6). Projetualmente, possui características espaciais únicas e dificilmente vistas em projetos penais no Brasil:

A relação entre interior e exterior, a diversidade de pátios, a questão da vista, a possibilidade de diversos usos [...] ele é um prédio que permite uma riqueza de apropriações que uma penitenciária comum por exemplo pátio central não permite [...] a APAC tem um ambiente mais leve, mais aberto, tudo isso é muito bom né... (Entrevistado 7).

Entretendo, estas particularidades não demonstram total exatidão em seu processo de criação, por exemplo, “Esse projeto tem muita compartimentação em um certo sentido, tem muita sala e hoje eu acho que é possível pensar em coisas mais integradas sabe... poderia até ser menor e com espaços até mais difusos” (Entrevistado 7). Outra dificuldade enfrentada na unidade devido a proporção dos espaços retrata-se a seguir:

A deficiência da APAC em ocupar estes espaços, estão por exemplo, como eu tava te falando, a APAC é deficiente com equipe e a APAC Santa Luzia não pode requerer uma equipe diferente por que nós temos um prédio diferente [..] pra segurança o espaço não favorece, tendo em vista não o espaço em si, é a minha capacidade de locomoção, de ocupação, de estar presente em todos os espaços com a equipe de funcionários que eu tenho, e depois a dificuldade de parcerias (Entrevistado 6).

Metodologicamente, a APAC ainda diferencia-se do sistema tradicional por fatores como:

Ele (detento) chega na APAC e ele se torna ou ele é convidado a se tornar protagonista da sua execução e a primeira coisa que acontece com ele

quando chega na APAC é a tomada de consciência, a APAC trabalha com a terapia da realidade o próprio nome já diz Associação de Proteção e Assistência aos Condenados, nós partimos do princípio que aqui não tem inocente [...] Ele chega na APAC, ele tem que romper com o crime, porque na APAC ele vai ter que segurar a chave, na APAC ele vai ter que fazer parte do conselho, na APAC ele vai ter que romper com o código de conduta que existe do X9 [...] Então a metodologia APAC, e a gente fala isso com muita segurança, a gente quer ser uma alternativa, e tem sido uma alternativa para o sistema prisional. Acho que nós estamos ainda longe de ser uma solução (Entrevistado 6).

Um dos pontos, e grande diferencial da metodologia, é a disciplina que os recuperandos devem ter diariamente “Aqui é obrigatório levantar cedo, participar da oração da manhã e ir para a laborterapia e nós temo um quadro né, um quadro disciplinar e alí é a avaliado todos os recuperandos que aqui se encontram” (Entrevistado 5).

As laborterapias surgem com o intuito de “Despertar o sentimento de trabalho, o sentimento de produzir algo bom, de produzir algo bonito” (Entrevistado 6), além de ser um dos princípios básicos da metodologia APAC. “Aqui na APAC nós temos mais a parte de trabalhos manuais, onde eles fazem cadeiras, as espreguiçadeiras, quadros, relógios, pintura... pintura aqui é muito forte eles têm uma coisa com pintura que eu não sabia que eles tinham tanta vocação” (Entrevistado 5).

O Presídio Regional de Passo Fundo, mais precisamente o Instituto Penal, conta com oficina de produção de vassouras de garrafas PET, feitas pelos apenados do regime semiaberto, os quais também produzem sabão de glicerina e auxiliam na construção de novas edificações na casa prisional. “Muitos (detentos do regime semiaberto), embora não tenham perfil, querem vir para a equipe dos trabalhadores. Outros tantos preferem a ociosidade mesmo” (Entrevistado 2).

O trabalho no decorrer do cumprimento da pena é entendido como uma ferramenta contra os “desvios da imaginação” durante o tempo ocioso (LEMOS; MAZZILLI; KLERING, 1998, p. 5) e é bem aceito por detentos “Inclusive tem lista de espera” (Entrevistado 1). A atividade laboral proporciona ao indivíduo:

Primeiro, ocupação do tempo. Deve ser cruel uma pessoa aguardar o cumprimento de pena em um tempo totalmente ocioso. Segundo porquê de certa forma proporciona uma profissionalização né. Terceiro a questão da remissão, o preso a cada três dias trabalhado diminui um da pena [...] fazer com que o preso identifique no trabalho algo positivo, que isso melhore também a autoestima, pra saber que ele tem capacidade de produzir alguma coisa (Entrevistado 2).

Há uma transformação da pessoa né, dos seus conceitos enfim, daquilo que se espera, das suas percepções; das suas expectativas; acabam criando expectativas; o comportamento acaba se tornando um pouco mais “normal” do que o restante da população; o linguajar acaba mudando; a conduta; a forma de se comportar [...] esse contato faz com que também a pessoa já se predisponha a ter perspectivas de saída [...] Se a pessoa ta ociosa tem tempo pra pensar nas situações enfim até de caráter criminoso (Entrevistado 1).

Na aplicação da metodologia APAC, as laborterapias também causam mudanças no comportamento do recuperando:

A primeira questão que eu acho que é perceptível, pra mim, é a sensibilidade, a pessoa que se desperta pra qualquer trabalho, seja artístico, seja uma produção laborterápica mesmo de um pequeno artesanato, a sensibilidade dele muda, quando a sensibilidade dele muda isso muda a maneira dele relacionar com o colega, a maneira dele relacionar com a família, a maneira de relacionar com o próprio Deus entendeu [...] quando a metodologia ta fazendo efeito nele ele passa a ser mais ponderado (Entrevistado 6).

Não diferindo das oficinas laborais, a educação, direito garantido pelo Art. 41 da Lei de Execução Penal (BRASIL, 1984), também deve ser ofertada como forma de transformação individual e social, dando ao detendo a oportunidade de uma alfabetização e formação no ambiente penal:

Na prática nós temos 30, 40 pessoas né mas estão matriculados mais de 100, 110 dos quase 800 [...] cerca de 60, 70 pessoas levam o material para estudar nas celas e só vem fazer a prova no último dia. Então teria uma procura muito maior só que não tem a possibilidade por que não tem os espaços (Entrevistado 1).

O relato anterior refere-se ao Presídio Regional de Passo Fundo e levanta uma das principais questões do sistema tradicional: como ressocializar um indivíduo no sistema tradicional se falta espaço? Há 110 detentos inscritos na escola do Presídio e o espaço físico só permite que 40 frequentem as aulas, como os demais vão se alfabetizar sem o acesso aos professores? O estudo tem um resultado efetivo se realizado dentro de uma cela com 15 pessoas?

O grande dilema do Presídio Regional é a forma como os espaços são utilizados, a forma como os espaços foram sendo apropriados pelos indivíduos e a acomodação de um estado que não busca a ampliação destas infraestruturas, não busca a criação de mais salas de aulas para estes 70 homens que querem estudar e se deparam com a falta de espaço nas salas de aula do estabelecimento penal.

Em contrapartida, a metodologia APAC exige que todos os seus recuperandos estudem “Ele não pode ficar ocioso, ele não tem querer aqui. Ele já vem ele tem que

estudar, é obrigatório até o fundamental (Entrevistado 5), e os resultados podem ser observados no depoimento a seguir:

Agora quanto ao estudo, eu acho que é a parte mais fantástica que nós temos aqui, porque quando ele chega, normalmente ele fala: “não quero fazer nada”, ou então tem vergonha de dizer... Nós já tivemos aqui pessoas que tinham vergonha de dizer que não sabiam assinar o nome e que saíram daqui alfabetizados (Entrevistado 5).

Isto ocorre, pois, os espaços em uma APAC comportam a demanda do local, unidades para até 200 recuperandos não recebem o 201° apenado. A metodologia compreende que o ambiente atua constantemente no modo como percebemos, sentimos e agimos aos fatores físicos e normativos (VERDUGO, 2005). Ou seja, o ambiente influencia nas relações e no comportamento humano “Se você vive violência, você só vai apresentar o comportamento de violência, se você vive criminalidade você vai apresentar comportamento criminoso” (Entrevistado 2). Desta maneira:

“O espaço onde estas pessoas estão inseridas é o que transforma o perfil do preso, então dependendo do tipo de unidade e dependendo do tipo de concepção que tu dá, de forma de ocupação ou a forma como tu faz a mobilidade dentro da unidade, onde tu faz toda a movimentação... isso tem um impacto direto na relação e nos índices de criminalidade que tu tem lá fora” (Entrevistado 4).

A opinião de gestores que participam do sistema tradicional sobre a ressocialização dentro dos estabelecimentos penais pode ser identificada a seguir:

Nós não temos como pensar que a ressocialização está sendo feita pelo estado, aquele que não delinquiu é por mérito próprio por que por parte do estado nada está sendo feito e os espaços em nenhum momento, em nenhuma circunstância tem colaborado para a ressocialização pelo contrário ele tem colaborado pra loucura, pra psicoses e outros tipos de situações mentais oriundas dos transtornos causados pelo cárcere (Entrevistado 1).

A busca pela ressocialização abrange inúmeros fatores, um deles muito citado nas entrevistas foi a qualidade dos projetos arquitetônicos de estabelecimentos prisionais. Neste sentido, a arquitetura penal cumpre com um papel fundamental, retratando mudanças sociais e oportunizando o cumprimento da pena de maneira digna (FAIRWEATHER; MCCONVILLE, 2000; JOHNSON, 2013).

Eu acho que a questão da arquitetura é o que que ela permite e o que que ela não permite, então eu acho que ela influencia [...] o espaço prisional ele influencia eu acho que ele permite coisas e nega outras né e até a questão

da subversão, da resistência, da destruição, essas regras elas podem gerar várias reações [...] eu acredito na questão da arquitetura mais fraca, que ela abra mais possibilidades pros recuperandos de apropriação [...] isso pressupõem então mais ações deles nos espaços, é uma relação mais ativa com o espaço e não o espaço que quer só controlar (Entrevistado 7).

Essa dinâmica entre os espaços e os recuperandos da APAC Santa Luzia, a qualidade com relação ao projeto da unidade se comparado com o sistema tradicional ainda gera discussões sociais acerca do assunto, “Se os presos tem um espaço bom ta errado, a verdade é essa, as pessoas pensam assim [...] é a mentalidade punitiva, é a mentalidade de vingança, mentalidade violenta né, do estado, de uma parcela da própria população” (Entrevistado 7).

E muitas vezes a APAC é entendida como um “hotel 5 estrelas” cheia de luxo:

O luxo é não ter rebelião, o luxo é não ter tanta reincidência... isso é que é o luxo... o espaço colabora, mas não é só o espaço [...] mas pra nós sai muito mais barato porque cada rebelião eles quebram o prédio inteiro... tem que reformar tudo, e na APAC não, e olha que a APAC já passou por momentos tensos (Entrevistado 7).

Outro ponto de fundamental importância e que gera grande debate projetual e social, envolvem a localização destes equipamentos urbanos.

“A gente sabe que membros de facções alugam casas próximas. Eles estão recrutando crianças para fazer os arremessos e elas são pegas, presas então tem semanas que sobe droga no telhado que chegam próximo aos 10kg, fora os arremessos de cachaça né... mas hoje eu te garanto 100% que o presídio tá numa área inviável... até pelo risco que a população corre” (Entrevistado 3).

E contrariamente a este depoimento tivemos o seguinte relato:

Eu acredito que tendo um aporte de segurança, independe aonde ele esteja. Tu querer retira-los (os presos) da visão do resto da população é um erro, que normalmente é cometido, e as pessoas não percebem que na verdade eles são da sociedade. Todo preso entra fica uma temporada lá dentro, mas ele sai [...] até um amigo falecido já sempre dizia assim “hoje o preso está contido, amanhã ele está contigo [...] Longe ou perto ele está junto conosco [...] Quanto mais afastado menos se vê, quanto menos se vê menos se lembra por isso que também é uma das áreas menos investida, menos realizado obras, modificações, investimentos” (Entrevistado 1).

O local de implantação é capaz de delinear impactos socais no ambiente externo, influenciando a ressocialização dos usuários. Locais mais isolados dos centros urbanos e próximos de áreas naturais, apresentam um efeito terapêutico produzido pela paisagem. Porém, a acessibilidade, proximidade com meios de

transportes públicos, com aparelhos urbanos e com a população permitem menores distâncias a serem percorridas pelos visitantes e uma melhor ligação com o meio urbano, mas traz à tona as divergências sobre os sentimentos e pensamentos da comunidade (JEWKES; MORAN, 2014).

Na perspectiva APAC, o depoimento do Entrevistado 7 levanta uma das questões mais importantes no debate da localização de presídios, a urbanização das cidades.

Eu defendo aproximar, assim aproximar com a lógica da APAC [...] a gente tem um processo de urbanização extensiva então pra começar... já nem existe mais o que que não é urbano né? Quer dizer você tem áreas mais ricas e mais pobres, áreas mais adensadas e menos adensadas, mas é tudo urbano né, começa por ai [...] Primeiro que a prisão ela tende a ser urbana porque os crimes são urbanos (Entrevistado 7).

A análise urbana dos estabelecimentos penais demonstrou que apesar da implantação destes equipamentos longe do meio urbano, a tendência é a urbanização no entorno de presídios. Afastá-los significa a criação de áreas de baixa renda, ou seja, áreas urbanas onde o preço do lote diferencia-se do centro da cidade, como explicado por Villaça (2012). Ademais, exclusão em demasia desfavorece os processos de ressocialização do encarcerado, que é um indivíduo da sociedade.

Os debates acerca da ressocialização e da possibilidade de ressocializar o apenado dentro destes estabelecimentos prisionais, partindo das perspectivas de usos adequados dos espaços prisionais, resultaram nas principais argumentações descritas a seguir:

”Eu acredito que ressocialização só é possível na medida em que o apenado, por mais dura e cruel que seja a pena, mas ele se sentir ser humano e