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Percurso da pesquisa

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Capítulo 2 – Metodologia

2.2 Percurso da pesquisa

2.2.1 Procedimento

De acordo com González Rey (2002b), o campo de trabalho para os pesquisadores dentro das ciências psicológicas é bastante amplo, e a pesquisa científica é pertinente a todo e qualquer cenário em que esteja inserida uma prática profissional. Portanto, a psicoterapia, assim como outras práticas profissionais, constitui em precioso campo de produção de conhecimento, que é legitimado por meio da significação de que lhe é atribuída no momento dessa produção.

Depois de optar pela pesquisa qualitativa, eleger a clínica (a psicoterapia) como o cenário e a subjetividade como o objeto de estudo, o passo seguinte desta pesquisa foi selecionar, entre os casos clínicos em atendimento pela pesquisadora, aqueles que reuniam características para tornar-se foco da

pesquisa. Um dos critérios mais relevantes nessa seleção era a disponibilidade do próprio cliente em participar da pesquisa, uma vez que seu processo psicoterapêutico converter-se-ia em “objeto público” de estudo e pesquisa. Outro critério importante diz respeito à condição da pesquisa: era imprescindível que o cliente já estivesse em atendimento psicoterápico há algum tempo estabelecido o mínimo de um ano de psicoterapia. A existência de um vínculo com a pesquisadora-psicoterapeuta foi considerado visando a continuidade e prosseguimento da pesquisa.

Após a psicoterapeuta haver selecionado os casos, a proposta inicial de participar deste estudo foi feita a cada cliente ao final de uma sessão do processo de cada um, quando a psicoterapeuta, inquirida pelo resultado de sua seleção para o mestrado, compartilhou o resultado favorável, explicando sobre o trabalho a ser desenvolvido em sua dissertação. De pronto cada cliente contatado mostrou-se bastante interessado em colaborar com a psicoterapeuta, e um deles pontuou o quanto o processo psicoterapêutico vinha ajudando-o.

Posteriormente, a par de todas as implicações que compunham a pesquisa – sobretudo neste caso em que o cenário é a psicoterapia – formalizou-se a participação de E. e K.. Vale ressaltar, seus casos haviam sido selecionados anteriormente também pela pesquisadora por considerar que eles representam realidades significativas para o presente estudo.

Diferentemente de uma entrevista aberta ou semi-estruturada, as sessões na psicoterapia não são direcionadas tampouco estruturadas a priori. São constituídas no momento ímpar do encontro entre cliente e psicoterapeuta. O desvelar do tema processa-se nesse espaço, embora possa, sim, ser pensado a

priori pelo cliente e, quiçá, pelo psicoterapeuta. No entanto, é a disponibilidade

não aquele o tema do diálogo. Numa linguagem técnica, o instrumento utilizado para esse primeiro momento foram os “sistemas conversacionais” 7.

O diálogo, nessa fase, implicou uma relação mútua de confiança, respeito, atenção e interesse, principalmente no tocante ao papel da psicoterapeuta, na condição também de pesquisadora. Para González Rey (2002b, p. 55), “o diálogo não representa só um processo que favorece o bem-estar emocional dos sujeitos que participam na pesquisa, mas é fonte essencial para o pensamento e, portanto, elemento imprescindível para a qualidade da informação produzida na pesquisa”.

As sessões eram registradas por escrito e/ou gravadas e, ao final de cada encontro, fazia-se uma revisão dos registros, a fim de não perder nenhuma informação, principalmente emoções, sensações e idéias percebidas e vivenciadas pela própria pesquisadora.

Outro instrumento utilizado como suporte foram “redações”: no início do processo os sujeitos foram instruídos para que, relatassem, na primeira redação, de forma suscinta sua história de vida expressando-se ainda o significado da psicoterapia em suas vidas. Ao final do processo de pesquisa, outra redação foi solicitada, visando captar, de forma direta, mas ao mesmo tempo implícita, o sentido experienciado pelos sujeitos, cada qual ao seu modo, durante e ao final da pesquisa com relação a esse momento focal da psicoterapia.

As informações obtidas por meio de instrumentos escritos – neste caso, a “redação” – não são consideradas mais legítimas que outras fontes. Entre outras funções desse tipo de instrumento, busca-se a descentralização da intencionalidade do sujeito na produção da informação, facilitando, assim, o contato deste com novos aspectos de sua experiência a fim de estimular reflexões e emoções que possam levá-lo a novos níveis de produção de informação (GONZÁLEZ REY, 2002b).

7 O que caracteriza esses sistemas é que o processo não está centrado no pesquisador, pois o que se pretende é a

Partindo também dessas considerações, à medida que as sessões sucediam-se, os indicadores iam sendo percebidos e construídos. Assim, com o levantamento de eixos norteadores, tornou-se possível realizar uma análise construtivo-interpretativa dos casos. No Caso E., foram registradas 13 sessões e feitas duas redações e, no Caso K., foram registradas 12 sessões e escritas duas redações já mencionado anteriormente. Esse material foi considerado suficiente para o trabalho de pesquisa pretendido, tendo em vista a qualidade das informações que continha e foram analisadas pela pesquisadora.

Concomitantemente ao surgimento do material empírico nas sessões psicoterapêuticas e nas redações, as informações iam sendo analisadas e agrupadas – no caso E.: as informações relacionadas ao sujeito e sua vida, e as informações relacionadas ao contexto social profissional do sujeito; – no caso K.: a influência da perda dos pais e tudo o que isso representa na configuração subjetiva de K.; a relação psicoterapêutica como produtora de novos sentidos subjetivos; religiosidade numa interconexão entre subjetividade social e subjetividade individual; a tristeza e a depressão que a acompanhavam conjugadas à vontade de morrer; a dificuldade em relacionar-se afetivamente. Diante dessas zonas de construção pôde-se levantar tópicos e ir tecendo as interpretações as quais iam se desdobrando e ramificando em novas categorias e em construções interpretativas.

Como já apresentado anteriormente, o enfoque da metodologia qualitativa, na presente pesquisa, dispensa a formulação de hipóteses e não propõe a verificação de variáveis, como na pesquisa empírica tradicional. Porém, para que houvesse a confiabilidade metodológica, tornou-se fundamental que os eixos norteadores da pesquisa fossem definidos e explicitados, delimitando o campo da investigação. Os procedimentos adotados visaram uma maior possibilidade de expressão dos sujeitos estudados, a fim de que fosse estimulado neles a produção de informações que, reunidas e articuladas com a produção teórica pudessem dar um sentido à pesquisa.

2.2.2 Sujeitos

Após a reflexão, feita anteriormente, acerca da pesquisa qualitativa de epistemologia qualitativa (GONZÁLEZ REY, 1997, 1998, 2002b, 2003a, 2003b, 2004a, 2004b), participaram desta pesquisa como sujeitos, dois clientes da pesquisadora (psicoterapeuta), um homem (Caso E.) e uma mulher (Caso K.).

Ambos já estavam em processo psicoterapêutico com a pesquisadora em seu consultório particular há mais de dois anos, o que pressupõe um vínculo psicoterapêutico necessário, neste tipo de pesquisa qualitativa. Inicialmente, os casos foram selecionados pela pesquisadora; e, num momento seguinte, os sujeitos se comprometeram a participar do trabalho.

Espera-se diante desses aspectos, a manutenção da qualidade do relacionamento pesquisador-pesquisando, tão importante e relevante, difundida por esta abordagem epistemológica qualitativa.

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