partilhando vivências ao início e ao final de um ciclo de aprendizagem com cariz teórico-
prático – o ensino profissional i) uma aluna finalista do Curso Técnico de Apoio à Infância
(3º Ano), nesta fase a desenvolver o projeto que irá defender na Prova de Aptidão
Profissional, no início do mês de julho 2020; ii) uma aluna do Curso Técnico de Apoio
Psicossocial – 1º Ano que devido ao abrigo das medidas excecionais e temporárias de
suspensão de todas as atividades letivas se viu impossibilitada de realizar a sua primeira
experiência de Formação em Contexto de Trabalho, estando agora a desenvolver o seu
trabalho na UFCD 4260 – Trabalho de Projeto Comunitário – Fundamentos.
Fechar os Olhos para Ver
S. R., de 22 anos, finalista do Curso Técnico de Apoio à Infância, está a realizar a formação em contexto de trabalho (FCT), num 4º ano, fora do triénio do qual faz parte. “Comecei a tirar o curso em 2016 e estou finalmente no meu último ano. Estive um ano à espera para poder fazer o estágio e a Prova de Aptidão Profissional (PAP), pois devido a todas os buracos e montanhas que percorri neste caminho, não acabei o curso no tempo que era suposto. Passado um ano aqui estou eu. Entre quatro paredes, com um computador à frente, num estágio em que supostamente devia estar rodeada de crianças a gritar, a rir e a correr o dia todo. Nos três anos anteriores, onde erámos livres (sem saber bem), onde podíamos ver e estar com as pessoas, descobri os palcos e o mundo do espetáculo a partir das disciplinas da área de expressão artística. Descobri que estar em cima do palco é como uma “viagem” de autoconhecimento e essas experiências mudaram a minha vida ou a forma de olhar para ela. Sinto muito a falta desses momentos. Com este estágio “em casa”, vi-me obrigada a ter que procurar recursos didático-pedagógicos para a simulação do projeto final que provavelmente, nunca teria usado. Desde o YouTube, ao PowerPoint, até mesmo ao Instagram, o Podcast foi o formato de comunicação que me cativou de imediato. O Podcast é uma plataforma onde qualquer um pode criar uma conta e falar sobre o que quiser. Sem vídeo, sem imagem, apenas a nossa voz. Apesar de adorar os palcos e a exposição que eles trazem, quando descobri a
3 Maria Madalena Figueira Coelho e Campos Ghira. Mestre em Educação Artística com especialização em
Artes Plásticas na Educação (Eselx). Frequentou ainda a licenciatura em Pintura (FBAUL), Design de Comunicação (FBAUL), e a Pós-Graduação em Livro Infantil (UCL). Leciona as disciplinas de expressão artística na Escola Profissional Val do Rio – Polo Estoril, onde assume também cargos de assessoria à Inovação em Educação.
Ana Paula Faria Peralta de Almeida Carvalho de Almeida Carvalho, Licenciada em Educação de Infância com especialização em Ensino Especial - Crianças em Risco Socioeducacional (ESEMU). Coordena os cursos Técnico de Apoio à Infância e Técnico de Apoio Psicossocial na Escola Profissional Val do Rio – Pólo do Estoril e leciona as disciplinas de Técnica Pedagógica e Intervenção Educativa (curso de TAI) e Responsabilidade Técnica (curso de TAPS).
171 plataforma Podcast percebi logo que era com ela que queria fazer o meu projeto de estágio. Quando eu era criança adorava que me contassem histórias, fossem histórias para adormecer, o que nunca acontecia porque eu queria sempre ouvir a história até ao fim e às vezes até pedia para me contarem outra; fossem histórias que os adultos contavam, que eu nunca percebia muito bem, mas achava imensa piada porque ficava a imaginar tudo, todos os cenários, todas as pessoas, tudo o que acontecia, mas à minha maneira, na minha cabeça, na minha imaginação. Foi através destas memórias e muitas outras que surgiu, com a orientação da professora, a metáfora que me cativou de novo: “Fechar os Olhos Para Ver”. Um projeto com histórias contadas, explorando a oralidade. Percebi o que quero passar às crianças e a todas as pessoas que ouvirem o Podcast. Quero que fechem os olhos para poderem imaginar, de forma livre. Selecionei categorias (rima, poesia, conto de autor) selecionei sons, vozes diferentes e a minha avó também vai participar neste projeto. Não sei como vai ser o ensino daqui para à frente. Não sei quando é que este bicharoco invisível vai decidir fazer as malas e sair daqui. Mas de uma coisa tenho a certeza... bom, quase a certeza, a partir de agora os recursos multimédia vão ser mais utilizados, e eu acho que isso é algo bom, é o futuro. Apesar de achar que ter um livro na mão é muito melhor do que ler num ecrã que passado meia-hora está a queixar-se por estar a ficar sem bateria.”
Testemunho S.R.
De olhos abertos sem Reparar
M.C, de 17 anos está no 1º Ano do Curso Técnico de Apoio Psicossocial. Na disciplina Práticas de Intervenção Social, UFCD 4260 – Trabalho de Projeto Comunitário – Fundamentos, uma UFCD com forte volume teórico, foi apresentado como tarefa, ilustrar um livro de conceitos chave para as etapas do trabalho de projeto. Este suporte visual-digital construído à distância em trabalho colaborativo alunos-professor, tinha como objetivo acrescentar a observação pessoal aos slides/páginas, quanto às etapas de projeto. Pretendia-se também associar a componente afetiva ao sentido de apropriação do conhecimento, a pertença. M.C. refere quanto a esta experiência: “Neste período do confinamento eu tinha o meu irmão mais novo sempre a interromper-me quando estava a fazer as tarefas pedidas pela escola. Entretanto, comecei um trabalho que falava de metodologia de trabalho de projeto na disciplina de Práticas de Intervenção Social. Tínhamos que começar por observar e identificar uma problemática no nosso espaço de confinamento, fazer um diagnóstico. No meu caso, estava em casa com a minha mãe e o meu irmão. Tive a ideia de fazer um plano que pudesse ajudar a que ele ficasse mais calmo. A metodologia de trabalho ajudou-me imenso e assim me organizei de uma forma melhor para mim e para o meu irmão. Mesmo assim, penso que a escola à distância não traz um resultado tão bom como quando estamos na escola. Quando estávamos na escola, nesta disciplina fizemos um trabalho em que íamos muitas vezes a museus, queixávamo-nos muitas vezes, mas a maneira como aprendíamos nas visitas aos museus nunca será a mesma do que por exemplo numa visita online. Agora reparo que subir aquelas escadarias que iam dar ao local onde estava o azulejo que fomos ver, para depois fazer o nosso próprio azulejo, era uma honra porque podia estar no museu, e podia ver cada detalhe dos azulejos da parede, o chão, a casa de banho muito antiga... Na altura não percebi isso. Pensava que podíamos ver tudo na internet, mas isso era uma ilusão nossa. Agora reparo que estar ali era uma forma diferente de ver as coisas. Online não podemos ver os detalhes e perceber tão bem a história daquele museu. A quarentena fez-me ver coisas que eu nem sequer pensava. No trabalho de metodologia de projeto, observar era a fase inicial e eu nunca pensei que podia fazer um trabalho com o tema - o meu irmão e eu. Ainda menos pensei em resolver um problema cá de casa com um trabalho da escola. Mas quando tive que fazer o diagnóstico, observar o que estava à minha volta, olhei de forma diferente, assim como agora
172 vejo, fazia na visita ao museu. Reparei nos detalhes. Eu acho que em setembro ainda não vamos poder estar na escola, infelizmente…
Testemunho M.C.
Modo de ver ou um diagnóstico à distância: interesses, necessidades e potencialidades. O anterior consumidor passivo de conteúdos para a escolaridade obrigatória para quem se traçou um novo perfil, houve que se descobrir “prossumidor”, mais ativo e a gerar também ele, conteúdos para a “nova-escola à distância”, quantas vezes a partir do seu telemóvel. Interessa então, não apenas prever a necessidade de todos acederem de forma igual aos dispositivos informáticos, como importa pensar nas potencialidades dessas ferramentas nos processos de ensino e aprendizagem de forma a traçar metas de desenvolvimento para uma literacia digital, essencial para a participação plena na sociedade do séc. XXI.
14 junho de 2020
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FUNDAÇÃO CONSERVATÓRIO REGIONAL DE GAIA
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