CAPÍTULO II O PROGRAMA DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES
5. Descrição e análise dos dados coletados
5.4 Percurso pessoal e formativo das professoras
Conforme anunciado sobre as categorias de análise, foi propósito da pesquisa captar, também, fatores influenciadores do trabalho das professoras que extrapolam a atividade interna na sala de aula. Com isso, apresentam-se a seguir alguns dados relacionados com o percurso pessoal e formativo das professoras e com os fatores sócio-culturais e institucionais.
Sendo assim, qual é a trajetória do professor até chegar à sala de alfabetização? Muito investigada, durante a observação e durante a entrevista, uma professora se sentiu um pouco invadida, mas logo se acostumou com o olhar do pesquisador. A ser questionada sobre sua formação, cursos que fez e sua experiência em educação, desde o início de sua carreira, ela se sentiu importante, percebeu o quanto a sua história faz diferença nesse contexto educacional.
O Programa de Formação de Alfabetizadores propõe ao professor que ele não deve preocupar-se somente com o conhecimento através da absorção de informações, mas também pelo processo de construção da cidadania do aluno e da sua também. Para que isto ocorra, é necessária a conscientização do professor de que seu papel é de facilitador de aprendizagem, aberto às novas experiências, procurando compreender, numa relação empática, também os sentimentos e os problemas de seus alunos e tentando levá-los à auto-realização. É o sentimento da Professora B:
Fui fazer pedagogia porque era a opção que eu tinha de curso superior na minha região. Sou educadora há 19 anos, trabalhei na Rede Municipal no interior em Aragarças, a 400km de distância daqui. Lá eu trabalhei desde a pré-escola até a 4ª série, então tenho experiência em todas as séries, fiz o PCN, formação para professores e do PCN, ministrei cursos para coordenadores, foi uma experiência muito boa pra mim, só que lá o campo estava muito restrito pra mim, e eu queria mais! A especialização foi em todas as áreas e de 1ª a 4ª série, porque a especialização é frouxa nê! Uma experiência muito boa foi a formação foi em Pirenópolis (PCN), fizemos no hall do Augustos Hotel , os módulos de História de Educação Física. Foram momentos muito importantes na minha formação (entrevista 07/07/06):
Nesse trecho da entrevista, a professora fala que foi fazer Pedagogia por falta de opção e que não tinha como fazer outro curso na região onde morava. Este elemento aparece em outras falas e demonstra o quanto a educação é vista como falta de opção.
Outra professora demonstra ter grande preocupação com o acompanhamento individual das crianças. No registro de uma das observações verifica-se que a professora preocupa-se bastante com os alunos e afirma que estão acompanhando a lição o tempo todo. Em relação à Professora C:
Ela é bem pontual no trabalho “corpo a corpo” com as crianças, parece que esta é uma das suas ações mais eficazes, parece não perder ninguém de vista. Folheei cada um dos livros e muitos cadernos e pude verificar que ela não perde tempo, usa o tempo com as crianças da forma que ela acha a melhor possível. Ela me disse que aprendeu a fazer esse “corpo a corpo” com a experiência, ninguém nunca a ensinou isso. “Teria sido mais fácil se alguém tivesse me orientado a acompanhar meus alunos assim. Eu sofri muito para aprender e eles também” (Observação 11/10/05).
A formação do professor, de modo geral, “peca” muito em não prepará-lo para o exercício cotidiano do ensinar/aprender. Em outra observação, nota-se que o PROFA não modificou a ação da professora que, ao invés de trabalhar uma metodologia de reflexão sobre as hipóteses de leitura e de escrita das crianças e dar continuidade ao seu “fazer docente” trabalhando o alfabeto, os nomes próprios, as listas e os textos que os alunos sabem de cor, prefere as antigas atividades de memorização de famílias silábicas. Desse modo, os textos só aparecem, com rara freqüência, nas poucas leituras compartilhadas como se pôde observar.
É muito freqüente aparecerem, nas observações, registros desse tipo de ação como ocorre com a Professora D:
A professora é pedagoga e especialista em Planejamento Educacional. Ela fez o curso do Programa de Educação e Orientação Didática (PEOD), outros seis cursos na Escola da Vila, muitos cursos pela Faculdade de Educação,
pelo município e está fazendo agora um outro programa do MEC chamado PRA LER, que tem uma proposta sócio-interacionista, segundo a professora. Como já participou de muitos programas ela não demonstra aplicar um especificamente na sua rotina, mas diz saber o que usar e na hora de usar. Ela trabalha também, como alfabetizadora, numa conceituada escola particular de Goiânia, que também oferece muitos momentos de formação ao professor, porém observo que, apesar disso e das tantas formações que tem, não a faz utilizar os mesmos procedimentos e metodologias nos dois espaços (observação 04/10/05).
Além de todos os dados referentes a problemas e dificuldades do Curso que forma professores, observa-se que o interesse e a formação representam um importante papel para o rendimento do professor no processo de aprendizagem dos alunos, mas um elemento só não basta. Para o PROFA é preciso: construir conhecimentos sobre o professor que leciona no curso com referência à sua atividade didático-pedagógica, contribuir para a formação desse professor, oferecendo condições para que possa atuar como investigador de sua própria prática; habilitar esse docente, no sentido de possibilitar-lhe conhecer, sistematizar, analisar, refletir, agir e alterar sua prática docente, tornando-o ''professor reflexivo''. Ressalta a Professora A:
No caderno dos alunos que pesquisei quase todas as tarefas são corrigidas pela professora, e ela tem o cuidado de fazer algumas menções elogiosas como: ótimo, bom, parabéns etc, o que parece ser bastante motivador e ela usa isso no seu discurso diário para incentivar os alunos durante as tarefas de sala. Porém as atividades de escrita são todas de cópia (observação 10/10/05).
Outra observação demonstra ações bem pontuais nunca ensinadas nos cursos, mas amplamente usadas pelas professoras, que são as que se referem ao trabalho “corpo a corpo” da professora com o aluno,o que auxilia bastante na formação da escrita. São ações referentes à postura do professor nas aulas que obedecem a uma seqüência de exercícios de cópia mecânica e atividade de produção coletiva. No relato observou-se esta postura referente ao que se conhece por concepção de ensino tradicional. Em contrapartida há algumas atividades que privilegiam a diversidade textual. A Professora B demonstra a sua ação não aprendida em cursos, mas que alega ser excelente exercício de alfabetização.
Antes das crianças saírem para o lanche e eles trabalharam a leitura e a cópia do texto com a orientação da professora que vai passando o dedo no texto do quadro e as crianças vão memorizando e tentando ler. Ao voltarem elas retornam ao trabalho, agora copiando do quadro os que ainda não terminaram e os que já fizeram vão ilustrando eles vão conversando descontraidamente sobre as atividades, mas não há indisciplina.Depois
trabalham escrita espontânea de frases com duas palavras do texto anterior, escolhidas pela professora. Eles criam, depois copiam do quadro (observação 26/10/05).
Uma metodologia de aulas mecânicas e tradicionais também é observada na postura da Professora D, que muito se atém ao trabalho gramatical e usa os momentos mais lúdicos apenas como relaxamento ou como momento para esfriar a cabeça:
As crianças trazem de casa as tarefas, em caderno e eles corrigem com a professora, que vai conduzindo no sistema de cópia literal – um procedimento diferente do proposto no programa, pois a metodologia proposta no PROFA para atividades em sala de aula prevê que as crianças sempre sejam desafiadas a trazerem leituras para lerem em sala e que sejam desafiadas também a escrever espontaneamente sobre o que leram (observação 22/10/05).
Em um outro relato, observou-se a mesma professora trabalhando um texto biográfico, diversidade textual, privilegiando o uso da letra cursiva, o que confirma a hipótese levantada sobre a mesclagem de concepções, conforme o registro em campo referente à Professora D:
Posteriormente relembraram, com a professora, fragmentos da biografia do autor e ela passa no quadro para que eles reproduzam, com letra cursiva, no caderno – bem diferente das atividades propostas nos atuais programas de formação de professores que privilegiam atividades mais significativas e menos mecânicas (observação 21/10/05).
Diferentemente da metodologia do PROFA, a professora usa uma proposta de ensino pautada na ênfase à gramática e posteriormente trabalha a interdisciplinaridade, no mesmo exercício de mesclagem anteriormente observado. Ela usa a atividade prevista no Programa como Leitura Compartilhada apenas como relaxamento. É o que demonstra, aqui, a Professora D nessa situação:
Neste trabalho se dá grande importância no uso de parágrafo, na separação de sílabas e no uso das letras maiúsculas. À medida que surgem conteúdos matemáticos no texto a professora vai trabalhando-os. Parece que tenta, aqui, desenvolver a interdisciplinaridade com outra disciplina, porém não parece estar no seu planejamento. A professora relatou que acaba se esquecendo deste detalhe! Depois do recreio a professora lê uma história apenas para que eles possam relaxar e acalmar (observação 22/10/05).
Pôde-se perceber que as atividades realizadas pelo Curso alteraram as representações e as práticas pedagógicas das professoras em sala de aula. Mas para o PROFA é preciso considerar vários fatores: mudanças nos planos de ensino das disciplinas; maior consciência dos docentes em relação ao seu trabalho no que diz respeito à qualidade das aulas,
compromisso com a preparação de aulas; maior interesse por parte dos alunos em relação ao Curso; mudanças de atitudes de professor no tratamento com alunos; democratização das relações em sala de aula; maior possibilidade para que os alunos participem da construção de uma prática pedagógica melhor qualificada para a sua formação profissional.
Em muitos relatos, os benefícios do curso são grandes, assim como os benefícios em relação ao fato de os professores terem cursado universidade. Os alunos da Pedagogia, que já participaram ou que participam do Projeto, afirmam que o Curso é um espaço privilegiado e deveras importante na formação inicial do profissional, uma vez que permite conhecer a realidade do aluno, com todas as suas características, dificuldades e problemas; além de possibilitar a reflexão sobre esta realidade e assegurar espaço para discussão e proposição de alternativas de intervenção, no sentido de fortalecer a prática pedagógica desenvolvida no curso.
No capítulo seguinte proceder-se-á a uma análise de conjunto desses dados apresentados, em relação aos objetivos da pesquisa.