Por questões de ordem ética31 não identificaremos os participantes da pesquisa. Usaremos nomes fictícios, Luiz e Gilda. São dois jovens com cegueira total. Ambos já
30 Apreendido; apropriado; compreendido; incorporado.
31 O texto foi submetido para apreciação ao Comité de Ética, porém até a data da defesa não recebemos
autorização para divulgação de nomes. Os participantes não colocaram nenhuma objeção quanto a serem identificados, no entanto, em respeito às regras não os identificaremos.
concluíram o ensino superior. O participante Luiz concluiu sua graduação na Universidade Tiradentes e a jovem Gilda concluiu na Universidade Federal de Sergipe.
Luiz é um rapaz de 29 anos, formado em Publicidade e Propaganda pela Universidade Tiradentes. Quase toda a sua vida estudantil foi traçada em escolas da rede particular de ensino, com exceção de um curso de graduação que iniciou na UFS, mas não concluiu devido à falta de estrutura, na época, ofertada pela instituição. Contudo, frequentou instituições públicas, não como aluno matriculado, mas como participante e aluno de professoras desses estabelecimentos. Sua família era composta por pai, mãe e uma irmã, porém ela faleceu há quatro anos.
Luiz nasceu com cegueira, tendo apenas 5 % da visão do olho esquerdo, a deficiência ocorreu devido um problema de saúde que sua mãe teve durante a gravidez, a rubéola. Sendo professora, desde o momento em que soube que seu filho nasceria com algumas limitações, iniciou uma série de estudos para poder ajuda-lo. Segundo Luiz, começou a estudar aos dois anos e meio de idade. A primeira escola foi a Nossa Escola. Lá permaneceu até a 7ª série (nomenclatura da época), depois foi para o Pueri Pax e concluindo o ensino médio no Colégio Master. De família de classe média, segundo ele, sempre teve tudo o que precisou, pois mesmo quando sua mãe não podia comprar, ela conseguia através de doações. Ele relata em entrevista:
Eu sempre tive uma condição boa, podemos dizer que eu fui privilegiado. Por que sempre estudei em escolas particulares, as melhores escolas daqui de Aracaju. Toda estrutura necessária eu tive, eu só não tive a impressora braile, pois custava muito caro. Meus pais não são ricos pra comprar uma impressora de 15 a 20 mil reais, mas possuem uma condição melhor. Daí, eles compravam tudo o que eu precisava. Porém, nem tudo eles podiam comprar, por exemplo: a máquina perkins naquela época era caríssima, mas a minha foi doada. Quem doou foi o presidente da Laramara, do Instituto Laramara. (LUIZ, ENTREVISTA 1, Ver anexo 5).
Gilda é uma jovem mulher de 34 anos, formada em Letras/Português pela Universidade Federal de Sergipe. Toda sua trajetória escolar foi na rede pública de ensino. Começou seus estudos um pouco antes dos oito anos de idade, pois a família não tinha conhecimento sobre a existência de escolas para pessoas DV. Gilda nasceu com a visão normal, no entanto, segundo ela, perdeu a capacidade de ver devido a um colírio que foi medicado por causa de uma conjuntivite. Ela relata:
[...] até onde eu sei, nasci enxergando normal. Só que com 1 ano e 6 meses de nascida, eu tive uma conjuntivite. Dessa conjuntivite, minha mãe me levou num médico. Esse médico me receitou um colírio, eu vim pra casa. Minha mãe falou que eu chorava muito quando ela botava o colírio. Ela disse que eu chegava até a urinar, quando colocava o colírio. Ai, ela foi marcou a consulta de novo, quando chego lá, o médico disse que era mimo, repare! É mimo dela, dizendo que era mimo e tudo. Ai, meu pediatra foi quem descobriu que eu estava cegando [...] eu fui pra lá fiz a cirurgia. Ele disse que não tinha como ficar boa, porque demorou muito tempo. Ai ele disse que não tinha como fazer nada pra recuperar. Disse que o nervo ótico tava [sic] esmagado. Ia operar para que meu olho não crescesse mais. Por que a tendência era que ele ficasse crescendo. Minha mãe disse que eu fiz ainda 6 cirurgias, 3 em cada olho. E sempre ia de 3 em 3 meses, ela me levava pra lá pra Salvador para fazer revisão.(GILDA, ENTREVISTA 2, Ver anexo 3).
A primeira escola que Gilda frequentou foi a Escola de Educação Especial João Cardoso Nascimento Junior. Depois ela foi para a Escola São Cristóvão e em seguida foi transferida para a Escola Leite Neto, para ficar mais perto da escola de Educação Especial onde fazia banca. Sua família é de classe popular baixa. Sua mãe é dona de casa e seu pai trabalha do Departamento de Estrada e Rodagens (DER). Tinha nove irmãos, porém, morreram cinco. Ficando cinco filhas para o casal cuidar.
Uma das coisas que percebemos dentro do que foi informado nas entrevistas pelos participantes, é a importância da família na construção do saber. A família é parte fundamental desse processo, pois é ela que vai incentivar ou inibir a pessoa com DV ao processo do aprender. O que, de fato acontece. Existem famílias que tratam com naturalidade a pessoa com deficiência, exigindo que cumpra suas atividades normalmente no ambiente familiar fazendo com que essa pessoa se sinta útil. Por outro lado, há famílias que tratam seus parentes como incapazes. Quando perguntamos a Luiz sobre o que a família representa para ele, diz:
Ah! A família é o principal. Se a família te discrimina, como os outros irão te tratar? A família tanto pode ajudar com incentivos e colaboração, como também pode atrapalhar, tratando a pessoa como incapaz, superprotegendo, mas de forma negativa. E tá cheio de famílias assim, que tratam seus filhos e parentes de forma negativa. Conheço várias (LUIZ, ENTREVISTA 1, Ver anexo 5).
Perguntamos a Gilda como a família a tratava, se dava incentivo ou se a desestimulava. Ela respondeu:
Assim, mais ou menos. Por que assim, minha mãe depois que eu entrei no ensino médio, minha professora, Marisa, achou por bem, ela colocar uma pessoa pra ficar comigo lá no Dom Luciano. Como minha irmã era a mesma série que eu, minha irmã mais nova no ensino médio. [...] A gente não tinha o livro, no caso mais dela, né. Assim, minha mãe me cobrava muito isso. Tinha que comprar os livros e minha mãe ficava: porque eu não posso, aquela coisa toda. Falava como se eu fosse culpada, e assim: porque no meu caso o professor me dava aquele conteúdo e eu anotava aquilo ali de boa. Mas assim, a minha irmã não, precisava do livro, era aquela coisa. E ai minha mãe ficava falando. Olhe, eu vou lhe tirar da escola, porque o que eu queria era que pelo menos você aprendesse a ler, e você já sabe ler, então pronto, não precisa você estudar mais. Ai, queria me tirar, ai eu me revoltei. Ela queria me tirar da escola por causa da minha irmã, porque ela não tinha dinheiro para comprar todos os livros dela (GILDA, ENTREVISTA 2, Ver anexo 4).
Entendemos que as relações construídas pela família ficam arraigadas para sempre no universo simbólico da mente, tanto de forma positiva como negativa. Para Charlot (2000, p. 67) “a família é espaço de vida, célula econômica (de produção ou consumo) e grupo afetivo do qual uma das principais funções é a de educar”. Portanto, ele considera uma das principais relações entre o saber e o aprender.
Para compreendermos essas relações, vamos adentrar nas três dimensões que configuram o vinculo com o saber: a epistêmica, a identidade e a social; como nos orienta Charlot (idem).