A primeira experiência com colagem partindo da pesquisa proposta para o Mestrado, ocorreu em abril/2015 na cidade de Pelotas/RS. Participei de um seminário realizado pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais PPGAV/UFPel. Nesse evento, aproveitei a passagem pela cidade e realizei a colagem de alguns lambes pelas ruas.
O projeto inicialmente tinha o propósito de seguir na realização de trabalhos na linguagem da xilogravura. Todavia, com o passar do tempo, percebi que esse enfoque limitava significativamente as possibilidades de intervenção, sendo assim, os trabalhos precisaram ser modificados. O interesse passou a ser a elaboração de lambes impressos em off-set, tomando como base a xilogravura, ampliando-a para formatos maiores com a finalidade de melhor ocupar a extensão vertical do poste de luz. Assim, nessa experiência, escolhi algumas imagens de xilogravuras já existentes, e a impressão configurou-se nos formatos A3 e A2, pensando em ocupar melhor a extensão vertical do poste de luz. Tal experimento estabeleceu-se no intuito de verificar como seria a colagem, manualmente, de lambes em formatos maiores. Com essa ação, almejava-se a descoberta da noção de tempo ao desenvolvimento de toda a dinâmica utilizada e a experimentação de colagem em outras superfícies, além do poste de luz, como por exemplo, em tapumes.
As intervenções aconteceram à noite, com auxílio de colegas, os quais me acompanharam para registrar a ação. A primeira colagem ocorreu em uma casa abandonada (Figura 11), no centro da cidade de Pelotas/RS. Após o deslocamento para ruas localizadas no entorno do Centro de Artes (Figura 12), pude perceber, durante o dia, tapumes que já possuíam intervenções de grafite e pichação. As colagens aconteceram em diversos lugares, entre eles, tapumes, postes e uma casa abandonada. O caráter coletivo dessa intervenção, apesar de somente eu ser a
responsável por intervir e os outros de registrarem, me ajudou a ficar mais à vontade e tranquila nesse processo.
Figura 11 - Registro, Abril/2015. Pelotas/RS. Fotografia: Muriel Paraboni.
Fonte: Arquivo pessoal.
Figura 12 - Registro, Abril/2015. Pelotas/RS. Fotografia: Muriel Paraboni.
Fonte: Arquivo pessoal.
Quando me deparo com a possibilidade de intervenção em cidades as quais eu não resido, observo que, nessas situações de colagem, os sentimentos de tranquilidade e segurança são mais intensos em mim. Mesmo que haja um temor
envolvido nessa experiência, a segurança advém do fato de eu estar de passagem pela cidade. É como se fosse um registro afirmando a minha presença enquanto visitante, algo como “eu estive aqui”. Esse aspecto de visitante diverge da prática das colagens realizadas em Santa Maria/RS, pois sendo residente da cidade, o temor de ser “pega” no ato da ação, seja por estar “depredando” a cidade, é muito presente em meus percursos. Tenho a sensação que o anonimato em cidades as quais estou de passagem se torna mais efetivo, como se minha presença fosse uma espécie de efemeridade anônima e o trabalho seria o registro dessa minha presença em tal cidade. Caracteriza também um certo desapego, pois se tratando de uma passagem não tenho conhecimento sobre o trabalho após a colagem.
Acompanhar o trabalho inserido no espaço urbano após a colagem, seria mais como uma curiosidade do que um objetivo da pesquisa. Gosto de passar pelos locais e observar se ocorreu alguma interferência, se ainda está lá, alguns faço registro, porém não me aprofundo nessa abordagem na pesquisa, pensando que ao fixar no espaço urbano o trabalho se torna público.
Posteriormente, em maio de 2015, participei com trabalhos expostos em uma galeria no SP Estampa 2015. Trabalhos da série Desvio de Tensão, desenvolvidos em serigrafia e linhas costuradas, sendo um desdobramento de fotografias realizadas na cidade de São Paulo no ano de 2014, o mesmo período em que estive no mesmo evento com a intervenção Xilo no Poste.
Estando em São Paulo, entrei em contato com um dos integrantes do Paulestinos (Figura 13), o qual sigo as intervenções há algum tempo. Paulestinos é formado por dois nordestinos, Átila Fragozo e Renoir Santos, os quais foram residir em São Paulo ainda crianças. Colam lambes nas ruas e refletem sobre questionamentos como: O que é arte? O que é vida?
Eles trabalham com a imagem do lampião, do nordestino, visando uma reflexão geopolítica frente ao sujeito que abandona sua terra natal para ir viver em uma cidade grande, em busca de mais oportunidades e melhores condições de vida. Em seus lambes gráficos, utilizam a apropriação de elementos da trilogia Star Wars para transformar a imagem do nordestino, aquele que migra para São Paulo, em guerreiro, simplesmente, um herói: sujeito que luta para se estabelecer em um outro ambiente social, sendo, muitas vezes, discriminado e esquecido pelos grandes centros urbanos.
Figura 13 - Lambes Paulestinos, São Paulo/SP. Fotografia: Paulestinos.
Fonte: https://www.facebook.com/Paulestinos/photos/pb.557141114327460.- 2207520000.1440031089./710978645610372/?type=3&theater
Também realizam murais de grandes formatos (Figura 14), agregando lambes de artistas musicais. É um desdobramento de uma série de lambes, intitulada “Estudando a Música Brasileira”, a qual visa à valorização a grande gama de artistas musicais brasileiros.
Figura 14 - Estudando a Música Caipira, 2015. SESC Botucatu/SP. Fotografia: Paulestinos.
Fonte: https://www.facebook.com/Paulestinos/photos/pb.557141114327460.- 2207520000.1440031013./940431615998406/?type=3&theater
Em um segundo momento, nessa minha estadia em São Paulo, saímos para efetuar a colagem de lambes em duas noites (Figura 15), nas quais conseguimos percorrer as ruas da Vila Madalena e bairros próximos. O movimento de caminhar pela cidade na madrugada proporcionou-me a descoberta de vários lugares e becos, os quais dispõem de uma presença diversa das vertentes de arte urbana e de intervenções. A troca estabelecida nessa experiência permitiu a prática da intervenção em São Paulo, um grande centro urbano, por um ângulo bem próximo. Os percursos realizados ocorreram tranquilamente pela madrugada, acompanhados de discussões sobre intervir no espaço urbano, e conversas acerca do modo como se constitui o processo de criação dos lambes, fabricação da cola e trajetos executados para sair e colar.
Figura 15 - Registro, Maio/2015. São Paulo/SP.
Fonte: Arquivo pessoal.
Nesta ocasião, reproduzi o processo de colagem dos Paulestinos (Figura 16, 17), que utilizam a cola branca, misturada com água, o que resulta em uma cola mais líquida, facilitando a aderência no concreto. Para aplicação faz-se o uso de rolinhos, sendo passada tanto na parede que recebe o lambe quanto no próprio papel. Em contrapartida, o meu processo se diferencia nesses aspectos, pois, confecciono a cola a partir de farinha de trigo e água, sendo mais densa e tornando o uso de rolinhos ou pincéis mais difícil. Assim passo a cola com as próprias mãos.
Figura 16 - Registro colagem, Maio/2015. São Paulo/SP. Fotografia: Rafael Oliveira.
Fonte: Arquivo pessoal.
Figura 17 - Registro colagem, Maio/2015. São Paulo/SP. Fotografia: Rafael Oliveira.
Foi interessante essa experiência conjunta com os Paulestinos, pois os mesmos não possuem vínculo diretamente com a arte, o que também não deixa de ser uma ação poética e política no espaço urbano. Começaram a intervir para expor suas ideias, como uma necessidade de expressão. Perceberam que poderiam, através de suas ações – sair e colar, fazer com que outros pudessem visualizar seus trabalhos e, a partir deles, propor reflexões que partem de questões individuais.
Com os percursos realizados, nota-se uma grande presença da arte urbana – pixo, grafite, lambe-lambe, stickers. Quando estávamos observando locais para fixar nossos lambes, Átila e Renoir, falaram seguidas vezes que os nossos lambes não poderiam atropelar3 o trabalho de ninguém.
Entretanto, parecia que não havia mais espaço para intervir – postes de luz tanto em São Paulo, como em Santa Maria, são locais menos visados para intervir - o que faz parecer que a arte transborda pelas paredes/muros de concreto e como se não houvesse mais lugar para intervir, diante de tantas intervenções. Em centros urbanos maiores, tal como o de São Paulo, é muito mais presente a arte urbana - intervenções, pichações – já em centros menores, como o de Santa Maria, é possível ver uma aglomeração maior no centro da cidade, trazendo mais visibilidade e entrando diretamente na questão do que é público e o que é privado.
Figura 18 - Registro (1 ano depois), Abril/2016. São Paulo/SP. Fotografia: Átila Fragozo.
Fonte: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=984627921574303&set=pb.100000813135647.- 2207520000.1480285697.&type=3&theater