• Nenhum resultado encontrado

Percursos metodológicos do processo de pesquisa

No documento 2019RicardoCocco (páginas 34-37)

1 DIÁLOGOS INAUGURAIS COM O LEITOR/INTERLOCUTOR

1.4 Percursos metodológicos do processo de pesquisa

Ao nos voltarmos à compreensão das experiências de Radiodifusão Comunitária para empreendermos uma busca pela dimensão pedagógica nelas potencialmente presente, definimo-nos pelo Estudo de Caso como método de pesquisa. Segundo Fonseca (2002, p. 33), “um Estudo de Caso pode ser caracterizado como um estudo de uma entidade bem definida, como um programa, uma instituição, um sistema educativo, uma pessoa, ou uma unidade social”. Miramos inicialmente, portanto, a Radiodifusão Comunitária como um objeto definido de tal maneira que pode ser reconhecido publicamente sob as condições descritas no neste trabalho, como um fenômeno único, “contemporâneo, compreendido dentro de seu contexto da vida real” (YIN, 2001, p. 32), enfim como um “caso”.

De maneira geral, consideramos a Radiodifusão Comunitária como uma unidade de pesquisa. Na pesquisa circunscrevemos o objeto entre as experiências brasileiras, mesmo que aventemos sua genealogia supra político-geográfica.

Debruçamo-nos largamente, num primeiro momento desta exposição, sobre um estudo exploratório e descritivo de caráter bibliográfico e documental como estratégia de produção de informações. Temos a pretensão de compreender a história, a legislação que rege a Radiodifusão Comunitária, suas relações com a educação, o panorama atual, a conceituação e as interlocuções que são estabelecidos em torno do objeto, a fim de situar estas experiências comunicativas em cenários culturais e histórico-sociais nos quais elas se retroalimentam.

Adotamos um enfoque qualitativo sob a égide de uma abordagem sócio-histórica para a produção de informações a respeito do objeto de pesquisa ao assumirmos o fato de que o pesquisador nas ciências humanas transita no terreno das descobertas, da comunicação, das produções de sentido entre o eu e o outro, enfim, da compreensão. Para Minayo (2001, p.14), a pesquisa qualitativa trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis ou à quantificação de informações. As questões formuladas orientam-se para a compreensão do fenômeno em sua complexidade e em seu acontecer histórico e o pesquisador é um dos instrumentos de pesquisa. Sua compreensão se constrói a partir do lugar sócio-histórico no qual se situa. No caso, não pretendemos criar artificialmente uma situação para ser pesquisada, vamos ao “encontro da situação no seu acontecer, no seu processo de desenvolvimento” (FREITAS, 2003, p. 27).

Esse percurso inicial serviu para ampliarmos a percepção sobre o tema e nos conduziu posteriormente para um segundo momento do processo de pesquisa: uma investigação empírica com o desenvolvimento de um trabalho de observação em campo. Decidimos, então, por analisar experiências de Radiodifusão Comunitária concretas (que supomos serem únicas em muitos aspectos), procurando descobrir o que havia nelas de singular e característico.

Nesse sentido, a adoção do Estudo de Caso nos parece, no campo empírico, estar em consonância com as exigências postas pelas questões da pesquisa e com os pressupostos teórico-epistemológicos que nos movem. Além do mais, essa metodologia acompanha uma matriz usual nas pesquisas sobre o tema da Radiodifusão Comunitária apontada pelo Estado do Conhecimento, que será exposto subsequentemente.

Definimos, então, por selecionar duas emissoras tendo em vista algumas razões que as tornam potencialmente representativas do fenômeno. Trata-se da Rádio Comunitária

Liberdade FM, da cidade de Três Palmeiras, e da Rádio Comunitária de Frederico

Westphalen, ambas situadas no interior do estado do Rio Grande do Sul.

Para Yin (2001, p. 108), um bom Estudo de Caso deve utilizar o maior número possível de fontes. Um ponto forte da produção de dados é a “oportunidade de utilizar muitas fontes para a obtenção de evidências, [...] várias fontes podem revelar melhores resultados avaliativos (YIN, 2001, p. 120-121).

Entendemos que a triangulação de fontes potencializa a convergência de evidências e tende a reforçar a validade do constructo, afinal, o mundo em que vivemos fala de diversas maneiras. É por essa razão que, nos casos observados, utilizamos as seguintes técnicas para

produção de dados: entrevistas, pesquisa de opinião pública, registros em arquivos e observação direta.

Quanto às entrevistas, consideramos, no âmbito da produção, respondentes bem- informados e qualificados, os diretores de programação das emissoras e dois locutores de cada veículo, que atuam em períodos significativos da semana, envolvidos diretamente com atividades da emissora e que tivessem no mínimo dois anos de atuação. Nas entrevistas com esses sujeitos, utilizamo-nos roteiros semi-estruturados.

Para nos aproximarmos do nosso intento, fomos ao encontro de outros interlocutores, notadamente do pólo da audiência. O ouvinte não é uma ficção, mas um sujeito real, concreto. Dessa maneira, propomo-nos a dialogar com as audiências por meio de uma pesquisa de

opinião pública. Aplicamos questionários na área dos municípios em que as emissoras estão

localizadas. O intuito é compreender a maneira como os ouvintes percebem a atuação das emissoras, como eles se percebem em relação às emissoras, como se relacionam com os discursos enunciados nas emissoras em relação aos seus, que discursos produzem a partir daquilo que é enunciado por meio da mediação das Rádios Comunitárias, que sentidos constroem a partir daquilo que é veiculado e em que medida eles participam da produção da programação e dos discursos vieculados nas emissoras.

Além disso, compreendemos que também as informações documentais, os registros

em arquivos (YIN, 2001, p. 111), poderiam nos oferecer informações valiosas. Dessa forma,

buscamos, por exemplo, o estatuto da associação mantenedora da emissora, o site da emissora e os relatórios elaborados pelo Conselho Comunitário em relação às programações. Ademais, optamos por recorrer a dados oriundos de levantamentos, como o censo demográfico do IBGE e relatórios do SEBRAE.

Acrescentamos às estratégias anteriores a “observação direta” (YIN, 2001, p. 115), focada na grade de programação, com a elaboração de um diário de escuta, no intuito de conhecer as atividades diárias da emissora e quais discursos, de fato, são veiculados.

Assim, em síntese, realizamos a incursão no campo com: 1) realização de entrevistas

com locutores e direção das Emissoras; 2) aplicação de questionários aos ouvintes através de

pesquisa de opinião pública; 3) acesso a registros em arquivos das emissoras e 4) observação

direta na grade de programação com a elaboração de um diário de escuta.

Com o propósito de construir inteligibilidades e sentidos às informações produzidas em campo, adotamos para análise dos dados os parâmetros teórico-analíticos da denominada Análise Dialógica do Discurso (ADD) de orientação bakhtiniana.

A Figura 1, a seguir, apresenta uma representação gráfica do percurso metodológico adotado no processo investigativo.

Figura 1. Percurso Metodológico da Pesquisa

No documento 2019RicardoCocco (páginas 34-37)