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7 2010 Fontesi; CMB et

2.3.5 Percursos no HRAC

Experiências como a da UNIFESP- Baixada Santista vêm se multiplicando no Brasil, devido a pessoas que se fizeram sensíveis à relevância e à urgência de (re)pensar a

formação dos profissionais de saúde no Brasil, em busca de um profissional que se implique com o cuidado. É nesse sentido que a presente pesquisa se apresenta no Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC) da Universidade de São Paulo (USP), Bauru, investigando possibilidades de diálogo entre a arte, a formação e o cuidado em saúde.

Quando se pretende abordar a percepção de estudantes de fonoaudiologia sobre atividades de arte realizadas durante um curto período de sua formação, é importante lembrar que tal situação de aprendizagem é fruto de um longo percurso de propostas de mudanças. É preciso lembrar que antes de oferecer atividades de arte dentro de uma atividade oficial de formação de estudantes foi necessário que as pessoas envolvidas na formação daqueles estudantes, participassem, eles mesmos, de um processo de abertura a alguma mudança, para que aceitassem a realização de Arte em momentos de reabilitação da fala. Por vivência própria ou tomando conhecimento de outras instituições que inserem a arte em seus cotidianos, tais profissionais precisaram primeiro identificar na arte ou arte-educação um potencial disparador de uma série de conhecimentos e aprendizagens valiosos para os estudantes, para então aceitar a inserção da arte no ambiente de formação dos estudantes.

Não se insere uma Sala de Arte em um programa intensivo de reabilitação da fala de pessoas com fissura labiopalatina, sem um lento e duro processo de pequenas conquistas diárias. Ainda hoje, ações de Arte ainda não são muito valorizadas na instituição, mas ao menos alguns passos já foram dados. Não seria possível chegar à instituição, hoje e iniciar um trabalho envolvendo arte sem ter conquistado algum espaço anteriormente. Assim, para chegar ao ponto de realizar a presente investigação ocorreu um longo processo de amadurecimento de muitos dos envolvidos, incluindo esta autora e sua orientadora. Algumas situações de pesquisa e de ações com arte ou arte-educação fomentaram o mencionado processo de amadurecimento tanto para esta autora quanto para a equipe que lida diretamente com o PFI, redimensionando as relações entre profissionais de saúde e usuários, a produção do cuidado e a formação do profissional. Um trecho desse percurso de conquistas de espaço, com iniciativas envolvendo arte ou arte-educação, e que veio a culminar com a proposta da Sala de Arte no PFI, está descrito a seguir.

A porta de entrada, com a primeira ação que apresentou princípios da arte à equipe aqui mencionada, ocorreu com a elaboração de ilustrações didáticas. A partir da identificação de dificuldades de comunicação nos momentos de orientação de pais e

cuidadores, a Profa Jeniffer Dutka (responsável pelo Serviço de Prótese de Palato – SPP- do HRAC) entendeu que outras soluções deveriam ser buscadas, ações e propostas que fossem diferentes do que comumente já era realizado. Assim, contratou os serviços da presente autora em 2006, para realizar a elaboração e confecção de ilustrações didáticas que integrariam manuais de orientação voltados para subsidiar momentos de orientação de pais e cuidadores sobre aspectos da fonoaudiologia relacionados à fissura labiopalatina. Alguns aspectos contribuíram para a contratação dessa pesquisadora: a) a experiência como professora contribuiu para que houvesse um olhar didático sobre as ilustrações que viriam a ser produzidas; b) a formação em arte contribuiu para que o aspecto didático fosse acompanhado de intenções artísticas; c)a condição de mãe de crianças com deficiência contribuiu para que fossem identificados pontos de conflito na comunicação entre o profissional de saúde e cuidadores; ao mesmo tempo, d)a condição de leiga no assunto “fissura labiopalatina” contribuiu para que a percepção sobre a elaboração do material não fosse viciada em certezas a priore, mas em dúvidas autênticas de quem realmente estava tentando entender, favorecendo dessa maneira a possível condição dos pais e cuidadores que se pretendia orientar. Inicialmente houve algum estranhamento da equipe por contar com um artista/arte-educadora, mas aos poucos as coisas fizeram sentido, identificado pela maioria dos envolvidos. A seguir serão apresentados exemplos de ilustrações criadas para aquele trabalho, que fizeram parte também do meu processo de aprendizagem a respeito de fissura labiopalatina, assim como, a respeito da relação entre profissionais de saúde e usuários (como já citado no capítulo de apresentação desse trabalho). O processo de elaboração das ilustrações foi bastante longo, até que chegássemos ao acordo final.

Fonte: COSTA, 2012 Figura 32 Exemplos de ilustrações criadas

Tal processo de estudo de aspectos fonoaudiológicos na fissura labiopalatina, inicialmente voltado para a elaboração das ilustrações, tornou-se com o passar dos tempos

mais complexo. Outros aspectos da orientação foram visualizados, assim como aspectos do atendimento fonoaudiológico em si. Aos poucos, diferentes atividades envolvendo o olhar didático foram sendo integradas ao atendimento fonoaudiológico. Naquele momento, nenhum dos termos como „humanização‟, „integralidade‟ ou „cuidado em saúde‟ faziam parte de nosso repertório. As ações partiram das necessidades práticas, com base naquilo que intuíamos ou sentíamos.

Durante o mesmo período, foi realizada pela pesquisadora, pintura mural, voltada para ambientação e acolhimento na sala de fonoterapia infantil. A sala conta ainda com espelho, tecido suspenso sobre mesinha (como um acampamento caseiro, sugerindo um castelinho...), almofadas, brinquedos e materiais de arte.

Figura 33 Pintura mural na sala de fonoterapia infantil/HRAC

Também foi elaborado um modelo tridimensional da cabeça, contando

com palato e língua em material maleável, para possibilitar interatividade e melhor orientação sobre o posicionamento dessas estruturas no momento da produção da fala. O modelo conta ainda com prótese removível para favorecer a orientação a respeito da utilização de prótese de palato. O modelo tridimensional foi pensado para facilitar a comunicação, apresentando a área do trato vocal, omitindo estruturas anatômicas que não fazem parte da produção da fala, para evitar dispersão visual e confusão de ideias. Foi elaborado e confeccionado de forma interdisciplinar e intersetorial, com diálogos permanentes e mesmo participação ativa de vários membros da equipe do Serviço de Prótese de Palato (SPP), como fonoaudiólogos, dentista e protético além desta pesquisadora (COSTA, 2012).

Moldagem do rosto com material odontológico. Dr Homero Ferrari e Dra. Olívia Souza.

Escultura em cera Modelo finalizado pelo protético (Pedro Waldrigui)

em resina.

Orientação de usuário utilizando o modelo.

Fonte: COSTA, 2012

Figura 34 Processo de confecção de modelo tridimensional da cabeça

Em 2010 teve início o projeto de pesquisa de mestrado desta autora, em conjunto com a orientadora (Profª Jeniffer de Cássia Rillo Dutka), que consistiu em confeccionar e avaliar um material multimídia, em formato DVD, voltado para auxiliar processos de educação em saúde, incluindo processos de educação à distância (COSTA, 2012). O material, denominado “De olho na fala” foi elaborado tendo como base as ilustrações didáticas confeccionadas anteriormente. Abaixo, alguns exemplos de tela que constam no material de orientação:

Fissura Labiopalatina e Fala

Material para Pais e Cuidadores

Fonte: COSTA, 2012

Figura 35 Exemplo de telas do material 'De olho na fala'

A etapa de avaliação do material multimídia ocorreu em uma sala do

Serviço de Educação e Terapia Ocupacional (SETO), quando pude vislumbrar a potência de espaços de encontro, ainda que não tivesse questões conceituais de forma clara, em mim. O SETO é um serviço que remete à intersecção entre arte e saúde, e conta com um espaço de recepção e acolhimento em momentos de pré e pós operatório, com brinquedos, jogos e materiais expressivos. Conta também com profissionais que realizam atividades

Figura 1: Confecção do

Moldagem do rosto Escultura em cera Molde (gesso e resina) Modelo finalizado

Figura 5: Ilustrações de algumas das fases da confecção do modelo tridimensional e interativo da cabeça

Figura 1: Confecção do

Moldagem do rosto Escultura em cera Molde (gesso e resina) Modelo finalizado

Figura 5: Ilustrações de algumas das fases da confecção do modelo tridimensional e interativo da cabeça

Figura 1: Confecção do

Moldagem do rosto Escultura em cera Molde (gesso e resina) Modelo finalizado

lúdicas e atividades expressivas como pintura e teatro, possibilitando tanto às pessoas (crianças, adolescentes e adultos) que passarão por alguma cirurgia quanto aos seus acompanhantes ricos momentos de recreação e de encontro entre si, foco da pesquisa de Moraes (2007). Como ressalva, compreende-se que este potente espaço merece maior atenção e investimentos de ampliação, atingindo outras áreas, além de momentos de pré e pós operatório, que incluam a formação de estudantes, por exemplo.

Paulatinamente, junto a equipe do SPP, descortinou-se a possibilidade de atividade de arte com alguns usuários, e assim, a convite de profissionais da equipe de fonoaudiologia do Serviço de Prótese de Palato, e, de acordo com a necessidade de alguns casos específicos, foram realizadas atividades de arte durante a permanência de usuários (crianças ou adultos) na instituição para atendimento fonoaudiológico ou odontológico. Nas imagens abaixo, observam-se dois momentos distintos de um atendimento peculiar. Neste exemplo, especificamente, foi realizado o atendimento fonoaudiológico (Dra Olívia Souza) de forma conjunta com a atividade de arte. A criança, em processo de diagnóstico de síndrome velocardiofacial (que tende a comprometer o fôlego e a disposição do indivíduo), foi incentivada a produzir sopros, sons ou outras estratégias fonoaudiológicas, enquanto produzia imagens artísticas com o uso de papel celofane molhado em álcool. Tal estratégia de arte-educação não teve como objetivo, nesse caso, alcançar o lúdico, apenas, mas provocar situação que potencializasse na criança, a percepção de sua própria capacidade de criação. Visou ainda contribuir com a provocação da curiosidade e estimulação estética, por meio de um resultado rápido, utilizando o álcool, de secagem rápida. Na sequência, a mãe foi convidada a participar da atividade.

Figura 36 Atividade interdisciplinar com usuários

Como consequência destas experimentações e investigações, ainda que restritas, realizadas em parceria com alguns membros da equipe do Serviço de Prótese de Palato, incluindo a orientadora deste atual trabalho (Profa. Jeniffer de Cássia Rillo Dutka), ocorreu o convite para que estas reflexões e práticas das atividades de arte fossem divididas com alunos de fonoaudiologia no momento de sua formação. Uma curiosidade deste primeiro momento com os estudantes, onde foram inseridas algumas propostas de caminhos de pensamento e ação, foi que os demais profissionais também envolvidos no PFI, não participaram deste encontro. Tinham outros afazeres. Assim, não participarem do processo de elaboração conceitual. Ainda com grandes incertezas a primeira proposta de elaboração de atividades voltadas para estudantes de fonoaudiologia, ocorreu de forma a mesclar um pouco de cada área de conhecimento. Incluiu a elaboração de materiais didáticos, a utilização da arte como caminho de humanização e os conhecimentos adquiridos como mãe de crianças com deficiência.

Este movimento constante, por parte de alguns membros da equipe do SPP, de repensar propostas que venham a trazer melhorias, apostando em inovações e experimentações, gera reflexões que consideramos como ponto chave para o amadurecimento, o cuidado, a formação e a sensibilidade. Favorece, portanto, que se abra um território para investigar aproximações possíveis entre a arte e a formação do fonoaudiólogo na produção do cuidado em saúde, nos trazendo ao presente estudo.