• Nenhum resultado encontrado

Perda de bens, prestação pecuniária e multa

CAPÍTULO 2 – A PENA DE PERDA DE BENS

2.4 Algumas distinções necessárias

2.4.2 Perda de bens, prestação pecuniária e multa

privativa de liberdade também é uma negação de direito tão fundamental quanto o de propriedade, e ninguém ousa taxá-la de inconstitucional (BITENCOURT, 2006, p.

229).

A perda de bens é autorizada pela Constituição Federal e uma vez que esta pena, para ser cominada, deve ser submetida ao crivo do processo penal, o mais garantista dos processos, então ela, de fato, atende aos requisitos no que tange à privação de bens.

Por fim, tampouco prospera a crítica de Bitencourt de que a pena de perda de bens transgride o princípio da personalidade, pois atinge a família do agente. Em verdade, qualquer pena, em alguma medida, atinge a família do condenado, sendo que algumas, como a pena de prisão, afetam de maneira mais incisiva o núcleo familiar do condenado, enquanto que outras, como, por exemplo, a suspensão da habilitação para dirigir veículos automotores não tem impacto direto nas relações familiares do condenado.

No entanto, de uma maneira ou de outra, parece ser da natureza de qualquer pena ter reflexos (negativos) nas relações que o condenado tem com seus familiares. Essa característica, portanto, não é fundamento para o repúdio à pena de perda de bens, o que, novamente parece ser impulsionado por uma visão liberal do direito de propriedade.

Por tudo isso, parece mesmo, portanto, que as críticas ao fato de a pena de perda de bens atingir o patrimônio do condenado derivam de um campo axiológico em que o patrimônio vale mais do que a liberdade em si, a pena de prisão é vista com normalidade e o perdimento de bens é avaliado como uma aberração jurídica.

Trata-se de um nítido ideal liberal-burguês, típico do século XVIII e não condizente com o movimento deslegitimador da pena prisão que vem se avolumando no direito penal ocidental.

do agente por meio da transferência de bens, dinheiro ou valores, conforme explica Azevedo:

Já as novas sanções de prestação pecuniária e a perda de bens e valores, criadas sob o rótulo de “penas restritivas de direitos, têm natureza patrimonial”, porquanto o universo patrimonial do agente sofre uma diminuição pela compulsória transferência de bens, dinheiro ou valores, para o ofendido ou para o Estado, não se tratando de mera restrição do direito de propriedade. Essas sanções inserem-se no grupo das sanções pecuniárias. A bem ver, criaram-se verdadeiras sanções novas, que em nada significam restrição de direitos, mas sim sua privação […] (AZEVEDO in DOTTI, 1999, p.

51).

Portanto, visto que compartilham uma mesma classificação, essas três penas possuem uma característica em comum, qual seja: têm a capacidade de produzir a diminuição do patrimônio do condenado.

Essa semelhança, no entanto, não elide eventuais dissonâncias entre os três institutos, dissonâncias essas que de fato existem e devem ser apresentadas a fim de se melhor compreender a pena de perda de bens.

Com relação à pena de prestação pecuniária e à multa, a principal distinção entre esses institutos reside no caráter reparatório do primeiro. Como visto (item 1.6.1), a pena pecuniária destina-se, precipuamente, à vítima ou a seus dependentes e o montante pago a esse título deve ser abatido de eventual condenação em ação reparatória civil.

Já a pena de multa, tal qual a pena de perda de bens (vide discussão no item 2.3), não se presta à reparação dos danos decorrentes da prática delituosa. De fato, nenhuma dessas modalidades destina-se à vítima ou a seus dependentes, sendo o montante arrecadado destinado ao Fundo Penitenciário (FUNPEN):

Art. 49. A pena de multa consiste no pagamento ao fundo penitenciário da quantia fixada na sentença e calculada em dias-multa. Será, no mínimo, de dez e, no máximo, de trezentos e sessenta dias-multa (BRASIL, 1940).

No entanto, a prestação pecuniária e a multa apresentam uma diferença bastante significativa em relação à pena de perda de bens. As duas primeiras modalidades representam uma obrigação de pagar que é imposta ao condenado e, como qualquer obrigação, podem ser adimplidas ou não pelo obrigado.

Já a perda de bens não é uma obrigação de dar alguns bens que é imposta ao condenado, mas é, sim, o efetivo perdimento de parte do patrimônio do réu, com o consequente recolhimento dos bens ao Estado.

Não há na perda de bens, portanto, a possibilidade de o condenado optar por

adimpli-la ou não, já que de obrigação não se trata, havendo, de fato, o perdimento coercitivo dos bens em questão. A prestação pecuniária e a pena de multa dependem, ao menos inicialmente, de um elemento volitivo do condenado para serem de fato implementadas, enquanto que a perda de bens é dotada de autoexecutoriedade.

Essa volitividade no adimplemento da obrigação gerada pela pena de multa fica evidente quando se observa a redação do caput do art. 50 do Código Penal, o qual estabelece que “a multa deve ser paga dentro de 10 (dez) dias depois de transitada em julgado a sentença. A requerimento do condenado e conforme as circunstâncias, o juiz pode permitir que o pagamento se realize em parcelas mensais” (BRASIL, 1940)

Ademais, o legislador, no art. 51 do Código Penal, considera a multa como dívida de valor, isto é, delega sua execução à Fazenda Pública nos termos da Lei de Execução Fiscal (Lei 6.830/80), o que demonstra o caráter de obrigação dessa pena, em oposição à autoexecutoriedade da perda de bens:

Art. 51. Transitada em julgado a sentença condenatória, a multa será considerada dívida de valor, aplicando-se-lhe as normas da legislação relativa à dívida ativa da Fazenda Pública, inclusive no que concerne às causas interruptivas e suspensivas da prescrição.

(BRASIL, 1940)

É claro que o Código Penal abre a possibilidade de a multa ser cobrada mediante desconto no vencimento ou salário do condenado (§§ do art. 50 do Código Penal), o que confere a ela algum grau de independência em relação ao adimplemento ou à vontade do réu nesse caso.

No entanto, tal procedimento depende de ordem do juiz e encontra os limites dos incisos do art. 168 da Lei de Execução Penal:

Art. 168. O juiz poderá determinar que a cobrança da multa se efetue mediante desconto no vencimento ou salário do condenado, nas hipóteses do artigo 50, § 1o, do Código Penal, observando-se o seguinte:

I – o limite máximo do desconto mensal será o da quarta parte da remuneração e o mínimo o de um décimo;

II – o desconto será feito mediante ordem do juiz a quem de direito;

III – o responsável pelo desconto será intimado a recolher mensalmente, até o dia fixado pelo juiz, a importância determinada (BRASIL, 1984).

Assim, em resumo, de regra, na multa, em especial depois da modificação legislativa feita art. 51 do Código Penal (a qual a transformou em uma dívida de valor para com a Fazenda Pública), não há bloqueio ou confisco imediato do valor

no âmbito da execução penal, mas sim, em geral, a criação de uma dívida com o poder público, a qual pode, eventualmente, não ser paga pelo condenado e terá execução delegada à Procuradoria Fiscal.

Essa falta de imediaticidade no cumprimento da pena de multa se comparada com a pena de perda bens, dotada de autoexecutoriedade, destaca-se no Projeto Modificativo do Sistema de Penas, o qual propõe que a pena de perda de bens seja abolida e transformada em uma pena residual a ser aplicada quando a pena de multa não for paga pelo condenado solvente (REALE JUNIOR, 2009, p. 384-385).

Tal proposta acaba por admitir que a pena de perda de bens, em termos de execução, é bem mais eficiente que a pena de multa.

Quanto à pena de prestação pecuniária, em que pese o fato de não haver forma de execução prevista em lei (BITENCOURT, 2006, p. 162), o nomen juris dessa pena alternativa evidencia o caráter de obrigação que ela possui, dependendo, ao menos inicialmente, de uma “prestação” a ser adimplida pelo condenado.

Esse caráter volitivo da prestação pecuniária e da pena de multa, em face da autoexecutoriedade da pena de perda de bens, confere vantagem a essa modalidade de pena, a qual não depende de ato do condenado para ser implementada e, portanto, possui agilidade e eficiência se comparada com as outras penas pecuniárias.

2.5 A PENA DE PERDA DE BENS E OS EFEITOS CONDENATÓRIOS (O INCISO