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Perdas e ganhos obtidos com a passagem à reforma

No documento inês silva (páginas 48-51)

Capítulo III Apresentação dos Resultados

1.5. Perdas e ganhos obtidos com a passagem à reforma

Nesta variável verificamos através dos relatos, que os entrevistados mencionaram perdas e ganhos muito equiparados.

Tabela 3 – Passagem à Reforma

Passagem à Reforma

Perdas Ganhos

1) Redução das relações interpessoais – E1; E2; E3; E9; E11; E14; E15

2) Financeiras – E5; E11; E13; E14; E15

3) Alteração/perda das rotinas diárias – E6; E9; E11; E14; E15

4) Falta de realização intelectual e ausência de desafios ao nível da cognição – E6; E15

5) Diminuição da intensidade de vida – E6; E15; E16

6) Relação conjugal – E9

1) Disponibilidade diária – E3; E4; E5; E7; E8; E9; E12; E13; E15

2) Intensificação das relações familiares - E2; E6; E7; E11

3) Bem-estar físico e psicológico – E10; E15 4) Melhoria da qualidade de vida – E6; E13; E15 5) Equilíbrio das relações interpessoais – E1; E4; E5

6) Maior realização pessoal – E10; E17

7) Oportunidade de novas aprendizagens – E5; 8) Disponibilidade para prática de exercício físico – E10

Relativamente às perdas da entrada na reforma, foram mencionadas em maior volume a redução das relações interpessoais, tida para os entrevistados como consequência da perda dos contactos profissionais e das rotinas diárias.

Apesar das perdas relacionais mencionadas, os entrevistados afirmam ter conseguido, através da prática do voluntariado e de outras atividades, novas relações de amizade.

“Perdi, perdi! Perdi um bocado o contato com as pessoas, reduzi os meus contactos, até porque a função que eu desempenhava era muito dada a estar com pessoas, a conhecer

outros amigos aqui, já consegui graças também ao voluntariado que faço, é um dos ganhos de fazer voluntariado.” (E2)

Contudo, em casos em que não existe uma quebra com o mundo social e está presente a procura e manutenção de atividades, esta perda é inexistente,

“Se a pessoa não tiver cuidado pode perder por um lado contactos profissionais a atualização sobre o mundo, e ficar desintegrado. Por outro lado, se a pessoa se mantiver informada, e se mantiver em dia, as perdas são praticamente nulas.” (E7)

Comparado à redução das relações interpessoais, registaram-se também as perdas financeiras, provocadas pela descida e estagnação orçamental advindas com a reforma.

“(…) enquanto estamos a trabalhar temos sempre a oportunidade de ser aumentados, ou pelo menos conseguimos com o que temos, manter o nosso nível de vida, já a partir do momento em que usufruímos da reforma as coisas tornam-se mais complicadas e é necessária uma maior ginástica orçamental.” (E11)

Contudo, as perdas monetárias são irrelevantes quando comparadas com o ganho de qualidade de vida e de saúde, conforme referenciado pelos E13 e E15.

“Perdi ordenado no final do mês, porque agora só conto com a reforma, e isso é negativo, mas sabe, não trocaria a paz que tenho hoje, pelo ordenado a mais que implicava 48 horas ou 72 horas de trabalho, muitas vezes quase seguidas, à volta de papéis e mais papéis.” (E13)

“Houve também uma grande perda monetária, eu quando trabalhava tinha os chamados benefícios além do vencimento que perdi, perdi muito dinheiro, mas ganhei tranquilidade.” (E15)

Há incontornavelmente uma alteração/perda das rotinas diárias, contudo, alguns dos entrevistados afirmam conseguir voltar a estabelecer novas rotinas para o seu quotidiano. Esta quebra de rotina sobrepõe o aumento da disponibilidade, que se para alguns entrevistados é tida como um ganho, para outros é vista como uma perda.

“O primeiro ano até é bom, descansamos, dormimos, fazemos o que nos apetece, mas depois começa a ser repetitivo, e é terrível, principalmente quando temos uma companheira que ainda trabalha. Na altura estava em união de facto e ainda morava connosco uma filha. Eu ficava em casa todos os dias e a cônjuge ia todos os dias trabalhar.

Mesmo sem querer, a cônjuge que vai trabalhar todos os dias acha a outra pessoa um bocado inútil, e se o outro não ajudar nada no serviço doméstico pior. Esta falta de ocupação, de utilidade foi fatal e levou à rutura do meu casamento.” (E9)

O afastamento do circuito laboral, e a entrada no “período de descanso” é também marcado pela falta de realização intelectual e ausência de desafios ao nível da cognição, essencialmente para quem desempenhou funções laborais de grande exigência profissional e com qualificações superiores.

“Sinto que perdi um bocadinho de adrenalina, que era muito importante para mim, e perdi uma certa realização intelectual, porque havia sempre desafios, e tinha de estar sempre em formação, tinha de fazer certificações, fiz sempre questão de ser uma profissional bem qualificada, e disso sinto falta.” (E6)

“Perdi a intensidade da vida que tinha, e isso fez-me falta, há uma expressão que eu emprego muito que é “eu pélo-me com uma boa briga”, uma boa briga de argumentos, sinto falta disso, dessas reuniões de debates de interesses, da conjugação de desafios, desse estimulo cognitivo.” (E15)

Já no que concerne aos ganhos os entrevistados referiram maioritariamente o aumento da disponibilidade diária

“Quando estamos numa entidade patronal temos uma série de responsabilidades, horários e isso por vezes limita-nos.” (E5)

“Ganhei disponibilidade (...). Tenho liberdade de agenda é muito mais fácil conciliar as responsabilidades com o lazer, de estar com os familiares e com os que gosto.” (E7)

A intensificação das relações familiares, consequência da adoção de novos papéis sociais (ex: avós) e da finitude das obrigações profissionais.

“Ajudo os dois netos nas universidades, um vive comigo o outro vai lá 2/3 vezes por semana jantar, vem do ginásio toma banho, muda-se na minha casa e depois vai para casa, temos uma relação muito próxima.” (E2)

“Consigo estar com a minha neta, acompanhar o crescimento dela, coisa que nunca consegui fazer com a minha filha (…)” (E6)

“(…) entramos num mundo muito mais reservado, mais restrito, mas por outro lado tenho a outra parte compensadora de conseguir ajudar a família.” (E11)

Em menor volume foram também referenciadas o bem-estar físico e psicológico; a melhoria da qualidade de vida; o equilíbrio das relações interpessoais; maior realização pessoal; a oportunidade de novas aprendizagens e a disponibilidade para prática de exercício físico. “Ganhei mais liberdade de me optimizar no que gosto, tempo para os meus blogs, para a minha família. Ganhei noites de sono tranquilas. Sinto-me mais livre, mais fortalecido e realizado, mesmo com todas as perdas.” (E15)

No documento inês silva (páginas 48-51)

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