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2 A CONSTITUIÇÃO, A CARTA E O PERISMO: O DIREITO COMO INSTRUMENTO DE INTERVENÇÃO DAS ELITES NATURAIS

2.2 Bernardo Peres da Silva e o perismo

2.2.2 Peres estadista

Até agora viemo-nos sobretudo referindo a Bernardo Peres da Silva enquanto político: ao parlamentar, ao lutador persistente e ao prefeito. Ao combatente dedicado mas também de “génio arrebatado e violento”, que por vezes “não sabia

conciliar os princípios com as realidades”556. Essa é naturalmente uma das

principais perspetivas a partir das quais a sua ação deve ser analisada. Não é todavia a única.

Tão ou mais interessante é o Peres estadista, o homem que procurou traçar um rumo e desenhar uma estratégia político-ideológica para o futuro dos seus conterrâneos em geral e das elites naturais católicas em particular. Como o fez? Através dos seus escritos e, segundo cremos, acima de tudo por intermédio de um pequeno livro ao qual atribuímos especial importância no panorama político, cultural e até mesmo jurídico da Goa da época: o Dialogo entre um doutor em

philosophia e um portuguez da India na cidade de Lisboa sobre a Constituição Politica do Reino de Portugal, suas vantagens e meios de mantel-a. Dedicado á Mocidade da India pelo seu compatriota Bernardo Peres da Silva, Deputado eleito ás Cortes de Lisboa de 1826, pelos Estados da India. Trata-se de uma obra de dimensões modestas (66 páginas) e com objetivos assumidamente didáticos mas mesmo assim merecedora da nossa atenção.

2-176 2.2.2.1 Entre o “Diálogo” e o “sonho”

Antes de nos debruçarmos sobre o conteúdo do Dialogo importa fazer algumas considerações preliminares.

Em primeiro lugar, se é certo que na época foram publicados vários trabalhos do género557, também é verdade que julgamos ser este o único (i) escrito por um

natural católico goês, (ii) que fora eleito deputado e (iii) especificamente destinado a Goa, à “Mocidade da India” e às elites naturais católicas. Em segundo lugar, o

texto interessa também pelas diferentes contribuições que o autor recebera das várias terras por onde passara. No momento em que se dedica à escrita do Dialogo, Peres já saíra de Goa duas vezes rumo ao reino, passara por Plymouth e achava-se a viver exiliado no Brasil. Em terceiro lugar, trata-se das considerações de um emigrado político que se encontrava impossibilitado de regressar a Lisboa. Por assim ser, o Dialogo assume-se simultaneamente como exercício de reflexão, instrumento de doutrina e mesmo testamento político. É aí que estão as bases do pensamento de Peres e os alicerces do perismo. Em quarto lugar, importa dizer que não obstante a sua grande divulgação na época tivemos enormes dificuldades em encontrar um exemplar desta obra. Trabalhámos sobretudo sobre umas fotocópias de muito má qualidade existentes no XCHR, em Goa. Isso justifica algumas (poucas) hesitações que fomos registando ao longo do texto bem como a necessidade que sentimos em o reproduzir em anexo ao presente trabalho558. Todas as nossas restantes tentativas foram baldadas. Para mais, as fotocópias conservadas no XCHR estão incompletas: faltam-lhes as cinco últimas páginas. Estas foram-nos gentilmente cedidas por Sandra Ataíde Lobo. Em quinto lugar fica a pergunta: dos

557 Uma breve pesquisa pelos catálogos da Biblioteca Nacional permite-nos logo encontrar vários trabalhos

do mesmo jaez: o Cathecismo polytico constitucional, regulado segundo a Constituição da Monarchia

Portugueza de António Herculano Debonis (Lisboa, 1823), o Cathecismo Constitucional, ou a constituição

politica da nação portugueza, decretada e dada pelo senhor D. Pedro IV, rei de Portugal e dos Algarves, posta em forma de dialogo para uso da mocidade (Lisboa, 1826) e, do outro lado da barricada política, o

Cathecismo politico para os bons realistas (Lisboa, 1828) e até o Dialogo entre hum mestre, e seu discipulo,

ou cathecismo politico para servir de antidoto contra a impiedade, e sediciosa doutrina do Jornal denominado O Portuguez. Offerecido á mocidade brasiliense por hum Amigo da Religião, e da Patria, natural da Provincia do Pará (Lisboa, 1818). Em paralelo, uma versão do Catéchisme de economia política de Say tinha sido impressa na Índia por Luís Prates e Bernardo Peres certamente a leu – Oliveira, Luís Pedroso de Lima Cabral de (2014b).

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dois qual será Bernardo Peres? O doutor ou o índio? Apesar de não haver uma única resposta possível acreditamos que de alguma maneira Peres se retratou em ambos. É o doutor quando através do Dialogo apresenta aos seus conterrâneos os projetos e o percurso político que considerava que as elites naturais católicas deviam acalentar e seguir; é o índio nas alturas em que este, apesar de predisposto a ir disseminar as virtudes do regime parlamentar constitucional em Goa, lembra as resistências que lá irá certamente encontrar.

A nosso ver, a obra é suscetível de ser repartida em três blocos:

considerações introdutórias, o diálogo propriamente dito e o sonho do índio. Percorramos cada uma delas – sendo que analisaremos autonomamente as duas últimas.

Assim, nas considerações introdutórias encontramos sobretudo duas grandes preocupações. Por um lado, o autor apresenta a Carta constitucional quer como um instrumento de redenção das agressões provocadas pelos portugueses na Índia ao longo dos séculos, quer como espelho da superioridade da presença portuguesa no subcontinente quando comparada com o caso inglês. Tratava-se de um princípio animador num momento em que o poderio britânico na Índia se tornava cada vez mais óbvio e avassalador e as pequenas possessões portuguesas iam perdendo a pouca projeção de que ainda gozavam. Por outro lado, Peres expõe o conteúdo da obra (explicar “o que é Constituição, suas vantagens, e quaes os meios de mantel-

a”) e o propósito que a justificava: ilustrar a juventude agrilhoada a um passado de “despotismo” e permitir que mesmo os seus conterrâneos que não dispusessem de

uma “educação litteraria” esmerada pudessem tomar contacto com as benesses do

regime constitucional. Note-se porém que consideramos que o autor está a pensar essencialmente nos jovens membros das elites naturais católicas quando se refere à

“mocidade” goesa.

2.2.2.1.1 Diálogo propriamente dito

Trata-se da parcela mais longa do texto e consiste sobretudo numa troca de informações entre os personagens. Consideramos existirem cinco grandes perguntas

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que o índio dirige ao culto doutor. A partir delas várias outras, secundárias, vão surgindo ao longo do diálogo que se estabelece entre ambos.

I) “desejaria que me dissesseis; o que é Constituição, e quaes os meios de a

mantermos”. Esta é a questão inicialmente colocada pelo indio. O seu interlocutor

opta por responder em duas etapas. Na primeira, expõe o manifesto sucesso de alguns países que “são regidos pelo systema Constitucional”. E alude inevitavelmente aos casos de Inglaterra e dos Estados Unidos da América. Percebe- se que Peres tenha optado por estes exemplos: eram recorrentemente citados pelos defensores do constitucionalismo, o autor passara pela Grã-Bretanha e achava-se de momento no continente americano e o próprio Bentham (que Peres assumidamente admirava 559 ) era inglês e um entusiasta da experiência norte-americana. Confrontado com semelhante réplica, o índio demonstra vontade em saber se Goa se poderia vir a tornar nuns segundos Estados Unidos – ao que o doutor reage lançando água sobre a fervura. “Tanto não podemos esperar”, adverte, chamando a atenção para as limitações naturais do território goês.

O índio mantém-se contudo cético no que respeitava às benesses que a Carta poderia efetivamente trazer a Goa: “Que isso assim venha a succeder em Portugal,

não duvido; mas nas Possessões ultramarinas, eu não o creio”, exclama. No reino,

e ao contrário do que sucedida no Estado da Índia, o governo e as cortes estavam próximas, para além de se escutar a opinião pública (“a Rainha do Universo, e que

em ultima analyse, é a garante da Constituição”) e haver “escriptores publicos e

liberdade da imprensa, pela qual podeis pôr a nação em movimento, fazendo-lhe conhecer os tramas dos que pretendem subjugal-a”. Ao invés os goeses seriam “mais infelices que as Tribus dos Cherokoes de Alabama” e ver-se-iam desde logo

perseguidos por “Gorgonas (que) petrificão em nós o pensamento, se alguem tem a

infelicidade de não se aviltar, ou ceder a bolsa”. Note-se que quando ao longo do

texto o índio se refere a górgonas está sobretudo a pensar nos desembargadores da Relação. Mas o doutor não soçobra e replica com entusiasmo: “Tenhais constancia,

559 Para maiores desenvolvimentos consulte-se Oliveira, Luís Pedroso de Lima Cabral de (2013a), 497 e ss. A

influência de Bentham em Goa foi bastante significativa. Um exemplo disso é a edição da seguinte obra na década de sessenta: Bentham, Jeremias (1866), Opusculo contendo alguns capitulos selectos de Organisação

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