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4.2 CARACTERIZAÇÃO DE SENSIBILIDADE DAS BACTÉRIAS INDICADORAS

4.2.2 Perfil de susceptibilidade a antibióticos

Considerando a singularidade da origem das bactérias Gram-negativas utilizadas neste estudo, julgou-se importante conhecer os perfis de susceptibilidade a certos antibióticos, e entre eles, especialmente aqueles que estão relacionados com o manejo de animais durante a criação. Sendo assim, os resultados apresentados na Tabela 13 representam a concentração inibitória mínima (CIM) de cada droga sobre o desenvolvimento individual das quatro bactérias Gram-negativas, para assim verificar a incidência ou ausência de resistência adquirida “in vivo” nestes isolados.

Tabela 13 - Antibiograma das bactérias indicadoras isoladas de fezes animais.

O comportamento observado através do antibiograma revelou que a cepa de E. coli foi sensível a todos os tratamentos a que foi submetida, não configurando-se então como uma linhagem que tenha sofrido mutações e/ou adquirido resistência.

Por outro lado, as demais bactérias apresentaram comportamentos de resistência a algumas drogas, conforme dados sublinhados na Tabela 13.

O perfil de susceptibilidade de ambas as salmonelas foi idêntico e caracterizado pela resistência a quatro antibióticos: amicacina, cefalotina, cefoxitina e gentamicina. Já o perfil de resistência de Pseudomonas aeruginosa apresentou-se ainda amplo, pois foi observada resistência desta bactéria para cinco antibióticos (ampicilina-sulbactam, cefalotina, cefotaxima, cefoxitina e tigeciclina).

O grupo dos antibióticos β-lactâmicos foram avaliados através de ampicilina (sub-classe aminopenicilina) e piperaciclina (sub-classe ureidopenicilina), combinadas a um agente inibidor de β-lactamases, sulbactam e tazobactam, respectivamente. As ureidopenicilinas possuem habitualmente um espectro de ação maior contra bactérias Gram-negativas, desde Enterobacteriaceae até Pseudomonas sp., se comparadas às aminopenicilinas, que são ativas apenas

contra alguns gêneros das Enterobacteriaceae (NCCLS, 2003). Assim, os resultados experimentais são coerentes com estas informações, uma vez todas as cepas foram sensíveis ao tratamento com piperaciclina-tazobactam, enquanto a ação de ampicilina-sulbactam foi efetiva somente sobre as Enterobacteriaceae (E. coli e salmonelas), e ineficiente para Pseudomonas aeruginosa, naturalmente resistente a esta droga.

As cefalosporinas ou cefens, a segunda classe dos antibióticos β-lactâmicos, também foi avaliada neste estudo fazendo uso de cinco drogas (cefalotina, cefepima, cefotaxima, cefoxitina e ceftazidima). Tradicionalmente subdivide-se esta classe por gerações, conforme o espectro da ação bactericida. A cefalotina pertence às cefalosporinas de primeira geração e sua ação é limitada à E. coli, Proteus mirabilis e Klebsiella pneumoniae, ou seja, não é letal a outras bactérias Gram-negativas. Este comportamento foi confirmado nos resultados deste estudo, já que dentre as quatro cepas Gram-negativas avaliadas, apenas E. coli foi sensível a cefalotina. Cefalosporinas de segunda geração, onde está inclusa a cefoxitina, detêm um espectro de ação mais amplo, se comparadas às de primeira geração, porém ainda são pouco eficientes no combate a maioria das enterobactérias (como Salmonella sp.), e sem ação contra P. aeruginosa, conforme confirmado nos dados experimentais. O gênero Salmonella sp. é sensível apenas sob a ação das cefalosporinas de terceira geração, onde se incluem cefotaxima e ceftazidima, e de quarta geração, como cefepima. Todas esses princípios ativos demonstraram capacidade bactericida frente às duas cepas de Salmonella sp., caracterizando as cepas avaliadas como habituais quanto a sensibilidade às cefalosporinas. Com relação aos tratamentos em P. aeruginosa, as cefalosporinas também resultaram em comportamentos tradicionais, pois houve função antimicrobiana exercida por cefotaxima (única cefalosporina de terceira geração ativa contra Pseudomonas sp.), e cefepima, com atividade antipseudomonas reconhecida (GOLAN et al., 2008).

A tigeciclina faz parte de um novo conceito de antibióticos “desenhados” que vêm sendo introduzidos no mercado nos últimos anos, que por sofrerem alterações na estrutura química detém um espectro de ação bastante amplo, inibindo desde cocos Gram-positivos e bacilos Gram-negativos (inclusive Enterobacteriaceae), até bactérias produtoras de β-lactamases. Entretanto, tigeciclina mostra-se inativa contra uma bactéria crítica em saúde pública, que é Pseudomonas aeruginosa (LOPES, 2006), resultado observado experimentalmente neste antibiograma.

Finalmente, um grupo de antibióticos denominado de aminoglicosídeos foi avaliado através de amicacina e gentamicina. O espectro de atividade destes antibióticos é bem estabelecido contra bacilos e cocos Gram-negativos aeróbios, entre eles, Klebsiella sp., Serratia sp., Enterobacter sp., Citrobacter sp., Haemophilus sp., Acinetobacter sp. e, inclusive, Pseudomonas aeruginosa (GOLAN et al., 2008). Entretanto, parece pouco definido no que diz respeito à Salmonella sp.

A interpretação dos resultados de atividade de aminoglicosídeos sobre Salmonella sp. é inclusive cautelosa no Manual de Padronização de Resultados para Testes Antimicrobianos de Susceptibilidade, do “Clinical and Laboratory Standards Institute” (CLSI). Pela recomendação deste manual, os resultados de sensibilidade

“in vitro” não devem ser considerados para tratamentos terapêuticos “in vivo”, pois habitualmente estas drogas não são clinicamente efetivas (CLSI, 2011, p. 45). Os laudos de resultados deste estudo trazem comportamentos de resistência (R) para as duas cepas de Salmonella sp. sobre estas drogas. Entretanto, os valores de CIM apresentados no antibiograma (≤ 2,0 µg/mL para amicacina; ≤ 1,0 µg/mL para gentamicina) representam originalmente sensibilidade à droga. Para caracterizar resistência, as dosagens requeridas são ≥ 64,0 µg/mL para amicacina, e ≥ 16,0 µg/mL para gentamicina. Dessa forma, assume-se que os resultados de resistência (R) observados já estariam considerando as recomendações cautelares do CLSI para tratamentos clínicos e, dessa forma, representam sensibilidade “in vitro” das cepas deste estudo à amicacina e gentamicina. Comparativamente, a maioria dos resultados de outras pesquisas científicas recentes com isolados de Salmonella sp.

reportam que as linhagens são sensíveis a ação de amicacina e gentamicina.

Yildirim et al. (2011) registraram um pequeno percentual de isolados resistentes a gentamicina (14,7%), e menos ainda para amicacina (2,9%), a partir 68 isolados de carcaças de frango congelado. Oliveira et al. (2005) obtiveram apenas 5,5% das 91 linhagens de S. Enteritidis avaliadas como resistentes a gentamicina, e Duarte et al.

(2009) não observaram nenhum resultado de resistência à gentamicina dentre 19 linhagens avaliadas.

Em suma, todos os resultados apontados como “resistência” no antibiograma são restritivos em função do espectro de ação das drogas (resistência natural), ou seja, nenhuma das bactérias Gram-negativas estudadas apresentou indícios de resistência antibiótica adquirida frente às drogas investigadas.

4.3 PRODUÇÃO DE COMPOSTOS ANTIMICROBIANOS POR BACTÉRIAS