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Capítulo I – Reflexão sobre a Identidade docente

1.1. Identidade profissional do docente

1.1.1. Perfil do Docente

Ser docente nem sempre teve o mesmo significado e prestígio. Esta profissão é insistentemente influenciada

(...) pela escola, pelas reformas e contextos políticos, e que integra o compromisso pessoal, a disponibilidade para aprender a ensinar, as crenças, os valores, o conhecimento sobre as matérias que ensinam e como as ensinam, as experiências passadas, assim como a própria vulnerabilidade profissional (Marcelo, 2009, p.7).

Consoante o meio, a cultura e os pensamentos de épocas passadas, as crianças eram vistas como “tábuas rasas” e os docentes seriam aqueles que deveriam “escrever nelas”, transmitir conhecimentos e avaliar o rendimento escolar de cada uma delas. Hoje em dia, o docente é “um agente de desenvolvimento humano, num tipo de relacionamento partilhado; transforma as pessoas, eleva-as, enriquece-as, desenvolvendo as suas potencialidades” (Sardinha, 1998, p. 14), logo, as suas funções de outrora deixaram de ser apenas um fim e passaram a ser um meio para a educação e aprendizagem das crianças.

O docente, segundo Diamond (1991), citado por Nóvoa (2000), não deixa de ser influenciado pela sua história pessoal e profissional e a construção da sua identidade como professor passa a ser um sistema complexo (p.16). A construção da profissão docente passa por um processo ininterrupto “que começa muito antes da formação inicial, afirma-se durante o processo de formação inicial e adquire plenos e diversos significados durante o exercício da profissão” (Ferreira, Rocha & Silva, s/d, p.2161), daí podendo sofrer alterações. Caldeira e Rego (2004) ainda acrescentam que as crenças, objetivos e valores influenciam a prática docente.

Sendo que o docente é norteado por diversos influenciadores, a forma de ser deste irá influenciar diretamente a sua forma de ensinar. De qualquer das formas, para Sardinha (1998), um docente é aquele que “estabelece a correspondência, no plano complexo da realidade, entre “o saber” (ter conhecimentos científicos) e “o saber fazer” (ter gosto em comunicar os conhecimentos, utilizando-os no quotidiano), entre a “formação cultural” e a “formação profissional”” (p. 14). Ainda mais, e devido à evolução crescente e constante, Machado (2007) afirma a obrigatoriedade de se estar sempre atualizado, “em constante desenvolvimento e aprendizagem” (p.216).

Ser docente poderá dividir-se entre as profissões educador e professor. O Decreto-Lei n.º 241/2001, de 30 de agosto refere que ambos têm o mesmo perfil mas, tendo em conta as especificidades das crianças com que lidam, a forma de intervirem na sua prática é diferente, daí diferirem com um perfil de desempenho específico, de acordo com os interesses e necessidades de cada nível etário.

De acordo com o decreto-lei acima citado e especificando o perfil do educador de infância, este deve criar um currículo, servindo-se da planificação, organização e avaliação da sua prática pedagógica. O currículo deverá ser desenvolvido em articulação com as áreas de conteúdo apresentadas nas Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar. De igual modo, o educador deve proporcionar experiências diversas e estimulantes, de modo a proporcionar oportunidades a todas as crianças para se desenvolverem em todas as áreas.

Durante a sua prática, o educador ainda deverá ter em atenção a organização dos espaços e materiais a utilizar, que deverão ser igualmente diversificados e cativantes, sem porem em causa a segurança das crianças. Ainda se acrescenta o uso das tecnologias de informação e comunicação como recursos educativos. Na sua prática, deve promover atividades de desenvolvimento gradual da linguagem oral e escrita e o gosto pela leitura, tendo em atenção os grupos linguisticamente desfavorecidos. Quanto aos diversos tipos de expressão (plástica, musical, dramática e motora) deve articulá-las com as várias experiências de aprendizagem curricular e promover o contato com diversas linguagens e técnicas de cada uma, desenvolvendo e avaliando, gradualmente, as capacidades de cada criança. Referindo-se ao conhecimento do mundo, o educador deve estimular a curiosidade das crianças e desenvolver nelas a capacidade de observação, investigação e registo, de forma a conseguirem perceber a sua realidade envolvente.

Em todo o processo educativo, deve ter em atenção e promover o bem-estar físico e emocional das crianças, (Portugal & Laevers, 2010; ME, 1997), de forma a que estas possam disfrutar das atividades propostas.

O educador ainda deve fomentar o sentido de cooperação e integração em todas as crianças e incentivar a participação nas atividades. Igualmente, o envolvimento das famílias e da comunidade deve ser motivado de forma a que estas participem e contribuam para o desenvolvimento das crianças.

No que respeita ao professor do 1.º CEB, este, ao contrário do educador de infância, não cria o seu currículo, seguindo o programa nacional estipulado pelo

Ministério da Educação. Porém, poderá adequar o mesmo através do uso de estratégias inovadores e eficazes (ME, 2004), consoante as necessidades e interesses das crianças.

O professor deve cooperar na construção e avaliação do Projeto Curricular de Escola e, em cooperação com os seus colegas profissionais, deve gerir e desenvolver o Projeto Curricular de Turma.

Seguindo o programa estipulado pelo Ministério de Educação e correspondendo às necessidades e interesses das crianças, o professor deve gerir a sua ação pedagógica desenvolvendo todas as áreas curriculares. Estas deverão ser articuladas entre si, promovendo a interdisciplinaridade e servindo-se e complementando os conhecimentos prévios dos alunos (ME, 2004).

Durante a sua prática pedagógica, o professor deve fazer diferenciação pedagógica de forma a poder oferecer oportunidades de aprendizagem a todas as crianças. Também deverá promover momentos de trabalho em grande e pequeno grupo, de maneira a que se criem oportunidades de partilha de ideias, opiniões, conhecimentos entre crianças e professor e se desenvolva o espírito crítico, de investigação e de entre- ajuda nas próprias.

Tal como o educador de infância, o professor deverá estabelecer uma relação positiva com as famílias e com a comunidade educativa, motivando o seu interesse na educação das crianças e incentivando à sua intervenção e partilha.

Através da avaliação das aprendizagens do seu grupo de crianças, o professor deverá refletir a sua prática e adequá-la de maneira a que possa evoluir e aumentar a qualidade da mesma (Alarcão, 2010; ME, 2004).

Analisando os perfis dos docentes (educador de infância e professor do 1.º CEB) e seguindo Alarcão (2010), concluo que o papel de ambos consiste em “criar, estruturar e dinamizar situações de aprendizagem e estimular a aprendizagem e a autoconfiança nas capacidades individuais” das crianças (p.32). Ambos devem sempre respeitar os interesses e necessidades das crianças e, baseando-se nos conhecimentos prévios das mesmas, devem fomentar atividades diversificadas e significativas. Igualmente, também terão de desenvolver nas crianças a autonomia, o espírito crítico e de reflexão e a participação e cooperação, por forma a criar cidadãos adaptados a um meio democrático. Apesar de estarem obrigados a desenvolver atividades para determinadas capacidades, são livres de desenvolvê-las através de estratégias que sejam inovadoras, eficazes e apelativas às crianças.