4 PERFIL DO ESTUDANTE DA EDUCAÇÃO SUPERIOR
4.2 O ESTUDANTE DOS CURSOS NOTURNOS
4.2.2 Perfil do estudante do ensino superior noturno
Não existem estatísticas oficiais sobre o perfil do estudante do ensino superior noturno, mas, segundo Terribili Filho e Nery (2009), por observação prática, acreditam que a maioria é formada por estudantes-trabalhadores. Em pesquisa realizada por Terribili Filho (2002) junto a 244 estudantes do noturno em um curso de Administração de Empresas de uma instituição privada em São Paulo, 95% eram trabalhadores. Outra pesquisa, conduzida pelo mesmo pesquisador em 2007, com estudantes do período noturno de duas instituições privadas em São Paulo, apontou um percentual de 91% de trabalhadores. Resultados semelhantes foram encontrados em pesquisas abrangendo instituições no interior do Estado de São Paulo: em Campinas, 79% trabalhavam e, em Araçatuba, 87% dos estudantes eram trabalhadores. Os autores ressaltam que, no caso de cidades menores, do interior, nem todos
os estudantes que procuram pelos cursos noturnos são trabalhadores, mas geralmente o oferecimento do curso desejado se dá em cidades vizinhas apenas à noite, ou eles dependem do transporte disponibilizado pelas prefeituras para a sua locomoção (TERRIBILI FILHO; NERY, 2009).
Brancaleoni, Piotto e Pinto (2008) divulgaram pesquisa sobre o perfil de estudantes de cursos de graduação noturnos. Eles aplicaram questionários a 104 estudantes dos primeiros cursos noturnos oferecidos na USP, no campus de Ribeirão Preto. Os cursos pesquisados foram Administração, Economia, Ciências Contábeis, Pedagogia e Física Médica, que já existiam há pelo menos três anos, na época da pesquisa de campo. Eles encontraram diferenças entre estudantes das diversas áreas de conhecimento: Ciências Contábeis e Pedagogia apresentaram o contingente de alunos mais velhos, cuja faixa etária variou entre 18 e 29 anos, mas nos cursos de Economia, Física Médica e Administração, a maioria possui até 20 anos. Grande parte dos alunos que se declararam como brancos e pardos aparecem nos cursos de Física Médica, Pedagogia, Economia e Administração.
Quanto à escolaridade das mães dos estudantes, a maioria possui, no mínimo, o ensino médio completo, mas com diferenças entre os cursos. A maior escolarização é encontrada nos cursos de Administração, Economia e Física Médica. Mães que não estudaram apareceram apenas nos cursos de Pedagogia e Ciências Contábeis.
Sobre o tipo de ensino médio frequentado, a maior parte provém de escolas particulares, embora os que cursam Pedagogia e Ciências Contábeis frequentaram mais as escolas públicas em todo o ensino médio. Nos cursos de Administração e Economia, encontram-se os maiores percentuais de alunos que cursaram, exclusivamente, escolas particulares.
Quanto ao item trabalho, os cursos de Pedagogia e Ciências Contábeis apresentaram os maiores índices de estudantes-trabalhadores, sendo que os menores percentuais ficam para os cursos de Física Médica, Administração e Economia. A maior parte dos alunos é integralmente sustentada pela família, com os maiores índices nos cursos de Física Médica (95%) e Administração (78%). Em Pedagogia e Ciências Contábeis, comparecem em maioria estudantes que contribuem para a renda familiar e os únicos cursos em que aparecem indivíduos como principais responsáveis pelo sustento da casa.
Esses dados indicam a existência de diferenciação e hierarquia entre as carreiras universitárias. Os autores afirmaram que, de modo geral, “[...] Pedagogia e Ciências Contábeis são os cursos cujos alunos apresentam perfil socioeconômico mais baixo” (BRANCALEONI; PIOTTO; PINTO, 2008, p. 3).
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Castanho (1989) pesquisou uma amostra de 530 alunos de três áreas na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas). Um dado interessante apresentado por essa autora é que não há grande defasagem de idade em relação à série cursada: a maioria iniciou a faculdade logo depois da conclusão do ensino médio ou do curso preparatório17, o que, ao menos para essa instituição, contraria a compreensão corrente de que os alunos dos cursos noturnos são bem mais velhos que os do diurno. Apenas 10,3% possuem mais de 30 anos de idade, são solteiros em sua maioria, moram com os pais, com predomínio de mulheres nas áreas Biológicas e Humanas e de homens, na área de Exatas. A grande maioria trabalha no setor de serviços e quase a metade dos alunos são filhos de pais com pouca escolaridade (primário completo ou incompleto). Para a autora, há uma diferença na estratificação social dos filhos em relação aos pais, evidenciando que houve uma ascensão em relação à origem e que “[...] a busca do ensino superior pode se explicar pelo desejo de melhorar na escala social e pela expectativa de que a faculdade forneça os meios para isso” (CASTANHO, 1989, p. 73). Para Sposito (1989), 43,6% dos alunos dos cursos noturnos estão de dois a cinco anos atrasados e apresentam interrupções em sua trajetória escolar. Na pesquisa de Castanho (1989), já comentada, esses dados não se confirmam, pois a maioria não possui história de fracasso escolar, nem está defasada em relação à série-idade.
Furlani (1998) compara resultados de pesquisas anteriormente realizadas sobre o estudante de cursos superiores noturnos e afirma que preconceitos devem ser desfeitos. O que ela encontrou foi uma população predominantemente feminina, variando de acordo com a área de conhecimento, a maioria solteira e sem filhos.
Os estudos citados (CASTANHO, 1989; SPOSITO, 1989) utilizaram a escolaridade e a ocupação do pai ou responsável como indicadores da origem socioeconômica. A escolaridade dos pais concentra-se em analfabetos até o curso primário e a maioria das mães também não possui escolaridade ou chegou, no máximo, a finalizar o primário. Nesses estudos, mais de 74% dos estudantes trabalham.
Braga e Peixoto (2006), em sua pesquisa sobre o perfil dos estudantes da UFMG, concluem que há diferenças significativas na origem escolar, no percentual dos alunos que trabalham e no percentual de pais que não possuem formação superior, comparando estudantes do noturno àqueles do turno diurno. No noturno, cerca de 50% trabalhavam no momento do vestibular, contra os 20% do diurno. Em média, eles também chegam de três a quatro anos mais velhos que no diurno e pouco menos de 60% são egressos de escolas
públicas. Eles concluem que “os cursos noturnos, quando comparados aos seus similares diurnos, recebem estudantes de camadas sociais menos favorecidas” (BRAGA; PEIXOTO, 2006, p. 70).
Apesar de não se restringir ao estudo de perfil de alunos do turno da noite, Velleca (2009), em uma pesquisa com 283 estudantes dos cursos de Química da USP, ingressantes no período de 2003 a 2008, conclui que egressos do ensino médio exclusivamente de escolas privadas, no curso noturno, não atingem 40%, enquanto no diurno, mais de 70% são oriundos exclusivamente de escolas particulares. Ela avaliou também o tempo médio de previsão de término do curso e afirma que os jovens do curso noturno são notadamente os que terminam seus cursos em tempo maior que o previsto.
Pesquisa mais recente do perfil socioeconômico e cultural dos estudantes de graduação das universidades federais brasileiras, realizada pelo Fonaprace, com os principais resultados já apresentados no Quadro 7, utiliza, para a classificação econômica, os critérios da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep)18, com pequenas modificações em alguns itens. O estudo mostra que, em relação ao perfil dos estudantes do noturno, mais da metade (52,5%) pertence às classes C, D e E, enquanto estudantes pertencentes às classes A e B estão matriculados nos cursos matutinos (57,9%) e também no turno integral19 (65,3%). A concentração de estudantes de origem popular no turno da noite, “[...] alerta para a necessidade de ampliação dos equipamentos institucionais de assistência aos estudantes no período noturno” (FONAPRACE, 2011, p. 33).
Como Carvalho (1994) já sinalizava, as dificuldades do noturno, além do desgaste físico do estudante, são relativas à disponibilidade reduzida da infraestrutura nas instituições de ensino, como a falta de horários especiais de atendimento em bibliotecas e laboratórios. Para Nunes (2007)20, um dos problemas dos cursos noturnos, que afetam diretamente a sua qualidade, é a menor carga de trabalho discente. Neste turno, a hora-aula costuma ser de 40 a 45 minutos ao invés dos 50 minutos dos turnos diurnos. Raramente a carga horária semanal passa de 20 horas e, como os alunos do noturno não dispõem de tempo para atividades não presenciais, acabam estudando menos do que os demais. Para Terribili Filho e Nery (2009),
18 Essa escala é também conhecida como escala Abipeme. Entretanto, desde 1997, a partir de sua homologação pela Associação Brasileira de Anunciantes (ABA), Associação Brasileira dos Institutos de Pesquisa de Mercado (Abipeme) e Associação Nacional de Empresas de Pesquisa ela passou a ser denominada simplesmente Critério Brasil. No portal <www.abep.org.br>, obtém-se a sua versão mais atualizada.
19 Turno integral abrange o turno matutino e vespertino.
20 Nunes (2007) não esclarece a fonte dessa informação. Na UFBA, a carga horária é a mesma nos dois turnos: 60 minutos a hora/aula.
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também as questões do entorno, como o transporte coletivo, o trânsito, a falta de segurança devem ser levados em consideração na discussão de políticas públicas educacionais.
Vargas e Paula (2013) destacam que o horário de início da aula à noite normalmente coincide com o término da jornada de trabalho, o que implica em aulas que começam sistematicamente atrasadas. Os alunos chegam cansados, estressados com o trânsito e conscientes dos prejuízos que acumulam. As autoras analisam a Constituição, a LDB e a Consolidação das Leis do Trabalho, leis que regulamentam a educação e o trabalho no Brasil, e concluem que a legislação brasileira ignora solenemente tanto a situação do trabalhador- estudante como a do estudante-trabalhador.
Estes são fatores que podem influenciar negativamente no processo de ensino- aprendizagem do estudante que procura o turno da noite. A revisão realizada indica que é necessário criar uma proteção legal ao estudante que trabalha e ao trabalhador que estuda, além de adequar pedagogicamente os currículos (VARGAS; PAULA, 2013).
O estudo que realizamos e que é aqui relatado inscreve-se na linha das pesquisas revisadas e pretende verificar se as tendências encontradas se confirmam na atualidade da UFBA, como caso específico.