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3.7 O percurso de Alfredo

3.7.1 Perfil do licenciando

Alfredo nunca quis ser professor, segundo seu próprio relato. Ou pelo menos não pensava nisso, até ser aprovado no vestibular. Escolheu a Licenciatura pela baixa relação candidato/vaga no vestibular, assim como fizeram vários de seus colegas. Ele tinha a intenção de direcionar sua formação para o Bacharelado, mas durante a graduação, começou a vislumbrar na docência uma possibilidade de primeiro emprego. Enfrentou alguns problemas no primeiro estágio, com relação à indisciplina dos alunos, que faziam cair por terra várias tentativas de abordagens realizadas pelo seu grupo. Mesmo assim, Alfredo não se mostra desanimado por conta disso, pois acha que a falha foi da falta de experiência deles próprios.

Alfredo é um aluno que fala pouco, mas que, quando fala, se mostra muito preocupado com as questões sociais do ensino, e também com a forma como ensinar, pois julga isso fundamental. Ele mostra bastante maturidade ao falar da realidade do ensino e da profissão docente, mas também está em dúvida quanto a seguir ou não na carreira como professor na Educação Básica. Durante as discussões, sempre colocava questões que acabavam norteando os debates, devido à sua pertinência e complexidade. Seu maior conflito com a profissão docente se baseia na questão da falta de reconhecimento e na mal remuneração deste profissional. Assim, quase todas as questões colocadas em sala de aula por Alfredo tinham como pano de fundo estes itens. Considerávamos Alfredo um bom aluno, mas por vezes, seu comprometimento com a disciplina de Estágio deixava um pouco a desejar.

3.7.2 História de vida

Creio que, assim para muitos, os primeiros contatos com a escola ainda nos trazem lembranças. Quem não se lembra do pré e/ou da primeira série? Foram momentos marcantes, quase que uma vida nova, estávamos nos ‘iniciando no mundo’, entrando na dimensão do conhecimento, da ciência, da verdade. Nesta fase, muitos têm os professores como ‘deuses’, seres superiores. Tem toda uma mística que circunda a palavra PROFESSOR.

Me lembro muito bem dos meus ‘primeiros passos’ na escola, dos meus primeiros ‘amiguinhos’, das primeiras professoras e dos primeiros ensinamentos. Estudei em colégio de freiras até a 8ª série, logo tínhamos, todos, umas disciplinas rígidas, lá indisciplinas eram punidas e levadas a sério.

Apesar de sempre admirar a profissão professor, não me lembro de ter pensado em ser um ‘quando crescer’. Se brinquei de ‘escolinha’, foram poucas vezes, talvez

nunca dei o prestígio merecido à profissão ou achava ela muito difícil e complicada para eu seguir.

A profissão ‘caiu’ em minha vida muito pelo acaso. Fiz dois anos de cursinho pré- vestibular. No início prestei engenharia (por influência de tios e primos e também por ‘status’), depois comecei a pensar em biológicas, área que mais me agradava. Pensei em Oceanografia (prestei e não passei), Agronomia e Biologia, mas não pensava em licenciatura, talvez por um certo preconceito de a profissão ser mal remunerada, pouco reconhecida, sem o devido valor e escutar muitos professores dizendo que talvez seriam mais felizes com outras profissões. No ano que passei em Licenciatura em Ciências Biológicas, prestei Agronomia, Engenharia Agrícola e Biologia (uma só Licenciatura e outra com as duas ênfases). Nesta universidade, prestei Licenciatura pois sabia que seria bem menos concorrido, mas preferia Bacharelado, não queria ser professor. Após passar em três cursos diferentes, optei por aqui. A tradição, a infra-estrutura e as políticas de assistência estudantil foram fundamentais para minha escolha.

Com o decorrer do primeiro ano de graduação, fui conhecendo melhor a ‘profissão professor’ e aos poucos fui me inserindo a esse mundo.

O ensino passa a ser uma possibilidade profissional a partir do momento que começo a pensar no futuro: com que trabalharei? Onde trabalharei? A profissão de professor, apesar de não ser bem remunerada, muitas vezes é uma boa opção como primeiro emprego. Mas porque não seguir a profissão? A partir daí comecei a me ver como professor.

Tento levar para a prática profissional algumas características que assumo em minha vida pessoal, como: extroversão, porém com seriedade, respeito e pensamento crítico e reflexivo.

Na minha pouca experiência como professor, comecei a ver atitudes de alunos que me fizeram refletir sobre o meu papel na sociedade, minha aula, minha didática, meu entusiasmo. Vi alunos questionando por que aprender aquilo que eu estava lecionando, ainda bem que eu já tinha parado para pensar sobre essas perguntas, que inevitavelmente sempre surgirão, e pensar em algo mais concreto e aplicado do conteúdo em questão. Vi alunos dormindo em minhas aulas e pensava sobre a preparação desta, será que a didática está boa? Talvez seria melhor mudar a metodologia? Ou será que não importa como ou o que estou fazendo na frente da sala, tem alguns alunos que em certas horas não conseguem de forma alguma se concentrarem?

Tentava relacionar sempre o conteúdo que estava preparando à realidade dos alunos, a aspectos mais palpáveis, a aplicações desses assuntos na sociedade.

Considero que a partir do momento que um professor parar para pensar que aquele tema que está lecionando é importante para algo, ele (professor) irá ministrar a aula com uma melhor performance/segurança.

Lembro de vários professores que às vezes tento me espelhar e imitar algumas intervenções, didáticas ou ações. Sobretudo os professores do cursinho pré- vestibular, por ser mais recente e pela diferenciação. Esses professores possuíam uma bagagem teórica muito grande, a didática era muito boa. Porém, não posso querer ser igual a eles, existem limitações pessoais e de forma/conteúdo (quase não se faziam perguntas nas aulas de cursinho, o professor dava aquela aula umas 6 vezes na mesma semana e já a alguns anos).

Recordo-me de vários amigos que já fiz nesses 17 anos de escola, claro, uns mais, outros menos. Tento seguir várias ações/ensinamentos aprendidos com esses amigos. Acho que isso é muito natural, e muitas vezes inconsciente, as interações sociais formam as pessoas. Portanto, não me recordo de um amigo muito especial.

Talvez um episódio que marcou a minha vida foi a aprovação no vestibular, pois iria começar ‘vida nova’, nova cidade, amigos rotina, plano de vida. Contudo, também, não é um episódio isolado. Acredito que tenham outros importantes também, que não me recordo agora.

Acho minha história de vida muito interessante, cheia de meandros, altos e baixos, ‘sobe-e-desce’, muitas aventuras, experiências, histórias vividas, erros, acertos, arrependimentos, alegrias, tristezas, desilusões e, sobretudo, aberta, livre, sempre pronta para novos desafios e surpresas.