CAPÍTULO IV. A MONODOCÊNCIA E A PRÁTICA PEDAGÓGICA DOS
4.2. PROFESSOR BENTO
4.2.1. Perfil do professor e da turma
O professo Bento trabalha na instituição escolar há 14 anos e é coordenador das sextas classe no turno matinal. No ano de 2015 dava aula para uma classe de 6ª série e ministrava todas as disciplinas. O professor tem 35 anos de idade e formou-se num curso técnico de nível médio em pedagogia na Escola de Professores do Futuro (EPF) onde fez a formação de professor para zonas rurais. É Licenciado em Ensino de Psicologia no Instituto Superior de Ciências da Educação-Cabinda.
A turma do professor é composta por 50 alunos, todos adolescentes, com idade entre 11 a 13 anos. São alunos que estudam no período matinal com um
horário de cinco horas de aula. As aulas começam a partir das 7 horas e 30 minutos e terminam às 12 horas e 30 minutos e são ministradas de segunda a sexta feira.
4.2.2. Dinâmica das aulas
Quando o professor chegou ao corredor da escola, notou-se a preocupação dos alunos em entrarem na sala, porque o professor não gosta que entrem quando está a lecionar. No início da aula, o professor começou a fazer o controlo dos alunos, colocando falta nos que estavam ausentes. Durante o controlo observou-se a presença de 48 alunos, tendo faltado apenas 2 alunos. Para o professor não é comum seus alunos atrasarem, segundo ele isso aconteceu poucas vezes.
O professor colocou ao quadro o nome da disciplina a ser lecionada, e faz uma introdução. De acordo com o professor, os alunos têm pouca maturidade, por isso, à necessidade de trabalhar cuidadosamente com eles. Foi possível observar no decorrer de algumas aulas, o esforço do professor para manter os alunos atentos às explicações, pois era perceptível o desinteresse de grande parte deles pela disciplina. Este desinteresse pode ter sido provocado pelo estilo e pela voz do professor que é bastante monótona em algumas disciplinas. As aulas de Matemática e Educação Musical organizaram-se a partir de uma metodologia expositiva onde os conteúdos foram explicados de forma descontextualizada, sem vinculo prático. A seguir são apresentados os relatos da prática docente do Professor Bento
Aulas nº 1, 2 e 3.
O professor não segue a ordem das disciplinas estipuladas no calendário e leciona a cadeira de Matemática no lugar de Língua Portuguesa. Os alunos chegam tarde e o professor impede a entrada de uma e deixa entrar a outra. O professor pergunta aos alunos o porquê do atraso. Os alunos não respondem. O professor começa a aula de Matemática, passando no quadro exercícios para os alunos resolverem no caderno. O professor começa a perguntar se os alunos já terminaram de resolver os exercícios. O professor circula na sala controlando a maneira como os alunos resolvem os exercícios. O professor ameaça os alunos
prometendo que colocará fora todo aluno que não conseguir resolver os exercícios. Os alunos começam a andar de um lado para outro e começam a sair constantemente para ir ao banheiro. O professor coloca um exercício de multiplicação no quadro e manda um aluno resolver. O aluno resolve. O professor pergunta a uma aluna se o exercício está certo. Ela responde «não sei» O professor começa resolver o exercício no quadro dando explicações. Toca o sino do intervalo. Os alunos trazem seu farnel nas pastas e ficam sentados em grupos de dois ou três a lanchar, pois, a escola não tem restaurante. Os alunos voltam do intervalo correndo em direção a sala. O professor diz aos alunos: vamos abrir os cadernos de Educação Musical. Os alunos tiram das pastas os cadernos da Educação Musical. O professor começa a escrever os conteúdos ao quadro e orienta os alunos a copiar. O professor termina de passar os conteúdos ao quadro. Os alunos continuam escrevendo, mas alguns não escrevem. Bento não explica os conteúdos e nenhum aluno faz pergunta. A seguir manda uma aluna ao quadro para escrever a palavra «clave». A aluna não consegue, porque tem dificuldades na escrita. Outras crianças põem-se a sorrir. Alunos no canto esquerdo da sala começam a dormir e o professor continua a trabalhar com outras que têm dificuldade de escrita. O professor muda de estratégia e começa trabalhar com os que sabem ler e escrever. Em seguida começa a circular na sala e corrigir a escrita dos alunos que escreveram a palavra música sem acento.
O professor muda de disciplina. Continua com a matéria anterior sobre Ciências da Natureza. Deu uma explicação sobre clorofila antes de iniciar, explicando a importância da mesma para a vida da planta e do homem. Explicou pausadamente a matéria. Ao longo das explicações, perguntou se os alunos tinham dúvidas. Eles responderam que não. Os alunos acompanhavam nos livros e os que não tinham ajuntavam-se ao lado dos outros e faziam anotações, conforme as explicações dadas pelo professor. Dando continuidade, o professor foi explicando os demais tópicos do assunto tais como: as condições sobre as quais as plantas produzem clorofila; ciclo de vida duma planta e os tipos de plantas clorofilinas. Em seguida, o professor resolveu colocar um conjunto de plantas conhecidas pelos alunos, entre elas a mangueira, a figueira, abacateiro, a bananeira, explicando a razão de portarem a cor verde nas suas folhas. Pediu aos alunos para escreverem no caderno outras plantas que conhecem e, de acordo com as características estudadas dizer se são ou não clorofilinas. Continuou fazendo perguntas aos alunos e utilizou uma situação prática para ser solucionada como se os alunos fossem a uma floresta e fizessem levantamento sobre as plantas clorofilinas. A segunda proposta foi para que os alunos trouxessem 10 ramos de plantas que conhecessem e que não têm a cor verde. Os alunos mostraram-se preocupados com esta questão, mas o professor tentou tranqüilizá-los e falou com eles que seria importante eles descobrirem, porque poderia ser uma questão a ser dada na prova. Na segunda parte da aula, os alunos fizeram vários comentários relacionando o tema em estudo com a realidade já conhecidas por eles. Diário de observação nº 3. Dia 7 de Setembro de 2015
No segundo dia, o professor começou a aula fazendo correção das avaliações escritas que foram aplicados ao longo da semana. Disse que a revisão é de suma importância. Explicou os objetivos da matéria, falando detalhadamente sobre cada um deles e sobre o que seria estudado. Iniciou com matéria sobre as aves. Explicou algumas características e a classificação. Mostrou uma gravura a partir do livro sobre os diversos tipos de aves e começou a passar em cada carteira para permitir que todos os alunos contemplem a gravura. Pediu aos alunos que tinham livros para abrirem na pagina onde o professor estava a mostrar. Fez um desenho da galinha e disse aos alunos que iriam estudar a galinha, seu modo de vida e suas características. Durante a explicação, ia fazendo perguntas aos alunos para que eles participassem. Pediu aos alunos para consultarem no livro as características da galinha. Foi ouvindo e explicando cada uma delas e dando exemplos. A partir do desenho foi ilustrando a anatomia da galinha relacionando com o conteúdo do livro. Lançou questões práticas para os alunos pensarem e responderem, relacionadas com a modalidade que as galinhas se reproduzem. Em seguida explicou os tipos de reprodução que podemos encontrar nas aves. Foi desenhando os tipos de aves para diferenciar a reprodução de cada uma. Passou os conteúdos no quadro e pediu aos alunos para anotar nos cadernos não apenas os conteúdos, mas também a explicação. No final da aula orientou os alunos para desenharem de forma clara, os órgãos internos da galinha.
Diário de observação nº 4. Dia 10 de Setembro de 2015.
4.2.3. Análise da Pratica Docente
Nas aulas de Matemáticas e Educação Musical diferiram completamente das aulas de Ciências. Enquanto nas duas primeiras, o professor não contextualizou os conteúdos e não deu exemplos, na ultima a sua prática foi bem diferente. Durante a observação da aula de Ciências foi constatada que, o professor Bento utilizou estratégias que permitiram manter ordem e disciplina dos alunos durante a aula e procurou didatizar os conteúdos, utilizando diferentes estratégias no processo de transposição didática.
Bento apresentou uma forma muito organizada de lecionar Ciências da Natureza. No começo escreveu a data no canto do quadro e os itens que seriam trabalhados na aula e os explicava para os alunos. Procurava utilizar explicações claras e detalhadas dos conteúdos dando exemplos e usando desenhos ilustrativos no quadro. Conseguia prender a atenção dos alunos o tempo todo,
usando basicamente a aula expositiva com discussão. É um professor muito seguro no ensino de Ciências, manteve um tom de voz firme com os alunos durante as explicações, diferente do que ocorreu na aula de Matemática. Na aula de Ciências, o professor envolveu os alunos a participarem na aula, aplicou exercícios e orientou os alunos a resolverem nos cadernos e no quadro as questões levantadas. O professor se preocupou também em verificar a escrita dos alunos, foi honesto e transmitiu a honestidade aos alunos quando existiam dificuldades utilizando as seguintes frases: «vamos investigar e amanha vocês e eu traremos a resposta».
Como o professor geralmente utilizava dois ou três tempos para ministrar uma disciplina, para não prejudicar os alunos, deixava entre as disciplinas cinco minutos para os alunos relaxarem. Neste período atendia aos alunos individualmente em sua mesa, conferindo os cálculos e orientando o aluno para as etapas seguintes do exercício. Como pode ser visto a forma de ensinar do professor foi completamente diferente na aula de Ciências, modificando até o tom da sua voz. Nas aulas de Matemática e Educação Musical como já nos referimos, o professor usou um tom de voz monótono, não deu exemplos, não contextualizou os conteúdos trabalhados. Fica claro que o professor tem maior interesse pela Ciência da Natureza. Será que tem pouco domínio da Matemática e da Educação Musical? Será que gosta menos dessas duas disciplinas?
Em sua entrevista o professor afirma que fez sua formação na escola de professores do futuro (EPF). O professor teceu a seguinte opinião sobre a reforma educativa.
[...] Não concordo, sobretudo, com a transição automática. A primeira e a terceira não deveriam ser uma classe de transição automática, porque há crianças que nunca foram à creche. Saem de casa logo direitamente para a primeira série. [...] E a terceira é a mesma coisa também. Na verdade se o aluno sair bem na primeira, segunda e terceira série, alcançará um bom progresso porque é a base. Acho o sistema antigo melhor, porque o aluno já passa de classe com toda a certeza. Agora o sistema da reforma seria bom se existissem condições de acompanhamento e períodos de explicação nos momentos de férias (ENTREVISTA, 2015).
Durante a observação da aula de Ciências da Natureza pude notar um determinado conforto da parte do professor, que se traduz no domínio dos conteúdos dessa área e na liberdade que o professor tem em manifestar seu conhecimento na sala de aula, criando um ambiente interativo entre professor e alunos. Na entrevista o professor disse que, sua formação foi adequada, apesar de mostrar dificuldades para o ensino de Matemática e Educação Musical.
[...] Até aqui ainda não encontrei disciplina que não consiga superar. É mais na Matemática. As dificuldades estão mais na Matemática. A Educação Musical ensino na medida do possível. Tenho mais dificuldade
nas disciplinas que exigem prática (ENTREVISTA, 2015).
Para o professor existem pequenas situações que lhe incomoda principalmente, na disciplina de matemática. Todavia consegue superá-las à medida que vai trabalhando com a mesma.
[...] Quando encontro dificuldade em alguns exercícios de Matemática, neste caso eu procuro uma pessoa que domina mais esse tipo de conhecimento. Se ele não conseguir me explicar, bem eu tento fazer alguma coisa (ENTREVISTA, 2015).
Importa ainda observar que, esse professor não participou de uma formação que trabalhasse esses conteúdos, conforme explicita na sua entrevista.
[...] Bem na reforma eu não passei por uma formação, simplesmente me foi dada uma sala porque eu passei na Escola de Professores do Futuro [...] Eu participei de um seminário no fim do ano, antes do início do novo ano letivo [...] O governo dava pequenos seminário de como poderíamos trabalhar com a reforma educativa, mas não foi em profundidade. Se nós aprofundarmos, veremos que, na reforma educativa o professor é praticamente sobrecarregado. Sobretudo nós que trabalhamos com o ensino primário (ENTREVISTA, 2015).
O professor trabalhou muito mais com a disciplina de Ciências da Natureza e Matemática do que com outras. Na entrevista o professor disse que, a prioridade dada a estas cadeiras está relacionada com o atraso que teve no trimestre passado. Procurou-se também saber do professor se a monodocencia contribui na aprendizagem destes alunos. Em relação a essa questão o professor Bento disse que:
[...] Muitos dos meus colegas professores que lecionam no ensino primário manifestam-se contra a monodocência e é exatamente pelo fato de não haver professores capazes de darem as áreas curriculares de todo o ensino obrigatório das seis classes. Eu diria, que, muitos desses professores, em situação normal, nem sequer deveriam dar aulas. Contudo, como a reforma educativa é um processo em constante aperfeiçoamento, eles vão trabalhando e vão se superando. [...] Para mim, a monodocência ajuda a conhecer melhor os meus alunos, abrindo um espaço para um trabalho conjugado (ENTREVISTA, 2015).
O professor Bento é verdadeiramente um profissional que desenvolve sua atividade passando por cima dos obstáculos. Trabalha em uma escola onde as salas são bem pequenas, sem espaço e pouco arejadas, levando os alunos, muitas vezes, a utilizarem os cadernos para se abanar. A escola não tem água canalizada, nem restaurante, e o salário dos professores é baixo como já foi dito. No entanto, esta situação não influencia a atividade docente do Bento:
[...] Do ponto de vista pedagógico as condições da minha sala não são boas, tem pouca ventilação, é confinada, não tem secretaria, não tenho direito a alimentação, tem bebedouro, mas estragou recentemente, os alunos bebem água na torneira próxima da escola. O meu salário não me dá poder de compra (ENTREVISTA, 2015).
Todavia, pude constatar durante a observação das aulas, a intensidade da atividade do trabalho deste professor. Muitas vezes o professor não vai ao intervalo porque precisa elaborar mais atividades que facilitem a compreensão da matéria. O professor Bento observou ainda:
Já não tenho tempo para outras coisas. Trabalho das 7horas e 30 minutos e termino às 12 horas e 30 minutos. Tenho tarefas e avaliações dos alunos para corrigir. Já fiquei tantas vezes doente na sala de aula. [...] E mesmo não ficando doente na sala, nota-se mesmo que, a saúde não é a mesma. Hoje temos problemas de hipertensão prematura. As nossas salas de aula são superlotadas [...] (ENTREVISTA, 2015).