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6 METODOLOGIA

6.4 Perfil dos alunos e professores

6.4.2 Perfil dos professores

O perfil docente foi elaborado a partir de informações obtidas por meio de entrevista semiestruturada aplicada durante os meses de setembro a dezembro de 2015 a cada um dos professores. Importa recordar os critérios fixados para a participação dos profissionais neste estudo, a saber: i) ser licenciado em Pedagogia; ii) ter, no mínimo, dois anos de experiência na educação intramuros e iii) atuar nas turmas de Ensino Fundamental da EEFM ALAL durante os anos letivos de 2015 e 2016.

As informações obtidas foram transcritas e analisadas com base em três categorias, quais sejam: i) dados pessoais, ii) tempo de magistério e iii) motivações e desafios do trabalho no cárcere.

No que se refere às informações pessoais, destacamos que, dos 10 docentes que compõem a amostra desta pesquisa, 7 pertencem ao sexo feminino e 3 ao masculino, com faixa etária que varia de 32 a 60 anos. Com relação ao estado civil, 5 são casados, 3 são solteiros, 1 é viúva e 1 é divorciada. Acrescentamos ainda que a maioria (7) possui pelo menos um filho, enquanto 3 colaboradores não têm nenhum, conforme sintetiza o quadro adiante.

Quadro 3 – Dados pessoais dos professores

Professor(a) Sexo Idade Estado Civil Filhos

Acácia Feminino 44 anos Casada Sim

Aroeira Feminino 37 anos Solteira Não

Bambu Masculino 49 anos Solteiro Não

Figueira Feminino 36 anos Casada Sim

Ipê Masculino 34 anos Solteiro Não

Juazeiro Masculino 54 anos Casado Sim

Laranjeira Feminino 50 anos Divorciada Sim

Macadâmia Feminino 52 anos Casada Sim

Mangueira Feminino 60 anos Viúva Sim

Pitangueira Feminino 40 anos Casada Sim

Fonte: Pesquisa aplicada (2017).

Com relação ao tempo dedicado ao magistério, 8 informantes afirmaram que trabalham na função de professor há mais de 10 anos, ao passo que 2 colaboradores têm menos de 10 anos na docência. No que se refere ao trabalho intramuros, os números também relevam que os professores já são bastante experientes, pois: 6 profissionais trabalham nas salas de aula da prisão por um período que varia entre 3 a 8 anos e 4 professores têm essa experiência por um período superior a uma década67, conforme sinaliza o quadro a seguir.

Quadro 4 – Tempo de magistério em anos e lotação dos professores

Professor(a) Tempo total de

magistério

Tempo de atuação intramuros

Lotação durante a pesquisa

Acácia 12 anos 8 anos UPIILP

Aroeira 14 anos 14 anos IPF

Bambu 22 anos 18 anos UPIILP

Figueira 8 anos 3 anos CPM

Ipê 5 anos 3 anos IPGSG

Juazeiro 20 anos 4 anos UPIILP

Laranjeira 25 anos 20 anos IPF

Macadâmia 11 anos 7 anos IPF

Mangueira 28 anos 10 anos UPIILP

Pitangueira 10 anos 8 anos IPF

Fonte: Pesquisa aplicada (2017).

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Embora a EEFM ALAL tenha sido criada apenas em 2013, é importante mencionar que as primeiras salas de aula começaram a funcionar dentro dos presídios cearenses no ano de 1986, quando Jovita Alves Feitosa passou a ministrar aulas para mulheres presidiárias (SOARES; VIANA, 2016).

Os professores mais experientes na educação em prisões acabam por tornar-se fonte de apoio aos que estão se iniciando nesse campo de atuação, pois oferecem informações valiosas sobre a cultura da escola e a cultura prisional, sobre a organização do tempo, sobre o perfil dos alunos, sobre como lidar diante de situações inusitadas, dentre outros. Estamos de acordo com Vieira (2008, p. 54), quando diz que “[...] o tempo de trabalho em uma mesma organização oportuniza ao profissional um aprendizado sobre ela, e esse aprendizado influencia em seus modos de agir e em sua prática cotidiana”. Desse modo, ao longo da carreira, os profissionais vão adquirindo saberes que os auxiliam no enfrentamento das situações adversas no ambiente de trabalho, como é possível verificar nos depoimentos que seguem.

Dessa maneira:

Eu praticamente vi nascer a educação nas prisões. Apesar de termos progredido bastante nessa área, eu diria que as mudanças ocorreram de modo muito vagaroso. [...] Hoje nós temos mais visibilidade. Ninguém pode dizer que nunca ouviu falar sobre isso. Pode ser que a pessoa não saiba nada muito detalhado sobre a educação em prisões, mas todo mundo, em algum momento, já ouviu falar que preso estuda. De certo modo, isso é importante para quebrar certos estigmas sociais. [...] Então, quando um professor novato chega, geralmente, ele já buscou algumas informações na internet sobre a escola. Então, ele já vem com a cabeça mais aberta para entender como tudo funciona. Ele já vem mais consciente do papel dele na formação dessas pessoas. É sempre bom que a gente que tem mais experiência fique ali pertinho, orientando sempre que necessário, pois isso evita muitos problemas futuros. (Bambu, 18 anos na educação em prisões, UPIILP. Entrevista. 16/09/2015).

Nada melhor do que trocar experiências com nossos companheiros. Quando alguém novo chega, acaba nos contagiando com a motivação, com as ideias de novos projetos. É sempre bom destreinar os nossos olhos. E a gente faz isso com a ajuda de alguém que enxerga as coisas de outra maneira. Quando as visões de mundo se complementam, dialogam, todo mundo ganha. [...] Eu não apenas ensino, mas aprendo também. (Mangueira, 10 anos na educação em prisões, UPIILP. Entrevista. 23/09/2015).

O preso é privado não só de liberdade, mas de muitas coisas essenciais para se viver dignamente. Ele aprende a malandragem da cadeia para sobreviver. Quando ele vê um professor novato, que ainda não internalizou bem as regras da casa, ele começa a pedir tudo que vê: caneta, papel, garrafinha de água, pincel. Às vezes, eles pedem não só para o uso pessoal, mas para pagar dívida lá embaixo [nas celas]. Eu sempre fico atenta a isso. Aviso: — Olha, por mais inofensivo que pareça ser, não dê nada aos alunos sem autorização da direção do presídio. [...] Só para citar um exemplo: um dia, o professor deu revistas para eles levarem para cela. Na outra aula, eles pediram mais. O professor deu de novo, afinal, achava que eles estavam lendo mesmo. Quando a gente menos espera, veio a reclamação de que eles estavam fazendo um buraco na parede e tapavam com a revista bem amassadinha para disfarçar as brechas. (Acácia, 8 anos na educação em prisões, UPIILP. Entrevista. 23/09/2015).

Com relação aos motivos que levaram os professores a procurarem ou permanecerem na prisão como espaço de trabalho, foram citados os seguintes pontos: o desejo de desenvolver um trabalho com forte impacto social; a valorização do trabalho docente por

parte dos alunos; o baixo quantitativo de alunos por sala, conforme veremos nos excertos destacados a seguir.

Eu nunca tinha pensado em trabalhar na prisão até que um dia eu estava na Crede68 esperando me convocarem para trabalhar numa escola estadual regular, aí apareceu uma coordenadora falando que tinha vaga para a escola prisional. Ela fez uma apresentação tão sensível da escola que, ali mesmo, eu fui conquistada. Cheguei em casa eufórica e fui conversar com meu marido para ver se ele me apoiava. Ele me apoiou, apesar de ser militar. Voltei à Crede no outro dia e disse que queria trabalhar lá. [...] Desde ali, nasceu dentro de mim um enorme desejo de contribuir com a mudança dessas pessoas. Eu me identifico com proposta político-pedagógica da escola. Saio de casa, todos os dias, extremamente motivada a ser a melhor professora que eu consigo ser. [...] Eu sentia que havia uma lacuna de ordem profissional na minha vida. Com o trabalho nas prisões, essa lacuna sumiu. Eu gosto de ler, de estudar, de escrever sobre esse tema. [...] Não vou dizer que é fácil trabalhar nas cadeias, mas é uma experiência muito gratificante e engrandecedora. (Figueira, 3 anos na educação em prisões, CPM. Entrevista. 14/10/2015).

Eu trabalho na educação em prisões desde que eu tenho 23 anos. Foi a minha primeira e única experiência profissional. O principal motivo que me faz querer permanecer aqui é o valor que as alunas dão às professoras. Minha mãe é professora e eu vejo como são as escolas lá fora [nas escolas extramuros]: há um desrespeito generalizado pela figura do professor: já vi até casos de agressão. Aqui é completamente diferente. É verdade que nós não recebemos um salário digno, mas a nossa maior gratificação vem do carinho das alunas, do respeito com que elas nos tratam. Esse respeito mútuo abre possibilidades para o diálogo. Elas passam a depositar em nós toda a confiança que perderam ao longo da vida, falam sobre os sonhos, medos, histórias de vida. [...] Esse vínculo que se cria é um vínculo profissional, mas que não deixa de ser afetivo. (Aroeira, 14 anos na educação em prisões, IPF. Entrevista. 21/10/2015).

O lado positivo de ser professora aqui é o número de alunos por sala. Nas escolas convencionais, a gente tem que dar aula para quarenta ou cinquenta alunos. Aqui as turmas são compostas por, no máximo, 25 alunos. Isso faz com que a aula seja mais proveitosa, pois a gente consegue dar espaço para todos participarem de modo bem efetivo. O nosso desgaste físico acaba sendo menor também. Apesar disso, não posso deixar de mencionar que o desgaste emocional acaba sendo um pouco maior porque a gente tem que lidar ora com a depressão, ora com a euforia das alunas. Há uma instabilidade emocional muito grande que acaba contagiando a gente também. (Macadâmia, 7 anos na educação em prisões, IPF. Entrevista. 09/12/2015).

É nítida a sobrecarga emocional a qual está exposto o professor que atua no espaço da prisão. Entretanto, nem a sua formação inicial, nem os espaços de socialização que percorreu o prepararam para tal atividade, nem ao menos indícios das especificidades da prática docente no cárcere lhe foram apresentados (VIEIRA, 2008). Todos foram unânimes ao afirmar que a formação inicial não forneceu subsídios suficientes para a realização das atividades nesse espaço diferenciado, segundo demonstra os depoimentos adiante.

A nossa formação inicial é muito precária. Ninguém sai preparado para ser professor. Há uma tendência à preparação para a pesquisa e não para a docência. Pior que isso, é nunca sequer ter ouvido falar em educação em prisões na

universidade. [...] Então, a gente chega à sala de aula da prisão completamente desnorteado. No ato da nossa contratação, são repassadas informações gerais sobre o sistema prisional, mas essas informações são insuficientes para a prática do dia a dia. (Ipê, 3 anos de educação em prisões, IPGSG. Entrevista. 21/10/2015).

Eu acho que deveria haver mais investimento na nossa formação. A graduação não dá conta das especificidades da educação em prisões. A disciplina que eu fiz sobre a Educação de Jovens e Adultos era opcional e não tratou em nada sobre o aluno preso. Eu acho que a prática ensina muito, mas não o suficiente. Penso que o melhor seria que a teoria subsidiasse a nossa prática cotidiana. Só assim a gente faria as coisas com mais segurança e não com base em achismos. Eu sei que a iniciativa de aprender depende muito da gente, mas penso que a Secretaria da Educação deveria oferecer sistematicamente uma formação continuada. (Juazeiro, 4 anos na educação em prisões, UPIILP. Entrevista. 18/11/2015).

As informações compartilhadas pelos docentes corroboram os dados de pesquisas anteriores, que apontam que os profissionais de ensino que atuam nas prisões sentem que os saberes oriundos da formação inicial não são suficientes para garantir a qualidade na realização de suas atividades na escola intramuros, devido às especificidades que essa prática demanda (ANDRIOLA, 2013; LEME, 2002; ONOFRE, 2016; VIEIRA, 2008).

A questão salarial foi citada por um dos professores como fator desmotivador para à docência em prisões, conforme sinaliza o trecho a seguir:

Há uma luta contraditoriamente silenciosa pela valorização do professor que trabalha nos presídios. Quando eu cheguei aqui, há 8 anos, já havia essa promessa de uma possível gratificação extra devido à periculosidade e insalubridade. Na verdade, eu acho que nem poderia dizer que há uma luta. Na verdade, há uma grande insatisfação. Nós somos professores temporários e não podemos reivindicar por muitas coisas, sob pena de termos o nosso contrato cancelado. Nesses anos todos, nós nunca paralisamos nossas atividades. Faça chuva, faça sol, nós estamos lá, firmes. Mesmo com ameaças de rebeliões, mesmo com morte na cela ao lado, nós estamos lá. Então eu vejo a nossa profissão como uma profissão extremamente desvalorizada. Eu costumo dizer que, para o governo, nós valemos bem menos que o preso. (Pitangueira, 8 anos na educação em prisões, IPF. Entrevista. 09/12/2015).

Sobre esse assunto, importa mencionar que todos os professores que atuam nas prisões do estado do Ceará possuem vínculo temporário69 e não percebem nenhuma gratificação adicional no salário por atuarem no cárcere. É relevante destacar que qualquer professor efetivo da rede estadual de ensino pode reivindicar uma lotação na escola de educação em prisões. Até dezembro de 2017, apenas dois professores efetivos trabalharam na escola, por um período inferior a três meses. Ambos desistiram por falta de identificação com a educação no contexto prisional.

A reivindicação da professora é amparada no art. 11, parágrafo 1º, da Resolução nº 2, de 19 de maio de 2010 que institui as Diretrizes Nacionais para a oferta de Educação

69 Vínculo temporário significa que o professor é contratado por tempo determinado em edital, não possuindo, desse modo, estabilidade funcional.

para Jovens e Adultos nos estabelecimentos penais: “[...] os docentes que atuam nos espaços

penais deverão ser profissionais do magistério devidamente habilitados e com remuneração condizente com as especificidades” (BRASIL, 2010b, grifo nosso). Ademais, a CF, em seu artigo 7º, inciso XXIII, assegura aos trabalhadores “[...] adicional de remuneração para as atividades penosas, insalubres ou perigosas, na forma da lei” (BRASIL, 1988).

Finalmente, trazemos à baila o depoimento da professora com maior tempo de atuação nas salas de aulas das prisões da RMF e que é uma das colaboradoras de nossa pesquisa. Nas suas palavras:

Apesar de eu já estar nas prisões há muito tempo, eu sempre vejo que ainda tenho muito a aprender. Afinal, o aluno que atendo hoje não é mais o que eu atendi há dez anos atrás. O perfil do preso mudou muito. Infelizmente, a cadeia mudou para pior. A escola precisa mudar junto e mudar para melhor, rápido, urgente. Nós não podemos mais esperar décadas para darmos um passo rumo à melhoria efetiva do sistema educacional nas prisões. Se esperarmos mais tempo, pode ser que seja tarde demais. [...] É necessário que haja um investimento significativo de verba na educação em prisões. Achar que o professor pode revolucionar a Educação e transformar pessoas apenas com um uma lousa e um pincel na mão não é ingenuidade, mas maldade pura. Atualmente, nós temos presídios que atendem a 2 mil presos e que só possuem três salas de aula. Parece que a educação nas prisões existe apenas para driblar uma lei maior. [...] Eu penso que está na hora de declararmos a falência desse tipo de prisão, que só pune e maltrata o preso. Está na hora de cuidarmos dessas pessoas para que elas possam ter uma chance mínima de saírem melhores do que entraram. Quem ganha com isso não é só o preso, mas a sociedade toda. [...] Eu conheço a realidade. Sei que eles não são santos, sei que erraram, mataram, estupraram... sei inclusive que alguns repetiriam seus erros sem um pingo de remorso. Mas eles já foram condenados. Julgá-los não é mais uma tarefa minha. Educação de qualidade é um direito e ponto final. (Laranjeira, 20 anos de educação em prisões, IPF. Entrevista. 04/11/2015).

Cedo ou tarde, os presos retornarão à sociedade. Como eles estarão? Por quais experiências terão passado? Quais serão seus sonhos e objetivos? Como atuarão no mundo? Esses questionamentos dizem muito mais a respeito de cada um de nós do que supõe a vã filosofia da punição (SOUSA, 2004).

É inútil cruzar os braços, com ares de quem sofre e nada pode fazer. Como enfatiza Paulo Freire (2011, p. 82), “[...] onde há mulheres e homens há sempre o que fazer”. Não podemos, de modo algum, deixarmos de agir em prol da humanização das pessoas privadas de liberdade e da conscientização da sociedade para a necessidade de investirmos esforços na melhoria das políticas públicas voltadas ao público em questão. O sonho e a esperança se fazem necessários, indispensáveis à força recriadora do mundo. Sonhar e ter esperança consistem apenas no primeiro passo. É mister juntar a eles a luta política, a ação consciente, em benefício das transformações que vislumbramos.

Nesse sentido, é fundamental que os sujeitos que atuam nas unidades prisionais continuem a se questionar sobre a maneira como a Educação pode contribuir para modificar a prisão, o encarcerado e a sociedade. Nenhum homem preso nasceu criminoso ou imune à mudança. Nenhuma realidade é inalterável.

Não é mais possível ignorar o que ocorre dentro dos presídios. Há uma necessidade premente de investirmos esforços numa Educação solidária, dialógica e libertadora. Uma Educação que acompanhe o ser humano em todos os momentos, isto é, uma Educação que transcenda as grades das salas de aula. É necessário, portanto, unirmos esforços, integrarmos ações, construirmos e efetivarmos um projeto político-pedagógico para as prisões com o objetivo de promover uma Educação que contribua efetivamente para a restauração da autoestima e para a reintegração posterior do indivíduo à sociedade, bem como para a finalidade básica da Educação nacional: realização pessoal, exercício da cidadania e preparação para o trabalho (ONOFRE, 2011; SILVA, 2006; SOUSA, 2004).