Capítulo 2 – O ensino do Português como LE e o perfil das gerações Alpha e Z
2.5 Perfil e expetativas dos aprendentes: impacto das imagens
38 picture a wide range view? What if the lens were narrowed or expanded? How would that affect the message? (Newman & Ogle, 2019, p.xiii).
Tendo em conta as potencialidades e finalidades da imagem, em particular da imagem fotográfica, parece-me pertinente trazê-la para as aulas de línguas estrangeiras, pois é graças ao seu rico repertório cultural, emocional e sínico, que a imagem fotográfica pode estimular o espírito crítico dos aprendentes.
39 surgimento do controle remoto, que permitia o zapping, algo realmente agradável para a nossa mente que não é linear, mas pensa por saltos e conexões, e vai e volta ao mesmo tema, divaga.
Assim, o mundo torna-se uma aldeia universal em tempo real, ao vivo, trazendo a ideia de um pequeno povoamento a que habitualmente designamos de “aldeia global”. As pessoas assistem “em direto” a tudo o que se passa no mundo, envolvendo-se em protestos pacifistas; na luta contra a injustiça; na emancipação feminina; no direito das crianças e dos animais. Para esta geração , a reconstrução do mundo é uma prioridade; o trabalho e o sucesso profissionais são objetivos de vida (Patela, 2016, p.7).
A geração seguinte, denominada por Howe & Strauss (2000), como a geração X tem vários pontos em comum com a geração anterior e com a geração seguinte (Geração Y), uma vez que se situa no meio de uma transição social, num período em que decorre o declínio do imperialismo colonial, a queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria. É a geração do movimento hippie, da revolução sexual e do surgimento do computador.
Esta é a geração do computador, das facilidades, da globalização. A maioria destes jovens são filhos da Geração X e netos dos Babyboomers, sendo considerados por alguns babyboomers e elementos da Geração X como Geração Rasca. Muitos deles acreditam numa carreira de sucesso e na educação formal, para se tornarem ousados, almejando qualidade de vida e investindo num mercado de trabalho competitivo.
Na viragem do milénio, assiste-se a uma evolução das tecnologias digitais e a uma crescente interação e comunicação em ambientes virtuais e nas redes sociais de tal modo alucinante, que a tecnologia se imiscui completamente no quotidiano. A terceira Vaga de Toffler, também designada de “Era da Informação”, de “Era Digital” ou de “Era tecnológica” rapidamente se desdobra na Quarta Vaga relacionada com biologia, biotecnologia, informação, sustentabilidade e meio ambiente. Agora, na Quarta Revolução Industrial, tecnologias como Cloud Computing, redes sociais, mobilidade, Internet das Coisas (IoT) e Inteligência Artificial (IA) firmam o milénio. A proliferação de imagens ocorre a um ritmo de tal modo vertiginoso, que hoje as atuais gerações Alpha e Z vivem imersas no visual.
A Geração Z é a terminologia que os sociólogos atribuem à geração seguinte, aos que nasceram entre meados dos anos 90 do século passado e a primeira década do século XXI.
Esta geração, também chamada de GenZ ou iGen surge num período em que se assiste à
40 eclosão dos aparelhos tecnológicos e à criação da World Wide Web. De acordo com Neto (2010, p. 14), ‘Esta geração Z é composta por indivíduos que nasceram a partir de 1993 (...) e os indivíduos a ela pertencentes (...) são aqueles do mundo virtual: internet, videogames, baixar filmes e músicas da internet, redes sociais, etc. (…)”.
Palfrey & Gasser (2008) chamam a esta geração, a geração dos nativos digitais (digital natives), a geração obcecada com as novas tecnologias: “They all have acess to networked digital technologies. And they have skills to use those technologies” (Palfrey
& Gasser, 2008, p. 1). É a geração virtual que desconhece o mundo sem Google, Iphone, Wi-fi. Estas pessoas navegam 24 horas por dia na Internet, pois estão constantemente em modo texting, mesmo quando estão offline: “Digital Natives lives much of their lives online, without distinguishing between the online and the offline” (Palfrey & Gasser, 2008, p4). De fato, eles usam todo o tipo de software com destreza como se tivessem um chip inserido no cérebro. Só pensam em favorecer as suas stories no Instagram, no Facebook e Twitter e usam Snapchat, WhatsApp e Messenger. A maioria dessas publicações são fotografias ou vídeos que tiram a si próprios, à sua família e aos seus amigos. Eles não pensam na sua identidade pessoal e na sua identidade digital como algo separado: ambas fazem parte da sua identidade. Aliás, são indivíduos que adotam práticas comuns, uma vez que se expressam e se relacionam uns com os outros através das tecnologias digitais. Eles estão, pois, conectados uns com os outros por meio de uma cultura comum. Nas palavras de Palfrey & Gasser (2008) os nativos digitais “Instead of thinking of their digital identity and their real-space identity as separate things, they just have an identity (…) ” (Palfrey & Gasser, 2008, p.4).
Esta geração tem a capacidade de selecionar a informação, recriar maneiras novas e interessantes de ser e de estar: “(…) they have come to have a degree of control over their cultural environment that is unprecedented” (Palfrey & Gasser, 2008, p.6). Na verdade, a criatividade é uma das suas características mais admiráveis, uma vez que são capazes de criar um avatar no mundo virtual, engendrado, assim, mundos paralelos nos sites como Second Life. É também um grupo suficientemente expressivo para despertar o interesse dos departamentos de marketing e agências publicitárias, pois lidam de forma muito eficiente com o mágico botão do like, presente em boa parte das redes sociais (self-defining endorsement). Esta é, pois, a geração do touchscreen, que faz constantemente zapping nos canais de televisão, na internet, nos videojogos, no telefone e no MP4. Uma outra característica é a de efemeridade: a rapidez com que os avanços tecnológicos se
41 apresentam atualmente acabam por condicionar os jovens a deixar de dar valor aos objetos rapidamente. Um telemóvel, um videojogo ou um computador tornam-se objetos obsoletos para eles.
A atuação destes jovens na vida política e social pode tornar-se deveras preocupante, visto que têm ao seu dispor uma enorme quantidade de itens tecnológicos e de informações supérfluas, que acabam por distrair as suas mentes e afastá-los da vida política, familiar e social. No entanto, também é possível vermos jovens a interessar-se pelo mundo que os rodeia e a intervir em causas com elevado valor social. Eles estão rodeados de petições online e de denúncias de violação dos direitos humanos, que circulam nas redes sociais e são rapidamente partilhadas. Lembremos o vídeo do jovem vendedor ambulante tunisiano Mohamed Buazzi que se imolou, incendiando o próprio corpo, em Dezembro de 2010, quando foi proibido de trabalhar, e que desencadeou logo depois a chamada ‘Primavera Árabe’. Pensemos na jovem Greta Thunberg, cujas preocupações ambientais se tornaram virais à escala planetária. A respeito da geração Z, a professora Helena Martins (2019) menciona que “Estes jovens acreditam que têm de ser eles a fazer mudanças que querem ver no mundo e estão orientados para criar soluções e agir sobre as coisas que os preocupam, são fazedores e estão orientado para objetivos e missões concretas” (Martins, 2019, p.4).
Contudo, nenhuma geração até agora se compara à geração Alpha. A geração Alpha, que é formada pelos filhos da Geração Y e pelos da Geração Z, é a primeira geração para a qual muitos aspetos do mundo analógico parecem bem distantes da sua realidade. Ela aparece a partir de 2010 até aos nossos dias. Apesar das suas características ainda não estarem bem definidas, temos a certeza de que eles querem inventar, interagir e se conectar sempre. Muito se fala sobre eles serem a geração mais inteligente de todas.
Talvez, esta perceção se deva ao fato de serem crianças absolutamente criativas, atentas e observadoras num ambiente onde os estímulos visuais, sonoros e interativos são constantes. Creio que esta aceleração no desenvolvimento de certas habilidades pode, por um lado, ajudá-las a fazer mais de uma tarefa ao mesmo tempo e estabelecer conexões entre diferentes assuntos, mas, por outro lado, pode prejudicá-las noutras capacidades, como a concentração e a paciência.
A propósito destas gerações, Elydio dos Santos Neto (2010) refere que “Alguns desses alunos são incrivelmente inteligentes e, apesar de uma grande dificuldade, quase incapacidade, para se expressarem em linguagem escrita, podem criar coisas fabulosas
42 usando música, imagem, desenho; enfim, linguagem multimídia” (Neto, 2010, p.14). É comum que indivíduos destas gerações nunca tenham lido um livro na vida, o que, infelizmente, tem trazido sérias preocupações aos seus pais e aos seus professores. A maior parte destes jovens revela falta de expressividade na comunicação verbal, dificuldade em ouvir proativamente o outro e falta de concentração e motivação nas aulas.
O fato é que estas crianças e jovens estão a tornar-se em adultos egoístas, fantasiosos e, até, alienados. Neto alerta que “O mais gritante é o da aceleração dos processos tecnológicos em todos os campos e a dificuldade para selecionar informação útil, adequada e significativa, num oceano ilimitado de fluxos informacionais diários” (Neto, 2010, pp. 14-15).
Estes jovens precisam apenas de aprender a selecionar, a hierarquizar, a distinguir fato de opinião, a separar o principal do secundário e a desenvolver uma perspetiva crítica de informação (Patela, 2016, p.13). Apesar da Wikipédia ser uma ferramenta útil para adquirir certos conhecimentos, nem sempre tem conteúdos autênticos, com qualidade e veracidade. Por isso, torna-se premente desenvolver uma alfabetização digital (digital literacy41). Tal como Palfrey & Gasser (2008) advertem, estes jovens devem ter muito cuidado com os perigos que a Internet oferece gratuitamente, tais como: o acesso facilitado a sites de pornografia e de cyberbulling; a prática diária de pirataria informática e a publicação exacerbada das fotografias nas redes digitais; a entrada sugestiva em chat e o vício em jogos online (Palfrey & Gasser, 2008, pp.111-131).
Efetivamente, a falta de segurança e privacidade é um dos problemas mais gritantes para pais e professores, que vivem constantemente preocupados com eles, pois expõem as suas vidas de uma forma totalmente desprotegida e irresponsável. As excessivas publicações de fotografias, que ficam retidas para sempre nas redes sociais, revelam precisamente a vulnerabilidade a que estas gerações estão sujeitas, uma vez que, a um clique, anto podem estar a falar com amigos e familiares nas redes sociais, como podem marcar encontros com perfeitos desconhecidos, que podem ser verdadeiros predadores sexuais.
Com efeito, as gerações Alpha e Z são cada vez mais livres e versáteis, com atitudes e opiniões muito diferentes das gerações anteriores; por isso, mais do que nunca,
torna-41 Palfrey & Gasser (2008) defendem a necessidade de uma alfabetização digital (digital literacy), isto é, a capacidade de utilizarem corretamente as inovações tecnológicas.
43 se imperativo acompanhar este “novo” público escolar e; refletir sobre as potencialidades e as fragilidades desta rede na qual nos organizamos atualmente. Saber lidar com o público estrangeiro vasto e heterogéneo; selecionar corretamente os materiais didáticos;
criar metodologias mais adequadas e eficazes é, de fato, um dos grandes desafios para o ensino de línguas estrangeiras do século XXI.
Apesar da diversidade metodológica e das disciplinas que caracterizam o objeto
“imagem”, tem sido na área dos Estudos de Cultura Visual, anteriormente referida, que a importância das imagens tem merecido maior e mais recente atenção. De acordo com Gillian Rose (2016), método de análise visual deve ter em consideração o contexto social dos objetos visuais que se estuda. Nesta perspetiva, a autora considera que o significado de uma imagem deriva da sua produção da imagem (production), onde a imagem é produzida da imagem (image) em si, o seu conteúdo visual; da circulação (circulation), onde a imagem é disseminada e por quem é rececionada (audience). Ela sugere que se fundamente uma interpretação crítica de uma imagem em três aspetos: tecnologia, a composição e conteúdo social. Segundo a autora, a tecnologia visual refere-se à materialidade da imagem, mas também à forma como circula e como é difundida. Por sua vez, a composição refere-se aos aspetos simbólicos e formais de uma imagem como cor e organização espacial (distribuição dos elementos visuais e como estes se relacionam entre si). A modalidade social tem a ver com o leque de relações económicas, sociais e políticas, instituições e práticas, que rodeiam uma imagem, e através dos quais é vista e usada (Rose, 2016, pp.24-25). Assim, os debates teóricos e metodológicos sobre como interpretar as imagens, podem ser compreendidos como debates sobre as teorias críticas mais apropriadas à compreensão de uma imagem. Segundo Gillian Rose, os objetos visuais a serem interpretados determinam, pois, a escolha do método mais adequado.
No quarto capítulo, debruçar-me-ei em estudos sobre multimodalidade e literacia visual com vista à identificação de significados (representacionais, interativos, composicionais) de imagens utilizadas em manuais de PLE. A minha análise basear-se-á sobretudo no método composicional.
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