CAPÍTULO IV – O CURRICULO DO EDUCADOR DE CRIANÇAS: UMA
4.2. PERFIL PROFISSIONAL
O perfil do profissional não se define apenas por uma lista de competências que o sujeito poderá desempenhar após passar pela formação inicial; acima de tudo, ele se define por toda uma concepção de formação que caracteriza um curso desde o seu começo até a sua conclusão, ou melhor, quando da criação e implementação até as orientações pós-conclusão. Principalmente quando o curso é pensado como processo que não se consubstancia num período limitado de tempo, tampouco no cursar um número determinado de disciplinas, mas quando este, se torna na vida dos sujeitos, ferramenta capaz de instrumentalizá-lo para uma ação coesa e, apontando a incompletude da sua formação, aponta saídas, como a formação continuada ou em serviço, ou orientando para níveis mais elevados de formação.
Desta forma, o profissional formado não será aquele que tem as respostas prontas ou que se sente pronto e acabado, tornando sua formação motivo de arrogância e de desprezo para com aqueles que ainda não galgaram tal patamar. Segundo o documento do Curso de Formação de Professores, o profissional deverá passar por transformações significativas e
Sair da situação de alienação, acomodação e heteronomia exige esforço e risco; é preciso pensar, tomar decisões, assumir conseqüências e responsabilidades. Esta também é uma questão ética e compromisso do professor. De acordo com Freire (1997, p. 19), “não podemos nos assumir como sujeitos da procura da decisão da ruptura, da opção, como sujeitos históricos, transformadores, a não ser assumindo-nos como sujeitos éticos” (UESB, 2006).
Nestes termos, a proposta termina por indicar o sentido que dará na formação do perfil deste profissional, ou seja, pretende instrumentalizá-lo para o exercício da cidadania e para a prática social transformadora. Entretanto, deixa transparecer, nas entrelinhas, que concebe o docente em formação como ainda desprovido de autonomia e de criticidade. Esta postura termina por afirmar que a teoria iluminando aqueles que já exercem a função, os fará sair do estado de alienação e acomodação para exercer dignamente sua autonomia.
Conforme analisei no capítulo anterior, essas são questões bastante complexas e não há como garantir de forma rigorosa num perfil, que um curso formará desta ou daquela maneira e que seus profissionais terão este ou aquele perfil, no entanto essa formação não pode furtar-se da responsabilidade de dar conta dos requisitos mínimos implícito a própria realidade inerente a formação, pois como bem lembra o documento mais adiante: “a formação do professor é, pois, uma questão complexa porque envolve não só o período acadêmico, mas toda a vida profissional. No entanto, a formação acadêmica deverá dar conta do conjunto de questões que envolvem a atividade docente” (UESB, 2006, p. 10). Existem profissionais que já dominam muitas das competências a serem trabalhadas no curso e, portanto, utilizarão este saber como saber subsunçor capaz de oferecer- lhes lastro para construção de novos conhecimentos. No entanto, outros concluirão o curso e só mais tarde é que perceberão as relações do exercício profissional com saberes oriundos de sua própria formação. Isso se dá porque a rede de referências não acontece de maneira linear ou de forma automática, mas pelo fato de constantemente estarem sendo abertas janelas de conhecimentos que, mesmo tendo sido experenciados em outro momento, neste momento ganham novo significado, nova coloração e, amparados pelos novos saberes que se constroem, é possível haver nova compreensão ou mesmo construir um novo conhecimento.
Este documento afirma também que a formação acadêmica deve dar conta do conjunto de questões (saberes) que envolvem a ação docente e especifica que o professor, no seu processo de formação, deve desenvolver a capacidade de gerir as
transformações junto a outras questões, demonstrando uma visão política de totalidade no entendimento da complexa relação escola/sociedade, ressaltando a centralidade do outro e o distinguindo do sujeito epistêmico e do sujeito psicológico, chamando a atenção para formação dos sujeitos humanos, sociais e culturais.
Finalizo a análise deste item destacando uma das questões que considero interessantes na definição deste perfil: o documento não se limitou em nenhum momento a apresentar uma relação de competências como se essas por si só já definissem o profissional que seria formado, porém, à medida que discorre sobre as competências, indica as possibilidades de atuação profissional e finaliza a definição do perfil da seguinte maneira:
O perfil do profissional a ser formado é um profissional da educação possuidor de competências e habilidades básicas, cuja formação possa “contribuir para a intervenção social na construção da cidadania” (KUENZER, 1999). Um profissional crítico reflexivo que utilize os elementos da sua prática como fonte de reflexão e busca de soluções alimentando, assim, continuamente a produção de novos conhecimentos(UESB, 2006). Assim como no projeto anterior, o projeto do curso de Pedagogia não apresenta o perfil profissional de forma direta e, por sinal, não há um item específico que aponte o perfil do profissional que será formado nesse curso. Porém, ao verificar o teor da proposta, nos itens: “A natureza do Curso” e “Objetivos do Curso de Pedagogia”, esta categoria aparece de maneira bem definida, não de forma pontual, porém contextualizada.
Ao falar das funções do profissional formado nesse curso, o projeto apresenta a seguinte redação:
Assim é que, aqui, se propõe como alternativa para constituição desses cidadãos, a formação, a nível de graduação, de profissionais de educação para:
Séries iniciais do 1º grau;
Atuar na área de educação pré-escolar; educação especial; educação de adultos e educação rural;
Professor das matérias pedagógicas do magistério e das quatro primeiras séries do 1º grau; e
Pedagogo (especialista em supervisão, gestão escolar e orientação educacional) (UESB, 1997).
Observa-se que a habilitação básica da formação docente constitui-se principalmente na área de ensino, com grande ênfase na docência. Pauta-se numa retórica generalista de formação a fim de contemplar outros campos do saber e ao
mesmo tempo propor a formação do cidadão crítico capaz de realizar a leitura da realidade sócio-educacional com rigor e posicionar-se frente a ela.
No afã de ampliar o leque de possibilidades da atuação do profissional, a proposta curricular (UESB, 1997) aponta ainda as possibilidades dessa formação de acordo com o Guia do Estudante 92- 93 (ABRIL 154), como, por exemplo, atuação nos seguintes campos: setores de desenvolvimento e treinamento de recursos humanos em empresas, sindicatos urbanos e rurais, em grupos comunitários, em clínicas especializadas na educação de excepcionais, e em outros organismos, que contam com o apoio e a colaboração desses profissionais da educação, ressaltando ainda os novos espaços como: informática, saúde e meio ambiente (UESB, 1997).
Numa demonstração de poder, o currículo é apresentado como capaz de oferecer uma hiperformação, tornando-se um currículo que forma para quase tudo. No entanto, observei que, nas entrelinhas, estão previstas possibilidades de atuação e não especificidades de atuação, além do mais, essa formação também é anunciada como generalista. Ao fazer uma análise mais detalhada da proposta pude observar o quanto há de generalizações no que diz respeito à formação profissional.
Verifiquei, também, que há certa distância entre os perfis profissionais construídos nas duas propostas, porém em suas singularidade ambas se propõem a formar o cidadão, sujeito crítico e participativo, capaz de realizar as transformações necessárias tanto na sociedade como na educação.
Apesar de a educação infantil aparecer como objeto da formação, figura apenas como mais um item decorativo, pois existe pouca reflexão sobre essa etapa de ensino.