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4.3 Procedimentos de coleta e tratamento dos dados

4.3.5 Perfis das escolas

Estivemos em duas escolas públicas, da Rede Estadual de Pernambuco, pertencentes à Gerência Regional de Educação, Metropolitana Norte, localizadas na cidade de Paulista-PE. Optamos por usar um nome fictício, para nos referirmos a essas escolas em que as professoras participantes da pesquisa atuavam, para salvaguardar o sigilo quanto aos nomes reais dos espaços escolares. Assim, para a escola em que a Professora A lecionava chamaremos de Escola 1, localizada na zona urbana de Paulista. Referiremo-nos ao espaço de trabalho da Professora S como Escola 2, localizada na zona rural do município citado, considerada de difícil acesso.

Dialogaremos, no processo de caracterização desses espaços escolares, com os dados das entrevistas realizadas com as Professoras A e S, e com as informações oriundas da Gestão da Escola, contemplando os seguintes aspectos: estrutura física, recursos materiais, recursos humanos, documentos da escola, dinâmica de funcionamento.

Ao ser questionada sobre possíveis impactos entre a organização estrutural e pedagógica da Escola 1 e sua prática pedagógica, a Professora A afirmou que, de maneira geral, a configuração da escola, nessas duas dimensões, interferiu em sua prática. Segundo ela, essa organização

impacta, porque...assim... graças a Deus, aqui a nossa escola tem um mínimo de estrutura, a gente tem livro didático, a gente tem material áudio-visual que... assim... que ajuda muito, né... a gente tem um grupo que gosta muito de conversar, de trocar ideia... assim... a gente é muito ouvido aqui na escola... então... assim... a gente tem voz... então, eu acho que ajuda, você sente prazer naquilo ali, e você sente que você é cobrado também pela direção pra sempre tá melhorando, melhorando... pra ver se os meninos desenvolvem mais o letramento, em geral, então, eu acho que impacta sim positivamente (PROFESSORA A).

Nesse sentido, quanto à estrutura física, a Escola A funciona há 36 anos no mesmo prédio e dispõe de 22 dependências em uso, como: 01 secretaria, 13 salas de aula, 01 sala dos professores, 01 biblioteca, 01 cozinha, 01 refeitório, 05 sanitários, 01 quadra de esportes e 01 área de recreação. Segundo informado pela escola, todos esses espaços estão em condições de uso, havendo revisões regulares no sistema de iluminação e ventilação. Recentemente, recebeu mais uma sala para o funcionamento do Programa Mais Educação, no contra turno.

Ainda sobre esse primeiro aspecto infraestrtural e pedagógico, a Professora S também afirmou que tal questão impactava em sua prática de sala de aula, porém de maneira negativa. Segundo ela, a Escola 2 passava, naquele momento, por um processo de intervenção, em função de irregularidades identificadas na Gestão, ocasionando na substituição pro tempore da gestora, na suspensão das verbas oriundas do Governo Estadual, o que tornava o espaço escolar significativamente insalubre, como podemos confirmar na fala da Professora S abaixo:

A organização estrutural, na ocasião era péssima. A escola tava passando por um processo de intervenção...pra não chegar a isso... um professor de matemática assumiu... a diretora... ela foi afastada...né... [...] Então, todas as verbas da escola foram cortadas. A escola não recebia verbas. A gente só tinha piloto pra escrever, porque o diretor comprava do bolso dele, colocava no pendura... e os fornecedores também ainda acreditavam que ia mudar, porque sabia que era uma verba que, quando as coisas se regularizassem, teria, mas só Deus sabia quando. Então, assim, estruturalmente, a escola estava horrível [...] (PROFESSORA S).

Além disso, a Professora S destaca a má qualidade do trabalho realizado pela empresa terceirizada, responsável pela limpeza da Escola 2, bem como o comportamento, da maioria dos alunos, na não conservação da limpeza das salas, contribuindo para o agravamento das condições de trabalho naquele ambiente.

O pessoal da equipe de limpeza, na época, trabalhava mal, muitas vezes entrei na sala, muita suja. Os alunos de lá tinham um comportamento nada construtivo, né...porque eles sujavam a casa com o que comiam, eles sujavam mesmo, jogavam no chão. Por mais que se pedisse, que se falasse, não ajudavam, não colaboravam. Às vezes, a gente pra entrar na sala, pra conseguir dar aula [...] chegou a um ponto que não dava... a gente tinha que fazer com eles limpassem o que eles sujaram, tirar, recolher... porque eles sujavam bancas, sujavam tudo. Então, isso interferia sim. Era muito ruim. Tinha sala em que eu tinha aula depois do recreio, eu já ia orando pra poder conseguir dar minha aula em paz. E que isso, de forma geral, prejudicava sim. Prejudicava, porque a gente já entrava meio que sabendo o que ia encontrar e que precisava fazer, e que isso não era papel da gente. Muitas vezes,

eu saía e dizia: mande alguém ir limpar ali, porque não há condições de dar aula daquele jeito. A intervenção, a saída da diretora, a chegada do novo diretor geraram alguns conflitos, mas que, naquele momento, realmente, estava precisando daquela intervenção (PROFESSORA S).

Quanto aos aspectos físicos, declarados pela Gestão, a Escola 2 possuía 15 salas de aulas sendo utilizadas, contava com trinta e seis funcionários, dispondo de sala de diretoria, sala de professores, laboratório de informática (que não estava funcionando na ocasião), quadra de esportes descoberta (mas que ficou desativada, porque no espaço estavam construindo salas de blocos de gesso), alimentação escolar para os alunos, cozinha, banheiro dentro do prédio, adequado a alunos com deficiência ou mobilidade reduzida, dependências e vias adequadas a alunos com deficiência ou mobilidade reduzida, sala de secretaria, despensa, pátio coberto e pátio descoberto, biblioteca (mas que também não estava efetivamente funcionando como ambiente favorável a práticas de leitura destinada aos alunos).

No que se refere aos recursos materiais, a Escola 1, no cotidiano, dispunha de quadros brancos, projetores de multimídia, livros didáticos, salas de informática e Central de Tecnologia, que disponibilizava caixas de som e equipamento eletrônicos de auxílio pedagógico. Outros recursos didáticos exigidos dependeriam dos eventos de caráter mais excepcional da escola, estes ficariam sob a responsabilidade dos professores. De acordo com a Professora A, os recursos foram como um apoio importante, embora destacou a falta de internet na escola.

Contribuem, porque são um apoio, né...tanto o livro didático, que muitas escolas infelizmente não tem, como o material áudio-visual que a gente pode trazer um vídeo... a gente não tem internet aqui, né...então eu tenho que preparar tudo em casa, mas ajuda,porque eu tenho com projetar um filme, projetar um vídeo, imagens... e isso contribui para a qualidade da aula pra sair muito daquela coisa do livro didático, né...(PROFESSORA A)

Ainda sobre esse aspecto, a Escola 2 também dispunha de quadros brancos em algumas salas; em outras, quadro para giz. Dispunha, ainda, de livros didáticos (embora, naquele momento, os alunos, da turma observada, não tinham recebido esse material), netbooks que circulavam itinerantemente (embora não se usasse com muita frequência pela precariedade da velocidade da internet e ausência de formação continuada para o uso com finalidade didática), microfones e projetores de multimídia. Sobre esse último recurso, a Professora S afirmou:

Na época, o Estado tinha acabado de mandar um kit multimídia, onde a gente podia utilizar...cada professor... cada sala podia ter... era por sala... então cada professor que tava naquela sala podia pegar e usar... e aí ajudava muito a gente, porque a gente preparava as aulas em slides, ou baixava ppt e colocava o assunto e aí a gente conseguia manipular os slides, e a gente apresentava...com certeza ajudava muito, porque a gente tinha recursos visuais, a gente otimizava o tempo. Sem sombra de dúvida, esse recurso veio ajudar muito (PROFESSORA S).

Em relação aos recursos humanos, as Escolas 1 e 2 funcionavam nos turnos da manhã, tarde e noite. Nos dois primeiros turnos, em ambas, funcionavam o Ensino Fundamental e Médio. À noite, as escolas atendiam aos alunos da Educação de Jovens e Adultos.

A escola 1 tinha 882 alunos matriculados, e apresentava uma taxa de 8% de evasão. A gestão era composta de 01 diretor, 01 gestor adjunto, 01 secretaria, 04 educadoras de apoio, 02 analistas em gestão, 03 auxiliares de serviços gerais, 03 merendeiras. A escola 2 tinha 457 alunos matriculados. A sua equipe gestora era composta de 01 diretor, 01 adjunto, 1 analista de gestão, 01 educador de apoio, 01 secretária, 02 merendeiras, 03 auxiliares de serviços gerais.

Quanto à documentação, tanto a Escola 1 e 2 dispunham dos seguintes registros : livros de atas para reuniões, fichas individuais de acompanhamento dos alunos, sendo responsabilidade da secretaria o arquivamento de documentos dos alunos de anos anteriores, diários de classe para cada disciplina e por turma, sob a responsabilidade do professor, quanto ao preenchimento, calendário escolar, organizado anualmente e revisado a cada bimestre, quadros espalhados pela escola, informando o horário das aulas e os eventos realizados no cotidiano escolar.

Em ambas as escolas, a sistemática de avaliação constituía-se de uma 1ª. nota, que era o somatório de atividades realizadas durante o processo de ensino-aprendizagem, mais as recuperações paralelas no bimestre; e uma 2ª. nota que era avaliação bimestral. Para os anos finais, as avaliações bimestrais eram feitas em formato de simulados (questões objetivas), na perspectiva de se aproximarem do modelo do SAEPE, instrumento de avaliação externa, aplicado pela SEDUC/PE. A cada bimestre realizavam-se um plantão pedagógico e um conselho de classe. Em algumas situações, todavia, os alunos participavam de atividades na central de tecnologia ou no laboratório de informática para “aulas extraclasse”, caso da Escola 1. No caso da Escola 2, a Professora S relatou uma situação de ensino de literatura, que se deu fora da sala de aula.

Eu me lembro que eu fiz um momento literário lá na escola...e foi um momento assim muito bom, porque terminou que eu envolvi algumas salas, eu precisei de aulas, de apoio ... e da gestão ..assim... o apoio foi cem por cento. A gente disponibilizou uma tarde para os alunos assistirem, foram os alunos do nono ano que fizeram a apresentação... eles tremiam, diziam que não iam... e na hora foi muito bom...eles mesmos não acreditaram na superação deles (PROFESSORA S).

Em relação ao planejamento, quando indagadas se era um trabalho realizado por área ou feito individualmente, a Professora A destacou, primeiramente, a dificuldade em realizar essa

tarefa, em função do uso desse tempo, pela SEDUC/PE, para tratar de questões burocráticas, muitas vezes. Depois, destacou, como um dos objetivos do planejamento, a necessidade de adequar os conteúdos aos anos/séries aos turnos e turmas distintas dessa mesma etapa da escolarização, ressaltando que tal decisão não será influenciada necessariamente pelos documentos oficiais prescritos pela SEDUC/PE, mas por acordos táticos entre os demais professores.

Aqui, o que é que a gente faz? A gente não tem ... infelizmente, o estado pega o período que seria da gente de planejar e faz uma reunião com coisas bem burocráticas e esse tempo vai-se. Seria para aula-atividade, mas a gente sabe que não funciona bem como deveria, né... o básico, básico disso...o que é que a gente faz? A gente tenta minimamente adequar os conteúdos pra os meninos se saírem da tarde para manhã não sofrerem com a diversidade de conteúdos... então... assim ... o primeiro ano do ensino médio, o nono ano do ensino fundamental vão ver isso, aquilo e aquilo outro...pra todos verem o mesmo conteúdo. É uma decisão dos docentes e da escola também. A gente tenta entre os docentes fazer essa coisa meio que, na camaradagem, sem muito documento, mas dizendo “olha, a gente tá fazendo até aqui, vamos fazer assim pra ficar semelhante...” (PROFESSORA A)

Tanto a Professora A como a Professora S, ainda sobre a dinâmica do planejamento, afirmaram ser uma atividade que realizavam individualmente, embora ressaltem a troca de ideias, de sugestões, de estratégias bem sucedidas na prática, que poderiam ser utilizadas em outras salas de aula, por outros professores de língua portuguesa.

Os planejamentos eram feitos realmente individualmente, até mesmo porque a escola era pequena, às vezes os horários não se combinavam, mas havia sim um momento de gente trocar ideias, experiências ou alguma coisa que um professor de português encontrasse... é... a gente trocava, passava ...olha isso aqui é interessante... (PROFESSORA S)

[...]o planejamento mesmo é feito individualmente, cada um faz o seu como acha melhor. Aí como a gente tem um coleguismo assim bem interessante, a gente, às vezes, chega pede a sugestão de um ... diz, olha, eu to pensando em fazer isso, tu acha que é legal? Tu tem algum material que possa me ajudar? Aí a gente pede esse apoio, mas, assim, é feito individualmente (PROFESSORA A).

No caso das Professoras A e S, as horas-atividades também eram utilizadas para a participação nos encontros de formação continuada realizadas pelo GEDELP, momento em que ambas deslocavam-se das escolas em que estavam lotadas.

Por fim, no que diz respeito à dinâmica de funcionamento, as Escolas 1 e 2 iniciavam suas atividades às 7h da manhã, com a primeira aula às 7h30mim e o primeiro turno encerrando-se ao às12h. . À tarde, o expediente iniciava às 13h30mim e finalizava às 17h30mim. O período noturno iniciava às 18h40mim e se encerrava às 22h. As aulas eram predominantemente teóricas, exceto as aulas de Educação Física.