2.2 Attack on Titan
2.2.4 Performance
Jenkins (2010) também chama a atenção para a habilidade performática dos consumidores, que pode desencadear mudanças sociais, conforme será exemplificado a seguir. Esse aspecto pode ser percebido tanto nas produções das mídias sociais digitais relacionadas à série, quanto na atuação dos fãs. Um exemplo é o cosplay, já citado anteriormente, em que os fãs assumem o papel dos personagens e performam como eles, interagindo com outros fãs e até mesmo se debruçando sobre a aparência dos personagens ou na construção das armas utilizadas por eles para recriá-las realisticamente.
Deixando diversas perguntas sem resposta, tanto na trama quanto no blog e Twitter do autor, e se utilizando de cliffhangers37 ao final de capítulos do mangá e
episódios da animação, a produção seria capaz de incentivar os fãs a criarem, por si só, respostas para o que acontece, ou se debruçarem sobre a criação de esquemas que expliquem a complexa situação em que se encontram os personagens. Além disso, diversas pistas são deixadas, para que os fãs possam deduzir, sozinhos ou em conjunto, seu significado.
A tradução desse esforço performático se encontra no guidebook, que traz diversas informações a respeito da produção, mapas do universo ficcional, curiosidades
37 Recurso narrativo em que os personagens são colocados em situações limite, instigando o espectador a
sobre os personagens e entrevistas com figuras ligadas à produção. Fãs assíduos, por sua vez, se debruçam sobre esse material, desdobrando-o até obterem todas as informações que desejam. De posse destas, podem criar portais dedicados exclusivamente a compilar essas informações, como a já mencionada Wikia, ou inseri-las em histórias criadas para compartilharem com outros fãs. Uma informação sobre o tamanho do Titã Colossal, por exemplo, pode servir de referência para um ilustrador que queira retratá-lo. Um esquema que detalha o 3D Gear (Figura 7) serve de referência para cosplayers que queiram reproduzi-lo ou que desejam entender seu funcionamento.
Figura 7: O Guidebook detalha o funcionamento e os mecanismos do 3D Gear, usado pelos personagens para se agarrarem a objetos como prédios e árvores e se lançarem no pescoço dos Titãs-
único modo de matá-los.
Fonte: http://www.animebooks.com/atontiansian.html
Percebe-se que, para Jenkins (2010), o engajamento e a participação dos consumidores são aspectos fundamentais na construção de uma narrativa transmídia, tal como se observa em seus princípios da Narrativa Transmídia. Um grupo engajado o bastante pode até mesmo expandir e aprofundar a narrativa através de obras próprias, sejam elas análises dos acontecimentos, mapas do universo, cosplays ou mesmo
narrativas inteiras que preencham as lacunas deixadas na trama.
Ações de engajamento transmídia são, portanto, participativas e coletivas. Para Jenkins et al (2014), os fãs necessitam de um espaço para debate, compartilhamento e troca de impressões no qual processos de engajamento com o universo transmídia têm lugar. Esta pesquisa se volta para um desses ambientes, o Tumblr, aspecto que será desenvolvido no próximo capítulo.
3 KYOJINS: O FANDOM DE ATTACK ON TITAN
Se as narrativas transmídia pressupõem um fã disposto a ir a qualquer parte para obter as experiências de entretenimento que deseja, os fandoms emergem como essa pluralidade de fãs que não apenas se dispõem a realizar esse movimento - também se organizam em comunidades dedicadas a produzir material próprio. Essas comunidades ativas de fãs têm como característica o engajamento, conforme será discutido no item 3.3. Os fãs observados nesta pesquisa não se contentam com a instância oficial e tomam, em suas mãos, a tarefa de dissecar uma narrativa até compreender todos os seus aspectos e ser capaz de reproduzi-los em perspectiva própria, assim como adicionar elementos originais ao universo narrativo. Muito embora, conforme será constatado também neste capítulo, haja outros níveis de engajamento quando alguém se considera fã, ou mesmo anti-fã, de algum objeto de interesse, são estes atores que nos interessam diretamente. Os fandoms aos quais nos atentamos, consomem material criado pelo próprio grupo, em constante movimento de retroalimentação, para além do que a instância oficial é capaz de oferecer, e em ritmo muito mais veloz.
Em especial, o ambiente das redes sociais digitais vem impactando profundamente a agilidade e o volume do consumo, tanto de material oficial, quanto de produções feitas exclusivamente pelas mãos dos fãs. As ferramentas digitais, de acordo com Hellekson e Busse (2006), afetam não somente a disseminação e recepção, mas também o que é produzido, a interação e até mesmo demografia desses grupos de aficionados. Para as autoras, a tecnologia se torna cúmplice nesta geração de fãs que produzem textos.
Para compreendê-la e acessar sua produção, é preciso voltar os olhos para o ambiente onde essas comunidades se proliferam, a fim de compreender sua dinâmica e o que as leva a se engajarem. Nesse sentido, este capítulo demonstra como o Tumblr emerge, desde sua criação, como uma rede que facilita o surgimento de comunidades baseadas no interesse (DESOUZA, 2013) e experiência, contribuindo para a proliferação intensa de fandoms. Sua importância será explicada adiante, no item 3.2.
Processos de engajamento no Tumblr são potencializados pelo uso de hashtags. Estas se tornaram, assim, muito mais do que um instrumento de indexação no Tumblr,
pois configuram também instâncias agregadoras de interesses em comum, conforme também será explicado no item 3.3 deste capítulo. Segundo Rose (2013), por não haver limites de caracteres, os fãs podem usar quantas hashtags desejam – e estas podem assumir características descritivas, enumerando os elementos da postagem para serem encontrados por outros fãs, de acordo com o que desejam consumir. A busca pelas hashtags no Tumblr pode, assim, revelar muito mais do que os termos são mais buscados: elas dizem das produções dos fãs, daquilo que os leva a se engajarem em uma narrativa e representam a configuração de comunidades.