5.1 Procedimentos Estéticos
5.1.5 Performance de Regina Casé
Um dos fatores que justificam o sucesso do Central da Periferia, vencedor, em 2006, do prêmio de melhor programa de televisão pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), é a presença marcante da apresentadora Regina Casé. A análise dela como elemento linguístico também nos faz pensar em uma marca do projeto estético. Com irreverência, humor e uma mediação performática, a comediante e repórter conduz o programa.
Calçando sandália, com blusa e chapéu, Regina sobe ao palco ou se dirige a alguma favela durante as gravações. O estilo é o mesmo e faz sucesso. As cores mudam a cada edição do programa. Em Salvador, ela usa amarelo, em referência a Oxossi, deusa do candomblé. Já no episódio de Belém do Pará, Casé aparece vestida de azul e vermelho, cores da bandeira do estado. No programa de São Paulo e Recife, ela surge, em alguns momentos, com uma estampa camuflada em referência a guerra travada diariamente pelas comunidades por uma vida melhor. O Central da
Periferia, como o próprio nome sugere, deveria ter como protagonista o
cotidiano das periferias brasileiras, mas Regina Casé divide o protagonismo com as comunidades.
O estilo de Regina Casé é bastante informal. Ela está o tempo inteiro conversando, dialogando com seus entrevistados e com o público. Através
dessa linguagem informal, a apresentadora se aproxima dos
telespectadores numa estratégia dialógica de comunicação. As marcas de interatividade são claras.
No Recife, a apresentadora fala de seu avô, ressaltando seu pioneirismo na comunicação brasileira, mas na maior parte do tempo destacando apenas a presença nordestina em sua ascendência pessoal.
Regina Casé (no palco do Central da Periferia no Recife): Tudo que não tem fio
também que é wireless, né? Gosta mesmo. Meu avô. Meu avô é de Belo Jardim, daqui de perto. Ademar Casé. Salve ele. Salve o meu avô Ademar Casé. O meu
128 avô... Diziam que ele comprava um rádio e um relógio e bulia, bulia durante dois meses, se não quebrasse, ele jogava fora. Quem sempre gostou de alta tecnologia, coisas modernas, linguagem da rua, que eu acho que hoje em dia o pessoal ia cair matando em cima era nosso querido, nosso adorado Jackson do Pandeiro.
Quando fala de si, Regina estabelece alguns elementos discursivos que giram em torno de sua ‘cara de pobre’, sua cabeça-chata, de não ser a mocinha da novela, como exemplo, temos o diálogo, citado anteriormente, dela com a cantora de tecnobrega Gabi. Regina diz que elas poderiam ser primas ou irmãs e que não tem perfil para ser protagonista de novela.
Em muitas ocasiões, Regina Casé classifica-se como fora de algum padrão hegemônico de beleza. Todas essas referências apontam claramente para uma preocupação de Regina Casé com uma visibilidade diferenciada para moradores de periferias, negros, nordestinos. Em São Paulo, ela mostra como a influência do Nordeste é forte na cidade e confessa adorar forró.
Regina Casé (no palco do Central da Periferia montado em Heliópolis – SP): Com
vocês... Limão com Mel cantando amor de novela.
Música de Limão com Mel: Amor de Novela (Batista Lima)
Regina Casé: Eu adoro dançar forró. Nada melhor do que dançar agarradinho
com alguém cafungando no seu cangote.
A utilização de expressões tipicamente nordestinas como cafungando e cangote mostram esse apelo à origem da família. Durante matéria sobre o Ilê Aiyê, em Salvador, a apresentadora valoriza a cultura negra e se apresenta como representante dessa etnia.
Regina Casé (durante conversa com Antônio Carlos dos Santos, do grupo Ilê
Aiyê): E eu tava na rua doidinha emocionada chorando com o Ilê passando e aí alguém jogou umas contas pra mim, aí outro jogou mais contas pra mim. Aí, uma senhora me chamou e amarrou um pano em mim aqui. Aí, outra me chamou e fez um dorso na minha cabeça, aí outra jogou mais contas em cima de mim... Mais contas em cima de mim... E o Ilê passando...
A atriz relata com a emoção o fato de ter conquistado o direito de desfilar com o Ilê Aiyê que, durante muito tempo, só aceitou a participação de negros durante o desfile no Carnaval. Quando Antônio Carlos dos Santos, do Ilê Aiyê, conhecido como Vovô, autorizou a entrada de Regina, ela diz que foi realizado o maior sonho da vida dela.
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Dentro e fora dos programas, as falas de Regina Casé mostram como, ao longo de sua trajetória pessoal e artística, ela construiu uma imagem de porta-voz do povo, bem humorada e política. Com o Central da
Periferia, esse posicionamento foi consolidado.
Ela naturalmente foi virando uma porta-voz popular, genuinamente popular. Ela é, por exemplo, a madrinha do AfroReggae [grupo cultural carioca que tem como objetivo a valorização e divulgação da cultura negra], e, em sua vivência com o universo popular, começou a se defrontar com situações cada vez mais problemáticas. O Hermano, paralelamente, começou a fazer um estudo em torno do que ele chama de “indústria de entretenimento popular”. E pensamos assim: chega de falar que tudo é legal! Passamos a ter uma postura mais política, a tomar uma posição na direção de uma outra política (ARRAES, 2008, p.333).
A mediação da atriz é constante no Central da Periferia. Ao dar visibilidade as moradores das favelas, ela também dá visibilidade a si mesma.
Apesar de classificar sua cara como sendo a de um “pobre”, Regina Casé não deixa de ser uma celebridade, uma atriz de filmes e novelas e uma apresentadora de TV – participa, portanto, de uma seleta elite intelectual e, também, econômica. Além disso, quando está produzindo seus discursos, os aparatos técnicos de sua produção criam nitidamente uma posição de desigualdade e desnível de poder frente aos entrevistados, que só aparecerão e falarão se forem solicitados para tanto (CHAVES, 2008, p.55).
É também possível identificar no Central da Periferia traços do riso carnavalesco. A carnavalização consiste na apropriação, pela literatura, das manifestações da cultura popular. Essas ações são caracterizadas por sua natureza não-oficial, configurando, segundo Bakhtin, uma segunda vida do povo, por meio da suspensão de todas as hierarquias, transformando o mundo real às avessas. A percepção carnavalesca possibilita um contato familiar entre os elementos que estão dispersos, permite ao reprimido exprimir-se, utilizando uma linguagem repleta de obscenidade, livre das coerções da etiqueta, com o uso de atos e falas excêntricos e profanos (Fiorin, 2006).
A plebe vira realeza e a realeza, plebe. Semelhante ao espírito do carnaval, o pobre transforma-se momentaneamente em rei no Central da
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Periferia. Exemplo claro disso é quando Regina Casé decide criar mais uma
estrela do tecnobrega paraense: Leudiane.
Regina Casé (conversa com Chimbinha da banda Calypso): O que é que eu faço
com a Leudiane. É... Bom, ela quer gravar um cd, mas não tem gravadora. Com é que faz?
[...]
Regina Casé (durante visita a academia que ensina a dançar brega): Olha,
Leudiane. Bem linda. Linda. Olha pra câmera. Tá quase tudo pronto, hein, gente. Mas bandas de brega, que se preza, têm que ter DVD, por isso a Leudiane vai começar agora a gravar o seu clipe.
Exibição do clip de Leudiane
Regina Casé (no palco do programa em Belém): Ela vai pro trono ou não vai?
Rapaz e a consagração da Leudiane.
Leudiane deixa por instantes de ser a moradora de uma das favelas de Belém do Pará e é transformada em uma artista do tecnobrega.
Semelhante ao espírito do carnaval, o pobre transforma-se momentaneamente em ‘rei’ – ou condes transformam-se em flanelinhas - nos programas de Regina Casé, que invertem na esfera discursiva as relações hierárquicas hegemônicas de representação, oferecendo, assim, ‘uma visão do mundo, do homem e das relações humanas’ diferente e não-oficial, como no carnaval. Se a vida dos pobres brasileiros está distante da alegria e cordialidade representadas por Regina Casé, seus discursos, como essa festa popular, penetram ‘temporariamente no reino utópico da universalidade, liberdade, igualdade e abundância’, promovendo um ‘mundo ao revés’ e caracterizando-se ‘pela lógica original das coisas ‘ao avesso’, ‘ao contrário’, das permutações do alto e do baixo (‘a roda’)’ (CHAVES, 2008, p.57).
Dessa forma, Regina Casé, com o seu humor, leva para o Central da
Periferia uma nova visão de mundo, na qual uma alegre relatividade
tomaria conta de tudo e onde só habitariam pessoas “legais” em suas particularidades e diferenças.