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Performance do corpo como campo de estudos indisciplinares

5 REVERBERAÇÕES DOS DEVIRES NA SOCIEDADE

5.2 Performance do corpo como campo de estudos indisciplinares

Segundo Ferracini (2018), o processo artístico tem o poder de criar uma 42

atmosfera na qual a troca e o olhar para o outro movem internamente o ser humano rumo a uma sabedoria pouco trabalhada e explorada durante a vida. Tal poder aplica-se, também, ao fortalecimento do foco que deveríamos ter no auto- conhecimento, este que resultaria em um profundo conhecimento também sobre a vida. Dessa forma, através da experiência do corpo e pela via das artes, seria possível dar margem à circulação de outros devires-corpos institucionais, os quais, em sua maioria, multiplicam processos de subjetivação dominantes. Para isso, torna-se imprescindível formular e desenvolver pensamentos que valorizem o saber- do-corpo, possibilitando o vislumbre de novos caminhos de desmodelização e possibilidades de agir no mundo a partir de outros vetores. Seria a arte um elemento de reconstituição ativo? A inventividade ética e política poderia ser viabilizada por linhas de fuga potencialmente capazes de abrir possibilidades para outras formas de nos organizarmos? Segundo Lepecki (2005), os estudos da performance (e das 43

artes do corpo na contemporaneidade) adentram outros campos artísticos e criam novas possibilidades para pensarmos as relações entre corpos, subjetividades, política e movimento.

As artes do corpo podem contribuir com um treinamento que conduz o aluno- performer a intensificar-se a partir do que é, a fim de colocar a experiência a favor da

Reflexões do professor doutor Renato Ferracini durante o seminário de Práticas Cênicas, realizado 42

na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa (UNL), em janeiro de 2017.

Perguntas inseridas a partir das reflexões do professor doutor Renato Ferracini durante o 43

seminário de Práticas Cênicas, realizado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa (UNL), em janeiro de 2017.

transformação do indivíduo. Este, por sua vez, quando disponível e exposto, transforma a si mesmo em lugar de passagem para que o acontecimento interfira diretamente no seu modo de estar no mundo. Portanto, as artes do corpo, em um contexto pedagógico, podem ter uma força criadora extremamente potente nesse sentido. Trabalham, incessantemente, na direção de ampliar a escuta, para que o encontro entre corpos se estabeleça, nesse campo de interrupção, como uma língua que pretende-se “alterada e alterável, uma língua com imaginário, com metáforas, com relatos” (LARROSA, 2011, p. 26). Isso garante que a experiência se dê a partir de uma linguagem preocupada em recriar a maneira de estar e intervir no mundo.

Vale ressaltar que, em diversas pedagogias contemporâneas das artes do corpo, há uma crítica: são repensados os modos de vida predominantes no nosso cotidiano, deslocando e repensando o processo de treinamento, este que estaria mais vinculado à intensificação na experiência do que na atribuição de informação, como uma técnica a ser apenas adquirida. Peter Brook (2011), no livro Avec

Grotowski, nos conta que Grotowski, em 1983, foi convidado para ser professor do

Centre International de Créations Théâtrales, no Objective Drama Project, em Paris. À ocasião, Brook relata ter escrito uma carta de recomendação, com os motivos pelos quais Grotowski estaria capacitado ao cargo. Para isso, Peter Brook lançou algumas questões que considerava muito importantes, não só para o teatro, privado de sua vitalidade, mas para o desenvolvimento do ser humano, de uma maneira geral – dava por certo que Grotowski estaria disposto a investigá-las a fundo. Eis algumas delas: “o que é um ator? A atuação é diferente do comportamento normal? Qual a diferença entre um ator e um não-ator? Como um ator, sem qualquer formação psicológica, pode compreender tão diretamente o funcionamento da psique humana? Qual a natureza fisiológica daquilo a que chamamos intuição? O estudo rigoroso dos mecanismos do jogo pode esclarecer as zonas desconhecidas do espírito humano?" Brook sabia que Grotowski buscaria profundamente as 44

respostas a estes questionamentos, a partir da experiência do ator em si próprio e através da prática do saber-do-corpo em devir, em um âmbito que as artes do corpo estariam prontas para habitar.

Dito isso, é possível afirmar que o trabalho do ator pode contribuir para o conhecimento do ser humano de forma a aproximá-lo de suas próprias

BROOK, Peter. Avec Grotowski. Tradução de Celina Sodré e Raphael Andrade; Brasília: Teatro 44

potencialidades enquanto indivíduo capaz. Pode, ainda, auxiliá-lo a gerenciar suas forças a partir de suas próprias ferramentas vitais, intensificando-as, de maneira que seu complexo corpo-mente-energia seja o principal veículo de manejo e investigação para aprofundar as potencialidades humanas.

Os mecanismos do espírito são hoje estudados por uma disciplina, o desenvolvimento do corpo por uma outra, e o teatro é o domínio privilegiado onde imaginação, comunicação e comportamento devem obrigatoriamente ser estudados simultaneamente (BROOK, 2011, p. 33).

O sentido dado ao treinamento em muitos processos artísticos contemporâneos, como forma de intensificação em contexto pedagógico, poderia integrar o campo da educação. Dessa maneira, através da experiência, os alunos trabalhariam em direção a uma qualidade específica almejada, que os ajudaria a compreender a psique humana, interligada à intuição, através da conscientização de suas faces indissociáveis, força e forma. O treinamento levaria, assim, ao conhecimento de si mesmo como ser responsável para co-criação de corpos- mundos.

Conectar-se com o campo do desconhecido e do risco para acessar as potencialidades do ser humano tem crescido como alternativa viável para se trabalhar os mecanismos do espírito, tão imprescindíveis à vitalidade humana, apesar da dificuldade em lidarmos com algo que “venha do fundo do ser, de um território vasto e indefinido, espectral, de onde desaguam os fantasmas do mundo” (MIGUEL, 2017, p. 99). Com a “repetição" e a especialização de si mesmo, nesse sentido, teria-se o treinamento como oportunidade de se experienciar a escuta no campo molecular, através do acompanhamento desses devires menores, que reverberariam em uma macroestrutura. “Não que as especulações cosmológicas e lógicas desapareçam, mas estão subordinadas à construção do ‘sujeito ético’” (QUILICI, 2015, p. 158).