4 PERFORMANCE, INTIMIDADE E AUTOEXIBIÇÃO: O CORPO EM AÇÃO NO
4.2 Performance e gênero: corpo simbólico, material e tecnológico
4.2 Performance e gênero: corpo simbólico, material e tecnológico
O modo como vivenciamos nosso gênero é ensinado, ensaiado e performado, o que passa pela dimensão corporal (FÉRAL, 2009). Antes de me deter a essa questão, cabe fazer uma breve discussão a respeito do conceito de corpo. Retomando Connell (2003), o corpo não é essencialmente biológico, tampouco integralmente social. A fim de evitar determinismos de ambos os lados, a pensadora defende que a biologia não é definidora de uma masculinidade natural e verdadeira, o que não existe, do mesmo modo que a superfície corporal não é um espaço neutro em que o simbolismo social se imprime. Nossos corpos são interpelados por fatores genéticos, envelhecimento, doenças, mudanças corporais, uso de drogas legais e/ou ilegais, além de serem permeados por questões culturais, políticas e morais.
Nesse sentido, o corpo – simbólico e material – é um ponto determinante nas performances de gênero. Performar masculinidade é, como afirma Connell, uma maneira “de sentir na pele, certas formas e tensões musculares, certas posturas e formas de mover-se, certas possibilidades no sexo” (2003, p.83), modos de ser homem que se tornam memória no
corpo a partir de experiências vividas, exemplos dados, textos verbo-visuais transmitidos midiática, educacional e culturalmente.
Na juventude, as habilidades corporais se tornam um indicador primeiro de masculinidade, conforme vemos no esporte. Essa é uma forma-chave de ligação entre a masculinidade e a heterossexualidade na cultura ocidental, com prestígio dado aos meninos com parcerias heterossexuais e o aprendizado sexual imaginado como exploração e conquista. Práticas corporais, tais como comer carne e assumir riscos na estrada, também se tornam ligadas às identidades masculinas. Logicamente isso resulta na promoção de estratégias de saúde (CONNELL; MESSERSCHIMIDT, 2013, p. 269).
A incorporação da masculinidade hegemônica (ou sua transgressão) vai ocorrendo, assim, por meio de diversos comportamentos restaurados por que homens vão passando. Não sem razão o afeminado é também reconhecido pela ação de seu corpo, o que pode ser expresso por sua voz anasalada, seu corte de cabelo, sua ausência de barba, seu jeito de dançar rebolando, exemplos coletados nos perfis analisados e em conversas desenvolvidas com usuários do Grindr, os quais ilustram como a figura do afeminado é concebida. Distante deste corpo estaria o do macho, cujas características se ligam às virilidade, atividade sexual, força.
Na atualidade, com o apoio de aparatos e serviços técnicos, digitais e interativos, nossas performances, inclusive as de gênero, são executadas também por meio do uso de tecnologias. Silva (2012), em estudo etnográfico realizado em áreas populares de Florianópolis, constatou que jovens do gênero masculino, ao ouvirem música em ambientes públicos, com seus celulares e sem fones de ouvido, tinham como motivação a ocupação do espaço sonoro em torno de si, o que os afirmava enquanto homens viris. Os celulares, na pesquisa de Silva, foram elementos importantes que contribuíram para a incorporação de masculinidade e a subjetivação de seus usuários.
Courtine (2013) descreve algo similar ao tratar da cultura de academias de ginástica na Costa Oeste dos Estados Unidos, o que acabou por se proliferar globalmente. Ligada à virilidade masculina, a relação máquina-corpo compõe um modo de ser homem por meio do fortalecimento do músculo, da valorização da massa corporal acumulada e enrijecida. Os aparelhos de musculação servem para esculpir um corpo ideal, indicativo de saúde e masculinidade hegemônica. Não sem esforços, suor, dietas e abstinências rígidas, corpos e máquinas se fundem, sendo difícil traçar suas fronteiras. Como expressa Preciado, está cada vez mais “impossível estabelecer onde terminam „os corpos naturais‟ e onde começam as „tecnologias artificiais‟: os ciberimplantes, os hormônios, os transplantes de órgãos, a gestão do sistema imunológico humano no HIV, a web etc. são apenas alguns exemplos entre outros”
(2014, p. 157-8).
Ancoradas em tecnologias e sua relação com os corpos, diversas performances na atualidade passam a depender de sistemas técnicos e comunicacionais para serem executadas. Em diálogo com o contexto do Grindr, usuários realizam performances de si e moldam seus corpos a partir de ingestão de Whey Protein e outros suplementos alimentares, de sua fundição persistente a máquinas de academia, do uso de celulares para sessões de selfie35, do aprimoramento de fotos com aplicativos de edição e/ou da autoexibição em redes digitais de encontro. Para Preciado (2008), as pessoas se valem de tecnologias para se construírem, estilizarem seus corpos, existirem nos dias de hoje, incluindo desde o consumo de cirurgias plásticas e drogas até a utilização de aparelhos móveis, mídias sociais e aplicativos.
A interligação entre celular e apps está fortemente próxima do corpo de seus usuários. Ficar sem o celular aparece hoje como uma dificuldade, à medida que ele agrupa diversas funções sociais: fotos pessoais, internet, acesso ao banco, mídias sociais digitais, despertador,
e-mail, bloco de anotações, mapas e tantos aplicativos com diversas propriedades e utilidades. Íntimo, o celular não é compartilhado como o computador, de forma que nele se cingem pessoalidade e privacidade, não à toa há aparelhos que só são desbloqueados a partir da autenticação digital de seu proprietário. Com a tecnologia de geolocalização, é possível transpor prédios, ruas e quartos da redondeza e, através da tela, aceder a restaurantes, salões, hotéis, faculdades e até mesmo intimidades. O corpo, conectado ao celular e ao Grindr, potencializa as chances de contatos afetivo-sexuais, amplia a visão orgânica e oferece uma dimensão tecnológica, que não por isso deixa de ser real. Não fiquei surpreso quando, durante conversa com um usuário do Grindr, recebi dele uma nudes instantânea para mostrar como ele estava naquele momento. A relação entre corpo e tecnologia é promíscua: somos interpelados pela tecnologia e ela é por nós interpelada (BONFANTE, 2016).
Uma das novas propriedades técnicas dos celulares é a presença da câmera reversa, que fica na frente do aparelho. Ao fazermos uso de nossos celulares, implicitamente somos convidados à exibição por esta câmera, que permite que nos vejamos em tempo real. É possível, de tal maneira, treinar poses, testar ângulos, experimentar autoperformances facilmente, já que, por meio da tela, fotografado e fotógrafo unem-se em um só. Desenvolve-se neste processo um exercício de performance de si, uma relação de ver-Desenvolve-se para dar-Desenvolve-se a ver: apreende-se a si mesmo, performa-se a si mesmo, utilizando estratégias visuais que definem o que deve ser mostrado, o que deve ser escondido ou o que deve ser camuflado. Algumas
35 Espécie de autorretrato fotográfico, feito através da câmera de aparelhos tecnológicos móveis, normalmente destinado para exibição de si em mídias digitais interativas.
câmeras contêm, inclusive, ferramentas de autoembelezamento automático, espécie de filtro que deixa a pele dos fotografados mais lisa e rubra.
Esses textos visuais, quando publicados, sobretudo em mídias digitais interativas, circulam por diversas telas, afetam seus espectadores e alimentam uma cultura que é ao mesmo tempo adepta do voyeurismo e do exibicionismo íntimo. Em diálogo com um usuário do Grindr, perguntei se ele não sentia medo de que suas nudes fossem compartilhadas na web. Ele respondeu que não e afirmou que até gostaria que suas fotos íntimas circulassem, já que isso funcionaria como uma espécie de propaganda. Com a tecnologia, o corpo autoexposto ganha potências criativas, mutantes e estéticas.