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Performance e locução na obra de Dan Graham

No artigo “Da subjetividade na linguagem”, Benveniste (2006) afirma que é na e pela linguagem que o homem se constitui sujeito, uma vez que a linguagem funda, na realidade desse ser, o conceito de “ego”. E é nessa cons- tituição que a linguagem se faz comunicação: o “eu” só existe em relação a um “tu”, condição do diálogo, intrínseco à reversibilidade dos papéis “eu”/”tu”.

Baseando-nos na teoria da enunciação de Benveniste, de acordo com a qual a categoria de pessoa é essencial para que a linguagem se torne pos- sível, examinamos na obra de Dan Grahm, dado que ele trabalha com es- pelhos em suas instalações, as oportunidades dialógicas exploradas pelo artista: nos limites da teoria enunciativa, nos propomos a comparar perfor-

mance e elocução, ampliando suas perspectivas de aplicação, em instân- cias mais abstratas.

Consideramos, para tanto, o sujeito como aquele que participa de uma ação em um determinado tempo e espaço. Discursivamente, tal configuração reflete as operações de embregem e de debreagem na obra em questão.

Na instalação Present Continuous Past, de 1974, criada por Dan Graham, temos um cubo branco, ou seja, temos um ambiente que pretende provocar um efeito de isolamento contextual. Vejamos, no esquema abaixo, o espaço idealizado:

Figura 3 – Ilustração do espaço expositivo da performance Present Continuous Past de Dan Graham

Fonte: Graham ([200-]).

Nesse cubo branco, duas paredes são cobertas por espelho, e uma ter- ceira possui um monitor e uma câmera bem acima da tela, exibindo a imagem filmada em tempo real e projetada com atraso de oito segundos. Isso signifi-

ca que não se estabelecerá uma sincronia no movimento do sujeito e da sua imagem nesse espaço.

De maneira genial, observamos na performance de Dan Graham, o per- feito funcionamento enunciativo, com a debreagem, num primeiro momento, operando de forma a disjungir o sujeito do espaço e do tempo da enunciação, e em projetar no enunciado um “não-eu”, um “não-aqui” e um “não-agora”, lembrando que isso só é possível porque nenhum “eu”, “aqui” e “agora” inscri- tos no enunciado são realmente da pessoa, do espaço e do tempo da enun- ciação, mas sempre pressupostos: existe sempre um “eu” pressuposto que “diz”. Vejamos um bom esquema dessas esferas enunciativas:

Figura 4 –Instâncias Enunciativas

Fonte: Adaptado de Barros (1988, p. 75).

Aplicando os conceitos teóricos à leitura da instalação de Dan Graham, localizamos:

• a enunciação pressuposta implícita na figura do artista no momen- to da sua criação;

• a narração que se explicita por meio das pessoas que visitam e ocu- pam a instalação, configurando-se como aqueles que “dizem”, no âmbito do enunciado.

Mas esses que “dizem” não se sustentam como “eu” pois, no interva- lo que se estabelece entre a entrada de um visitante na sala, seu reconhe- cimento nos espelhos, e a projeção dessa narrativa na tela, entra em cena

uma pessoa subvertida, na forma de um “eu” que, oito segundos depois, já se converteu em “ele”.

No contexto da narrativa, instaura-se um outro “eu”, provocando, en- tão, uma interlocução, possível apenas pela delegação de voz nesse cenário em que nada parece ser o que deve ser. Se o “eu” também é “aquele de quem se fala”, quem está fazendo o papel de narrador? Poderia o papel de narrador estar esvaziado? Ao olhar o monitor, o narrador se depara com o interlocutor, pois ele não se reconhece de imediato no pequeno filme.

Temos aqui um acontecimento, uma parada que produz a descontinui- dade. Essa parada gera, por sua vez, uma contenção do fluxo (marcado pela expectativa da rotina), que pede a atualização da virtualidade para retomar sua continuidade, aproveitando toda a contenção como potência. Para que isso ocorra, o sujeito é modalizado por um novo modo de existência: a não conjunção aumenta sua potência por meio da relação entre a atualização de uma disjunção, o que implica automaticamente a busca, ainda mais impetu- osa, da conjunção com a realização do esperado: ver-se refletido no monitor de maneira simultânea ao pacto fiduciário que o sujeito estabelecera consigo próprio ao entrar no cubo branco.

A obra de Dan Graham provoca a reflexão do e no sujeito em vários graus, conforme pudemos notar. Se pararmos para pensar que o que chama- mos de momento presente é, na verdade, um instante que acabou de passar, esse “eu” só pode constituir uma identidade se apegando a padrões estabele- cidos no passado: uma vez reconhecido o atraso, o interlocutor volta à rotina, ou ao lugar de narrador que nunca deixou de ocupar no momento do aconte- cimento.

Iniciando, pois, nossa jornada em um ponto de partida ficcional, pas- sando da poesia para o conto e do conto para a performance, buscamos uma maneira de ilustrar a trajetória do sujeito, do /ser/, que começa sua ação por meio da potencialização, no plano mais virtual do /querer/, até chegar a um plano real, como parte da construção da experiência inerente à sua própria constituição.

Buscamos, gradativamente, ativar a percepção, de maneira a nos dei- xarmos emocionar pela realização de uma virtualidade manifestada pela

transcriação poética, chegando à performance, à própria realidade que se virtualiza para voltar a se realizar, em um contínuo percurso de atualização.

A escolha do espelho deveu-se à sua força dialética, que evidencia a extensão do eu (intensidade) – um eu fora do eu –, tanto quanto a expressão é a extensão do conteúdo.

A consideração mútua entre as duas instâncias é, para nós, a descons- trução das hegemonias, afinal, para nos lembrarmos Valéry, “tudo começa por uma interrupção”.

Referências

ARISTÓTELES. Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973. BARROS, D. L. P. de. Teoria semiótica do texto. São Paulo: Ática, 1988. BENVENISTE, E. Problemas de Linguística Geral II. Campinas: Pontes, 2006. CAMPOS, A. Despoesia. São Paulo: Perspectiva, 1994.

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