Segundo Kwastek (2013, p.81), as teorias da performance e da performatividade enfocam a ação e a recepção, analisando o ato de “jogar” perante um público. Sendo também um campo interdisciplinar. Performance pode significar a apresentação de habilidades excepcionais, para descrever um comportamento representacional separado da vida ordinária, ou a qualidade da execução de uma atividade. Performance implica na “consciência da duplicidade”, definindo a execução de uma ação em comparação com um potencial, um ideal, ou um modelo de ação lembrado. É uma ação que aborda
66 Informações sobre a obra, disponível em: <http://www.medienkunstnetz.de/works/world-skin/>. Acesso em 13 mai. 2015.
uma audiência, realizada na presença de outro indivíduo ou grupo de pessoas. Performance é um conceito mais amplo do que a performance teatral tradicional, indo além de ações baseadas em roteiros e enredos. Sendo uma ação simbólica presente em diversas áreas.
Para Kwastek (2013, p.82), o conceito de performance é importante para mídia arte interativa porque nos ajuda a realizar as complexas relações entre modelos de ação e as estruturas da obra e sua realização e interpretação. O conceito da arte da performance difere da performance em cinema tradicional, teatro e música, pois, geralmente, o autor, o diretor e o ator são a mesma pessoa; como é o compositor, o condutor e o músico na performance musical.
Kwastek compara a criação de um texto dramático e sua performance por meio da direção teatral e atores, com o conceito de mídia arte interativa. Observando que a última, é também baseada em um conceito desenvolvido por um artista, sendo “encenado” como uma proposição interativa. Essa “encenação” usualmente é realizada pelo autor do conceito, portanto toma lugar em uma proximidade temporal à concepção do trabalho. Entretanto, a autora destaca as diferenças, pois o autor não escreve um plot a ser encenado, na mídia arte o texto é substituído por regras, ou processos que canalizam o curso dos eventos, muitas vezes com a ajuda de recursos como imagens sons, textos, audiovisual. Nos games é comum na equipe um roteirista para criar as situações de jogo, mas na mídia arte interativa, geralmente, é uma função do artista, ou coletivos artísticos, o que é menos comum.
Na arte interativa, o receptor assume a função do ator. Ele também pode ser guiado para um papel ficcional e pode tanto procurar preencher um papel performático, ou se distanciar. Entretanto, é frequente que seja abordado de modo individual e seja chamado a ser ele mesmo. Porém, temos que levar em consideração que estamos assumindo papéis o tempo inteiro na sociedade e construímos hábitos a partir disso, dessa forma é difícil dizer que seremos nós mesmos ainda mais em uma situação de interação em que geralmente diversas pessoas observam nossas ações e as respostas da máquina.
A presença da máquina nos remete à presença de uma outra entidade, que supomos ser inteligente. É natural que algumas pessoas até atribuam nomes aos seus
computadores. Segundo Kwastek (2013, p.83), Ericha Fischer-Lichte67, uma pensadora
da arte da performance, argumenta que os atores e os espectadores, por meio de suas ações e comportamento, operam uma “relação de influência recíproca”, sendo essa relação negociada durante o curso da performance. E, ao mesmo tempo, a performance possibilita a oportunidade de explorar uma função, uma condição e, obviamente, uma interação específica, o que seria mise-en-scène torna-se um arranjo experimental; Fischer-Lichte denomina essa forma interativa de “loop feedback autopoiético” (KWASTEK, 2013, p.83).
Performatividade é diferente do conceito de performance, na visão de Kwastek, pois, é utilizado para descrever um tipo de comportamento caracterizado pela ambivalência entre representação simbólica e real execução. O conceito de duplicidade, cuja função é fazer uma clara distinção entre performance e vida real, é substituído aqui pela ambivalência, que emerge do ponto onde artificialidade e realidade encontram-se (KWASTEK, 2013, p. 84). Pensamos ser este conceito mais adequado para entendermos o caráter performático do ato interativo envolvendo interator e ambiente interativo.
Segundo Kwastek, o conceito de performatividade surge primeiro nas teorias da linguística e posteriormente é adotado pelos estudos culturais e teatrais. Sendo associado aos rituais sociais, por exemplo, o casamento, e discursos formais, sendo que constituem realidade e criam uma realidade social. Kwastek utiliza o conceito de performance de Erika Fischer-Lichte, que analisa as práticas performáticas contemporâneas na arte da performance e no teatro pós-dramático. As análises não são realizadas em relação a um texto dramático, mas como performances artísticas em que a ação em si própria é o elemento fundamental. Tais ações são consideradas não apenas como constituições de realidade, mas como autorreferenciais. A figuratividade tradicional, nas performances artísticas, gradualmente cede espaço à uma realidade ou materialidade das ações em si mesmas (KWASTEK, 2013, p. 85).
3.5.1 Constituição da realidade e autorreferencialidade
Kwastek, apoiando-se no pensamento de Fischer-Lichte, considera que as performances artísticas (tradicionais) não constituem realidade por seu caráter de artificialidade. Enquanto, no âmbito da performatividade: a arte da performance contemporânea, as ações são formas que atuam na constituição de uma realidade, pois criam um sentido de presença, sem necessariamente buscar representar alguma coisa. As interações artísticas normalmente não constituem (diretamente) a realidade, sendo percebidas como isentas de propósito. Entretanto, algumas obras de artemídia interativa, principalmente as que envolvem ações corporais ou violam tabus, ao usar estratégias similares às performances mais radicais, por exemplo quando o performer se auto- mutila, podem romper com a artificialidade da ação. Pain Station68 (2001), do grupo
///////fur/////, por exemplo, consiste na versão modificada do Arcade game pong, no qual cada erro é punido com um choque na palma da mão do jogador. Assim há uma ruptura com a artificialidade da ação, que pode ser realizada por estratégias menos dolorosas, por exemplo quando a comunicação face-a-face é incorporada à obra, por exemplo, em
Riders Spoke69, do grupo Blast Theory. Assim, a constituição da realidade opera uma
ruptura do “círculo mágico” e leva a uma percepção ambivalente da ação (KWASTEK, 2013, p.85-6).
Outra característica importante da performatividade, apontada por Kwastek, é a autorreferencialidade que está embutida na ação performática. A partir da reflexão de Dieter Mersch, entende que a performance de uma ação engloba não somente a sua implementação, mas também a sua recitação, a sua apresentação, assim a arte performativa envolve práticas e processos que fazem de si próprios explícitos em sua “autodemonstração” (KWASTEK, 2013, p.88).
Kwastek conclui que na experiência estética interativa, o conhecimento não se forma em uma boa compreensão do sistema de signos projetado para interpretação por
68 Informações sobre a obra, disponíveis em: <http://www.medienkunstnetz.de/works/painstation/>. Acesso em 10 jun. 2015.
69 Informações disponíveis em: <http://www.blasttheory.co.uk/projects/rider-spoke/>. Acesso em 10 jun. 2015.
meio de um caminho específico, mas através da interação entre a experiência transformativa (a ação) e a sua reflexão. Na arte interativa, a atividade do receptor oscila entre a experiência física e a interpretação cognitiva (KWASTEK, 2013, p. 88). Assim, a ação não está totalmente separada da reflexão, o distanciamento da obra para melhor compreendê-la não funciona na arte interativa, pois sem a ação não existe obra e nem experiência estética, assim como, a exploração das ações leva às cognições, a uma compreensão do sistema e de sua própria ação frente a ele. A oposição entre ação e cognição nos parece falsa.