O conceito de performatividade de gênero, desenvolvido por Butler, não deriva
diretamente da arte da performance em sua acepção no teatro, área em que primeiro é
formulado e da qual venho tratando com mais atenção até agora, mas a partir de um
desdobramento do termo. A ideia de performance alcançou, desde sua recente formulação,
grande popularidade em diversos campos do conhecimento, como a literatura e as ciências
humanas e sociais. É pela via da linguagem, em especial através do trabalho do filósofo inglês
J. L. Austin, de sua teoria dos atos de fala, que Butler encontrará inspiração para sua proposta.
Como nos informa Salgado (2012), o conceito de performatividade desenvolvido por Austin
ganha importância nos estudos linguísticos ao deslocar o olhar do enunciado e de seu
conteúdo para os modos de enunciação discursiva. Ou seja, para a forma.
Um “ato de fala” ou “enunciado performativo” é aquele em que a enunciação (fala) é
o mesmo que ação, elas coincidem. É o que acontece, por exemplo, quando alguém diz que
promete algo. Ou seja, prometer é o ato em si, logo, falar é a ação. Como explica Butler,
A performatividade caracteriza primeiro, e acima de tudo, aquela característica dos enunciados linguísticos que, no momento da enunciação, fazem alguma coisa acontecer, trazem algum fenômeno à existência (…). Um enunciado dá existência àquilo que declara (ilocucionário) ou faz com que uma série de eventos aconteça como consequência do enunciado (perlocucionário). Por que as pessoas estariam interessadas nessa teoria relativamente obscura dos atos de fala? Em primeiro lugar, ao que parece, a performatividade é um modo de nomear um poder que a linguagem tem de produzir uma nova situação ou de acionar um conjunto de efeitos. (…) A questão não é apenas que a linguagem atua, mas atua de forma poderosa(BUTLER, 2018, pág. 36)
Butler dará exemplos como o da passagem bíblica em que Deus diz “Faça-se a luz”, e
o mundo então se ilumina, este que seria considerado o primeiro ato performativo, mas
também exemplos mais palpáveis, como a declaração de guerra por parte de chefes de Estado
ou quando juízes declaram duas pessoas casadas, o que se concretiza, a partir desse
enunciado, sob os devidos preceitos legais. Outros exemplos podem ser pensados. Mesmo
sem o amparo legal dos juízes, os padres, pastores e pastoras também declaram duas pessoas
casadas, o que passa a valer de fato, por conta de crenças compartilhadas. Do mesmo jeito,
por relações de poder específicas, ao falar “ação!”, a diretora ou o diretor de cinema ativam
um conjunto de pessoas que irão produzir, no momento da gravação, os sons e as imagens de
um filme.
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É nessa perspectiva do performativo, portanto, que Butler diz que o gênero é
construído por meio de eventos discursivos de diversas ordens, que “inauguram o gênero para
a maioria de nós” (Ibid). Quais seriam esses eventos? Desde a declaração que alguém da junta
médica faz sobre uma criança como sendo menina ou menino, o registro gráfico disso em
documentos, e aí por diante. No documentário Aqueles dois (Emerson Maranhão, 2018), esse
evento discursivo é mostrado de modo incisivo. O jovem trans* Caio José, um dos
personagens, relata que em sua infância brincava sempre com os garotos na escolinha, e os
banheiros eram compartilhados entre meninos e meninas. Por volta dos 8 anos, porém, as
crianças foram destinadas a banheiros diferentes. Um dia, quando entrava com seu grupo de
amigos no banheiro masculino, foi bruscamente arrastado pelo braço por uma professora até a
sala da diretoria. Aí, professora e diretora disseram que ele não podia entrar naquele banheiro,
por que não era igual aos amigos, nem igual ao seu pai, mas sim igual a sua mãe. “Até então,
na minha mente, eu era como meu pai. Não importava as roupas, não importava o nome, não
importava nada. Eu só me via como meu pai”, rememora. Esta foi a primeira vez em que se
deu conta de que não se via como a sociedade o via. O caso é interessante, pois explicita duas
coisas: primeiro, os modos como os diversos atos externos nos colocam em um dos lados no
sistema binário heteronormativo, o hegemônico. Segundo, que há, como afirma Butler, falhas
que permitem torções apesar desse sistema de coerção, o que ocorre devido ao próprio modo
como ele funciona.
Se o gênero vem a nós em um primeiro momento como uma norma de outra pessoa, ele reside em nós como uma fantasia ao mesmo tempo formada pelos outros e parte de nossa formação. Mas o meu ponto aqui, pelo menos, é de certa maneira simples: o gênero é recebido, mas com certeza não simplesmente inscrito em nosso corpo como se fôssemos meramente uma chapa passiva obrigada a carregar uma marca. Mas o que somos obrigados a fazer a princípio é representar o gênero que nos foi atribuído, e isso envolve, em um nível inconsciente, ser formado por um conjunto de fantasias alheias que são transmitidas por meio de interpelações de vários tipos. (BUTLER, 2018, pág. 38, 39)
Quando se diz que uma criança é menino ou menina, prontamente uma gama de
modos corporais são projetados e cobrados como expectativas de gênero, fantasias alheias que
a filósofa afirma nos afetarem de maneira incontrolável: “trata-se da imposição psicosocial e
da inculcação lenta das normas” (pág. 38). Essas normas, por sua vez, “informam modos
vividos de corporificação que adquirimos com o tempo” (Ibid), e então a possibilidade de
subversão: “e esses modos de corporificação podem se provar formas de contestar essas
normas, até mesmo rompê-las” (Ibid). Butler irá dizer que isso ocorre porque “a possibilidade
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de errar o alvo está sempre presente na representação de um gênero” (pág. 38), o que seria um
“segundo sentido da sua representação” (pág. 39).
Por haver essa abertura, o gênero é algo que permite que outras forças, como outras
convenções culturais, novos desejos, ou o corpo mesmo etc interfiram causando
desentendimentos, confusões e, a partir disso, produzindo expressões não programadas pela
norma. “Alguma coisa nova acontece” (Ibid), e “formas de resistência se desenvolvem”
(Ibid). É justamente este segundo sentido da representação, que expõe tal falha inerente e
aparece como resistências às formas impostas, que ela vê na arte da performance drag. É
quando a representação normativa, que tenta se vender como transparente em relação a um
suposto gênero natural originário, deixa ver seu caráter artificial por conta dessa nova
representação que se superpõe à esperada, de modo a expô-la também como construção.
O que Butler irá chamar de atos corporais seriam o “resultado” gestual, corporificado,
de atos de fala, ou seja, a resposta factual do corpo diante da norma discursiva de gênero que
busca se impor sobre a matéria. É como se houvesse, portanto, duas performatividades em
ação: a dos atos de fala, discursiva, que propaga a norma e projeta sobre os corpos as
expectativas de gênero (em geral binário e heteronormativo) desde o nascimento, e a dos atos
corporais, que seriam o resultado da assimilação dessas normas, sua representação. Butler
defende, assim sendo, que essa assimilação nunca acontece sem ruídos, havendo uma falha
constitutiva na aplicação das normas que fará que os modelos corporificados sejam
incorporados de modos diversos (combinados, incompletos, modificados etc), infringindo,
performaticamente, como atos corporais, a própria norma que os forneceu.
Em primeiro lugar e acima de tudo, dizer que o gênero é performativo é dizer que ele é um certo tipo de representação; o “aparecimento” do gênero é frequentemente confundido com um sinal de sua verdade interna ou inerente; o gênero é induzido por normas obrigatórias que exigem que nos tornemos um gênero ou outro (geralmente dentro de um enquandramento estritamente binário); a reprodução do gênero é, portanto, sempre uma negociação com o poder; e, por fim, não existe gênero sem essa reprodução das normas que no curso de suas repetidas representações corre o risco de desfazer ou refazer as normas de maneiras inesperadas, abrindo a possibilidade de reconstruir a realidade de gênero de acordo com novas orientações.(BUTLER, 2018, pág. 40)