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Performance e performatividade de gênero

No documento A liberdade de Vingativa: (páginas 54-58)

O conceito de performatividade de gênero, desenvolvido por Butler, não deriva

diretamente da arte da performance em sua acepção no teatro, área em que primeiro é

formulado e da qual venho tratando com mais atenção até agora, mas a partir de um

desdobramento do termo. A ideia de performance alcançou, desde sua recente formulação,

grande popularidade em diversos campos do conhecimento, como a literatura e as ciências

humanas e sociais. É pela via da linguagem, em especial através do trabalho do filósofo inglês

J. L. Austin, de sua teoria dos atos de fala, que Butler encontrará inspiração para sua proposta.

Como nos informa Salgado (2012), o conceito de performatividade desenvolvido por Austin

ganha importância nos estudos linguísticos ao deslocar o olhar do enunciado e de seu

conteúdo para os modos de enunciação discursiva. Ou seja, para a forma.

Um “ato de fala” ou “enunciado performativo” é aquele em que a enunciação (fala) é

o mesmo que ação, elas coincidem. É o que acontece, por exemplo, quando alguém diz que

promete algo. Ou seja, prometer é o ato em si, logo, falar é a ação. Como explica Butler,

A performatividade caracteriza primeiro, e acima de tudo, aquela característica dos enunciados linguísticos que, no momento da enunciação, fazem alguma coisa acontecer, trazem algum fenômeno à existência (…). Um enunciado dá existência àquilo que declara (ilocucionário) ou faz com que uma série de eventos aconteça como consequência do enunciado (perlocucionário). Por que as pessoas estariam interessadas nessa teoria relativamente obscura dos atos de fala? Em primeiro lugar, ao que parece, a performatividade é um modo de nomear um poder que a linguagem tem de produzir uma nova situação ou de acionar um conjunto de efeitos. (…) A questão não é apenas que a linguagem atua, mas atua de forma poderosa(BUTLER, 2018, pág. 36)

Butler dará exemplos como o da passagem bíblica em que Deus diz “Faça-se a luz”, e

o mundo então se ilumina, este que seria considerado o primeiro ato performativo, mas

também exemplos mais palpáveis, como a declaração de guerra por parte de chefes de Estado

ou quando juízes declaram duas pessoas casadas, o que se concretiza, a partir desse

enunciado, sob os devidos preceitos legais. Outros exemplos podem ser pensados. Mesmo

sem o amparo legal dos juízes, os padres, pastores e pastoras também declaram duas pessoas

casadas, o que passa a valer de fato, por conta de crenças compartilhadas. Do mesmo jeito,

por relações de poder específicas, ao falar “ação!”, a diretora ou o diretor de cinema ativam

um conjunto de pessoas que irão produzir, no momento da gravação, os sons e as imagens de

um filme.

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É nessa perspectiva do performativo, portanto, que Butler diz que o gênero é

construído por meio de eventos discursivos de diversas ordens, que “inauguram o gênero para

a maioria de nós” (Ibid). Quais seriam esses eventos? Desde a declaração que alguém da junta

médica faz sobre uma criança como sendo menina ou menino, o registro gráfico disso em

documentos, e aí por diante. No documentário Aqueles dois (Emerson Maranhão, 2018), esse

evento discursivo é mostrado de modo incisivo. O jovem trans* Caio José, um dos

personagens, relata que em sua infância brincava sempre com os garotos na escolinha, e os

banheiros eram compartilhados entre meninos e meninas. Por volta dos 8 anos, porém, as

crianças foram destinadas a banheiros diferentes. Um dia, quando entrava com seu grupo de

amigos no banheiro masculino, foi bruscamente arrastado pelo braço por uma professora até a

sala da diretoria. Aí, professora e diretora disseram que ele não podia entrar naquele banheiro,

por que não era igual aos amigos, nem igual ao seu pai, mas sim igual a sua mãe. “Até então,

na minha mente, eu era como meu pai. Não importava as roupas, não importava o nome, não

importava nada. Eu só me via como meu pai”, rememora. Esta foi a primeira vez em que se

deu conta de que não se via como a sociedade o via. O caso é interessante, pois explicita duas

coisas: primeiro, os modos como os diversos atos externos nos colocam em um dos lados no

sistema binário heteronormativo, o hegemônico. Segundo, que há, como afirma Butler, falhas

que permitem torções apesar desse sistema de coerção, o que ocorre devido ao próprio modo

como ele funciona.

Se o gênero vem a nós em um primeiro momento como uma norma de outra pessoa, ele reside em nós como uma fantasia ao mesmo tempo formada pelos outros e parte de nossa formação. Mas o meu ponto aqui, pelo menos, é de certa maneira simples: o gênero é recebido, mas com certeza não simplesmente inscrito em nosso corpo como se fôssemos meramente uma chapa passiva obrigada a carregar uma marca. Mas o que somos obrigados a fazer a princípio é representar o gênero que nos foi atribuído, e isso envolve, em um nível inconsciente, ser formado por um conjunto de fantasias alheias que são transmitidas por meio de interpelações de vários tipos. (BUTLER, 2018, pág. 38, 39)

Quando se diz que uma criança é menino ou menina, prontamente uma gama de

modos corporais são projetados e cobrados como expectativas de gênero, fantasias alheias que

a filósofa afirma nos afetarem de maneira incontrolável: “trata-se da imposição psicosocial e

da inculcação lenta das normas” (pág. 38). Essas normas, por sua vez, “informam modos

vividos de corporificação que adquirimos com o tempo” (Ibid), e então a possibilidade de

subversão: “e esses modos de corporificação podem se provar formas de contestar essas

normas, até mesmo rompê-las” (Ibid). Butler irá dizer que isso ocorre porque “a possibilidade

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de errar o alvo está sempre presente na representação de um gênero” (pág. 38), o que seria um

“segundo sentido da sua representação” (pág. 39).

Por haver essa abertura, o gênero é algo que permite que outras forças, como outras

convenções culturais, novos desejos, ou o corpo mesmo etc interfiram causando

desentendimentos, confusões e, a partir disso, produzindo expressões não programadas pela

norma. “Alguma coisa nova acontece” (Ibid), e “formas de resistência se desenvolvem”

(Ibid). É justamente este segundo sentido da representação, que expõe tal falha inerente e

aparece como resistências às formas impostas, que ela vê na arte da performance drag. É

quando a representação normativa, que tenta se vender como transparente em relação a um

suposto gênero natural originário, deixa ver seu caráter artificial por conta dessa nova

representação que se superpõe à esperada, de modo a expô-la também como construção.

O que Butler irá chamar de atos corporais seriam o “resultado” gestual, corporificado,

de atos de fala, ou seja, a resposta factual do corpo diante da norma discursiva de gênero que

busca se impor sobre a matéria. É como se houvesse, portanto, duas performatividades em

ação: a dos atos de fala, discursiva, que propaga a norma e projeta sobre os corpos as

expectativas de gênero (em geral binário e heteronormativo) desde o nascimento, e a dos atos

corporais, que seriam o resultado da assimilação dessas normas, sua representação. Butler

defende, assim sendo, que essa assimilação nunca acontece sem ruídos, havendo uma falha

constitutiva na aplicação das normas que fará que os modelos corporificados sejam

incorporados de modos diversos (combinados, incompletos, modificados etc), infringindo,

performaticamente, como atos corporais, a própria norma que os forneceu.

Em primeiro lugar e acima de tudo, dizer que o gênero é performativo é dizer que ele é um certo tipo de representação; o “aparecimento” do gênero é frequentemente confundido com um sinal de sua verdade interna ou inerente; o gênero é induzido por normas obrigatórias que exigem que nos tornemos um gênero ou outro (geralmente dentro de um enquandramento estritamente binário); a reprodução do gênero é, portanto, sempre uma negociação com o poder; e, por fim, não existe gênero sem essa reprodução das normas que no curso de suas repetidas representações corre o risco de desfazer ou refazer as normas de maneiras inesperadas, abrindo a possibilidade de reconstruir a realidade de gênero de acordo com novas orientações.(BUTLER, 2018, pág. 40)

Butler entende, portanto, que é justamente por se tratar de um processo performático -

ou seja, grosso modo, aberto, relacional e que se dá em ato - que não há garantia de que os

modelos sejam recebidos de modo direto nem que sejam assimilados sem atritos e falhas. Se

esses modelos generificados, as “representações corporais das normas”, existem na cultura,

nada impede, a priori, que eles sejam adotados por qualquer pessoa e de maneiras diversas,

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independentemente do sexo biológico ou do gênero atribuído no nascimento. “O surgimento

de transgênero, genderqueer, butch, femme e modos hiperbólicos ou dissidentes de

masculinidade e feminilidade, e mesmo de zonas de vida generificada que se opõem a todas

as distinções categóricas como essas” (BUTLER, 2018, pág. 40), dirá, acontece quando esse

campo de normas discursivas se quebra em sua aplicação corporificada. Isso irá abrir caminho

para novos modos de viver o gênero que colocam em xeque os modos de reconhecimento que

predominam como prática e, principalmente, como discurso.

As maneiras como esses cruzamentos de modelos se darão em cada experiência são

complexas e a própria Butler está há cerca de três décadas às voltas com os desdobramentos e

ampliações de sua teoria. O trabalho de Butler tem sido amplamente discutido e gerado

inúmeras polêmicas. Uma das mais importantes diz respeito ao caráter alegadamente

construtivista em excesso de suas ideias. Elvira Burgos Díaz (2013) dirá, por exemplo, que,

em alguns momentos de Gender Trouble (1990) e em particular em Bodies that matter (1993),

criticas apontam um “determinismo linguístico antibiologicista sem remissão que consistiria

em sustentar que tudo, inclusive o corpo, é linguagem ou que não há nada mais que a

substância das palavras”.

Burgos Díaz discorda de tais interpretações, apontando que, se Butler insiste em usar o

termo “construção”, é a partir de sua dimensão performativa. Antes disso, a filósofa

estadunidense teria negado o construtivismo radical tanto em Bodies that matter (1993)

quanto em How Bodies Come to Matter (1998), explicando que sua intenção é mostrar que o

paradoxo que se funda entre essencialismo e construtivismo é de difícil superação. Burgos

Díaz, nesse sentido, é enfática na defesa de Butler: “Dizer que não há materialidade prévia

que possa ser acessível à ordem discursiva, já que, se nos conformamos a ela, à materialidade,

é enquanto já inserida no discursivo, não é afirmar que o corpo não é nada mais que o produto

de uma construção” (BURGOS DÍAZ, 2013, pág. 448). Ou seja, o corpo é justo a pedra no

caminho da qual não se pode desviar. É precisamente ao atravessar os corpos que os discursos

da norma falham.

Butler parece chamar a atenção é para a dimensão discursiva enquanto relação, para o

fato de que o corpo se constitui performaticamente como social. A performatividade, assim

sendo, é um lugar de ação e visibilidade. Em uma cena de aparição que se produz num

emaranhado de poderes, forças, referências, os corpos agem e são transformados à medida em

que agem. É esse um dos sentidos em que as imagens parecem surgir como um lugar

privilegiado para se pensar essas relações, pois talvez seja possível escavar em cenas

gravadas, na sua constituição, essas linhas de força que atuariam, em maior ou menor

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intensidade, tanto na (des)construção do gênero quanto das formas da arte, se influenciando

mutuamente.

No documento A liberdade de Vingativa: (páginas 54-58)