• Nenhum resultado encontrado

2 FLUXOS DE COGNITIVIDADE E TECNICIDADE NAS MEDIAÇÕES

2.3 Performances midiatizadas de uma professora drag queen

Outro aspecto interessante nas mediações de Rita Von Hunty, é que em na maioria dos vídeos analisados, nós podemos perceber que Rita Von Hunty não está performando como atriz de stand-up comedy, dublando canções famosas ou fazendo bate cabelo44 (coisas que drag queens costumam fazer). É importante destacar esta outra forma de apropriação das drags, que basicamente se montam para performar, sem estarem envolvidas necessariamente com dança, comédia, música, ou algo mais festivo. E será que mesmo assim estamos diante de tecnicidades nas mediações de performances drag?

A drag queen pode utilizar a performance midiatizada como vetor dos seus discursos e contestações, para que através da linguagem de se montar possa abrir caminho aos debates de determinadas pautas LGBTQIA, provocando estranhamentos, e consequentemente outras possibilidades de leituras e produção de sentido. Para Lopes (2018), pensar as tecnicidades no contexto atual da comunicação não é apenas valorizar a técnica, mas todo o aparato sensível e criativo utilizados nas mediações das práticas comunicativas.

Em uma entrevista45 para o Fale Conosco do Canal GNT (2020), Rita Von Hunty fala sobre a prática comunicativa da sua drag, que não está muito ligada com a questão do show, da performance com dança, números de dublagem ou da cena noturna.

Quando a Rita chega em um lugar para falar sobre uma coisa que ela fez pesquisa que ela estudou, que ela preparou, e as pessoas veem a drag queen, e ela não tá batendo um leque, arrancando peruca, embaixo de peruca, de maiô, com a bunda pra fora, as pessoas falam: “epa!?” (HUNTY, 2020g, on- line).

Esta fala se refere ao estranhamento das pessoas, quando se deparam com o papel de comunicadora de Rita Von Hunty, que é diferente do que geralmente as drags fazem. Isso

44 Termo utilizado para o movimento de dança comum entre drags, de jogar o cabelo. 45

HUNTY, Rita Von. In: CANAL GNT. Rita Von Hunty maravilhosa solta o verbo com Júlia Rabello | Fale

amplia as possibilidades de tecnicidade na comunicação, utilizando a performance enquanto presença, que também possibilita a inserção da drag queen em determinado espaço proporcionando a percepção do seu corpo como consequência da representação gestual, voz, discurso e visualidade.

A performance como presença é consequência da expressão do corpo montado da drag queen, que emite uma voz que também faz parte da experiência criativa da comunicação, que por sua vez opera tanto de forma dialógica, como provocando uma mistura de vozes entre Rita Von Hunty e interlocutores. A leitura é formada por estímulos auditivos do discurso performatizado, mas acompanhada também pelos estímulos visuais, em que “transmissão e recepção aí constituem um ato único de participação, co-presença. [...] Esse ato único é a performance” (ZUMTHOR, 2007, p. 65).

O estranhamento diante da presença de Rita Von Hunty, mesmo que midiatizada, gera oportunidades de leituras, que para Zumthor (2007, p. 50-52) se dá através da performance, definida pelo momento em que o enunciado do discurso é recebido. Para o autor, “comunicar [...] não consiste em fazer passar uma informação; é tentar mudar aquele a quem se dirige; receber uma comunicação é necessariamente sofrer uma transformação”.

As performances podem ser vistas como resultado do conjunto de fatores que interferem em processos de leitura na comunicação. Zumthor (2007) percebe inclusive que mesmo quando aperfeiçoadas pela tecnologia, atividades que envolvem decodificação de imagens e vozes no exercício da imaginação, podem ser identificadas como performances. E o audiovisual, como forma de escrita virtual, produzirá novas possibilidades de transmissão e percepção de performances diante da natureza que compõe as ações humanas.

Rita Von Hunty além de produzir conteúdo para a internet, realiza cursos em eventos, palestras, universidades, etc. E sua performance também é realizada presencialmente, ou seja, se dá com a presença imediata da drag queen, através de sua montação, corpo e voz. Essa experiência dos cursos da Rita pode ser uma contribuição de sua performance nas relações criativas das mediações de seu conteúdo no YouTube, pois a recepção sofre interferências não somente da visualidade de sua drag queen no espaço virtual, mas também da posição discursiva atribuída ao seu próprio corpo, que aparece montado em nossas telas.

Temos, portanto, aqui a noção de corpo como construção simbólica, narrativa, uma vez que o corpo nomeado (vestido, dócil, másculo, feminino, cidadão, estrangeiro, estetizado, saudável, doente, monstruoso, virtual etc) nasce de mediações, de formas discursivas que geram alteridades como teias de significação. (GONÇALVES, 2004, p. 85-86).

O corpo se relaciona com a cultura e representa socialmente o resultado de uma construção simbólica da imagem que cada sujeito constrói para si. Essa construção apresenta marcas visuais, percepção de identidades individuais e identificação a um grupo social do qual faz parte. São códigos que se criam ao corpo, os quais produzem visualidades capazes de proporcionar momentos de leituras (TUCHERMAN, 1999 apud GONÇALVES, 2004).

Desta forma, existe a possibilidade de perceber o discurso no corpo, a partir da presença da drag queen enquanto articuladora de mediações. Neste caso, Rita Von Hunty dificilmente passará despercebida em um determinado espaço, mesmo que não diga nada, os códigos que estão construídos em seu corpo de drag queen podem ser identificados como ação simbólica ou performance. Para Sodré (2019) “a comunicação não é necessariamente apenas a comunicação da mídia, a comunicação das redes, mas passa também pelos corpos que se encontram”.

Isso dialoga com o que diz Flusser (2007), porque são justamente as imagens que serão responsáveis por transportar e fazer a comunicação do encontro entre os diferentes corpos, através de arquivos midiáticos como fotos e filmes que são como molduras dos fenômenos de passagem, nas quais as mensagens são copiadas e transmitidas aos receptores.

As imagens como estão sendo transmitidas nos dias de hoje podem ser inspiração para os modelos de comportamento e fazem com que receptores funcionem como mero objetos na produção de sentido, porém é na relação entre os meios que os homens podem ter a possibilidade de se tornarem designers de significados de imagens, que por sua vez são transmitidas através das novas condições interativas, com possibilidades complexas para elevar a experiência da significação de conteúdos da mídia (FLUSSER, 2007).

O que leva a entender que a midiatização não inviabiliza mediações de discursos presentes no corpo de forma imediata, pois a ação medeia os significantes da experiência visual que fazem parte da construção da performance por meio das técnicas de práticas de comunicação. “Em outras palavras, o corpo não desaparece sob a mediação, mas se altera do mesmo modo como as concepções que fazemos dele, o que, por sua vez, se reflete nas maneiras como a arte vai apresentá-lo”46 (GONÇALVES, 2004, p. 93-94).

A possibilidade de repensar as relações da presença do corpo, articulado com elementos tecnológicos e artísticos midiatizados, é uma alternativa que possibilita novas relações com os meios de produção cultural através de uma tecnicidade criativa, articulando

habilidades adquiridas de Rita Von Hunty como professora, com a sensibilidade e a criatividade extra da drag queen.

Devemos olhar para essas produções comunicativas na internet de forma positiva, mesmo quando no mesmo ambiente surgem a todo tempo grandes figuras do charlatanismo e das informações falsas. As performances oriundas desses espaços, podem representar novos meios da expressão dos corpos e das diferenças.