PARTE 2 ABORDAGEM AUTORREFLEXIVA
7. Paisagens fluidas
7.1 Performatividade e participação
Segundo Carvalho, Mello e Panão (2014), a noção de performatividade é ampla e abarca uma série de manifestações, desde comportamentos sociais até a construção de uma realidade social. “No campo das linguagens e das práticas artísticas, esse conceito, que amplia e deriva da noção de performance, compreende também a ação, a atuação, a vivência e a ex- pressividade da experiência de troca e de relação do público com tais práticas” (CARVALHO, MELLO, PANÃO, 2014, p. 26). Sob esta perspectiva, em Paisagens fluidas buscamos elaborar uma proposta artística que dialogasse com a arte interativa, e principalmente com a arte de par- ticipação, convocando à vivência e à experiência do público.
Ao trazermos objetos cotidianos e fabricados para a instalação não estávamos dialo- gando apenas com os processos criativos realizados nas performances do Entremeios, mas tam- bém dialogando com a arte de participação das décadas de 1960 e 70, principalmente aquela que explora taticidade dos materiais, proporcionando ao público uma ressignificação perceptiva. Tais obras demandam uma recepção mais ativa e performativa por parte do público. Os objetos relacionais de Lygia Clark, por exemplo, exploram uma experiência de relação entre público e Fig. 29 Fotografia da Fachada do prédio do SESI-SP. Paisagens fluidas (Fonte: acervo pessoal).
objetos banais do cotidiano, trazendo à tona um arquivo de memórias dos participantes, e fa- zendo reverberar suas experiências vividas no próprio processo de recepção da obra.
Em Paisagens fluidas, os objetos visaram proporcionar uma dupla experiência. Por um lado, a percepção sensorial direta, vivenciada por meio da exploração tátil e sonora de cada objeto; nesse caso, o participante se apropria por alguns minutos desses objetos, conferindo-lhes novos usos e significados. E, por outro, pela exploração da visualidade, gerada a partir da cap- tura, do tratamento e da ampliação das ações dos participantes no painel de LED; aqui é o par- ticipante quem cria as imagens em tempo real a partir de suas ações. Tanto em um caso quanto em outro, a ação direta ou a presença do participante é que completa o ato de criação; o público torna-se, então, fator fundamental para que a proposição artística ganhe espessura e significado.
Outro fator relevante presente em Paisagens fluidas é a coexistência entre o material e imaterial. Quando mencionei acima, ao abordar a série de performances Espaços entre o sonoro, que nas instalações multimídia há a coexistência entre o material e imaterial, chamava a atenção para um período da história da arte que tratava, digamos assim, de uma transição: da arte de participação para arte interativa.
Em seu artigo “O espaço das instalações: objeto, imagem, público” (2007), Milton Sogabe aborda, como o título indica, os espaços das instalações. Para ele, as instalações surgem com a característica de explorar o espaço tridimensional, no qual o público adentra e vivencia os processos propostos pelos artistas. Nesse caso, espaço e obra se confundem. Contudo, com o aparecimento das tecnologias digitais, o autor percebe algumas transformações nos espaços das instalações. Acentua-se o desaparecimento de objetos, ou seja, de elementos tridimensionais, e lança-se mão gradativamente de imagens “inteligentes”, as quais interagem diretamente com o público. Sob esta perspectiva, Sogabe apresenta essa transformação a partir de três situações que descrevo abaixo.
Na primeira, ao adentrar o espaço, que é a própria obra, o público a experiencia sensorial e conceitualmente, de acordo com seu deslocamento físico e seu contato visual, tátil e/ou sonoro com os elementos ali presentes. Um dos pontos principais aqui é que o espaço é organizado para o público circular nele, relacionando-se com ele e com os elementos físicos ali dispostos. Essa situação diz respeito às primeiras experiências artísticas que denominamos de instalações.
Na segunda situação, a imagem ganha maior relevância em relação aos objetos tri- dimensionais. Apesar de as imagens já estarem presentes na situação anterior, na forma de pin- turas, impressões ou fotografias, com a emergência do vídeo uma outra situação se instaura, na qual é dada uma maior atenção à imagem em movimento. Por meio das possibilidades do vídeo, a imagem pouco a pouco se revela como um elemento de maior importância, tanto que a ima- gem projetada é, muitas vezes, o único elemento presente na obra.
A partir do surgimento das tecnologias digitais, começa-se a vislumbrar a arte inte- rativa, uma vez que se torna possível a interferência direta nas imagens. Neste sentido, interfa- ces são introduzidas no ambiente da instalação, criando diálogos entre imagem e público. Para Sogabe, as interfaces funcionam como elementos físicos, sendo exploradas pelo público por seu design e taticidade.
Na terceira situação proposta por Sogabe, o público interage com as próprias ima- gens. Neste caso, o artista abre mão de objetos ou interfaces em favor de uma imagem que é capaz de provocar eventos e dialogar diretamente com o público. “Nesse contexto as imagens ganham vida e diálogo com o público, com a possibilidade de dispensar a presença de objetos reais, substituindo-os por objetos virtuais nessas imagens que representam o ciberespaço” (SO- GABE, 2007, p. 1990).
Para a criação de Paisagens fluidas levamos em conta as três situações propostas por Sogabe, visando dialogar com todas elas e relacioná-las, de modo a proporcionar um trânsito entre o material e o imaterial, entre a taticidade dos objetos e a interatividade com a imagem digital. É ainda a partir desse trânsito que vislumbramos a arquitetura da cidade como interface, como aquilo que está entre o que é manipulado pelo público e presentificado no ambiente da cidade. Dessa maneira, Paisagens fluidas evoca uma série de trânsitos e de espaços entre o micro e o macro, entre o privado e o público, entre a taticidade e a visualidade. (Fig. 30)