“A performance é uma pintura sem tela, uma escultura sem matéria, um livro sem escrita, um teatro sem enredo... ou a união de tudo isso...” (LEIRNER apud COHEN, 2007) Não existe um limite histórico ou fixável para distinguir o que é ou não é performance. É nisso em que acreditam Mostaço, Orofino, Baumgärtel e Collaço (2009). Já para Cohen (2007, p. 40-41, grifo do autor), “pode-se conjugar o nascimento da performance ao próprio ato do homem se fazer representar”.
Para Schechner (2003), as pessoas têm vivido, no século XXI, como nunca antes, através da performance. No Brasil, existem, conforme Bião (2011), ao menos, três sentidos principais para a palavra performance.
O de um gênero de arte do espetáculo, frequentemente associado às artes visuais e às artes cênicas, inclusive multimídias (Cohen, 2006, p. 240-243); o de desempenho pessoal de qualquer tipo (de boa ou má qualidade); e o de objeto de pesquisa acadêmica inspirada pelas proposições de Schechner de Estudos da Performance (1977; 2002) e de Turner de Antropologia da Experiência e da Performance (1986) (BIÃO, 2011, p. 350, grifos do autor).
Segundo Schechner (2003), e também conforme os autores Mostaço, Orofino, Baumgärtel e Collaço (2009), a essência da performance está ligada à combinação entre relações e ações. É um ato onde performar é o resultado de: ser; fazer,
mostrar-se fazendo; explicar ações demonstradas. Envolve ações e atividades humanas incontáveis, com os mais diversos propósitos e voltadas para as mais diversas direções.
Ser, se trata da existência em si mesma, comportar-se. Fazer, se trata da atividade de tudo que existe. Mostrar-se fazendo, se trata de performar, ou seja, apontar, sublinhar e demonstrar a ação; está ligado à natureza do comportamento humano, mostrar o que se faz, exibir-se. Explicar ações demonstradas (a exposição do fazer) é o trabalho dos Estudos da Performance, ou Estudos Performáticos - abordados logo adiante, neste capítulo.
De acordo com o pensamento de Bião (2011) e de Sibilia (2015), dizer que alguém fez uma boa performance no contexto dos negócios, do esporte, do sexo e até mesmo na espetacularização da vida cotidiana (pode-se pensar no jornalismo como tal, representando os acontecimentos da vida em sociedade), é afirmar que o indivíduo teve uma boa atuação, um alto padrão de desempenho, que foi bem sucedido.
No contexto da arte, o performer é aquele que atua, seja num show, espetáculo ou outras situações cênicas, pode-se conjugar música, teatro, poesia, dança, artes visuais e auditivas e experimentações com tecnologias digitais, como o vídeo e a fotografia. No contexto da vida cotidiana, “performar é ser exibido ao extremo, sublinhando uma ação para aqueles que a assistem” (SCHECHNER, 2003, p. 25, grifo do autor).
Mesmo que a arte seja um campo de estudos privilegiado pela performance, ela não está apenas em obras artísticas ou rituais, mas também em ações cotidianas comuns, ocupações esportivas e recreativas, situações de trabalho, contextos tecnológicos, rituais sacros e profanos, jogos, etc. Se as situações de trabalho também pertencem ao conceito de performance, então pode-se pensar que o exercício profissional do repórter, sua atuação, sua função, sua ação, também constituem performance.
Segundo Cohen (2007), a performance é considerada uma forma de teatro por ser uma expressão cênica, que se movimenta e não é estática - como uma escultura, por exemplo -, porém, por mais “plástico” ou não intencional que seja o modo como ela é constituída, sempre estará apresentando algo, para um determinado público, com algum sentido. O autor acredita na performance não
apenas como uma expressão cênica, mas também como uma linguagem de experimentação.
Domingos (2013, p. 3) descreve o performer e a performance, em seu artigo “O Performer É um Imigrante?”, de uma forma que pode-se julgar poética, literária, carregada de sentimento. “O performer é sempre um estrangeiro. Nunca está em terra firme. Amante do perigo, do instante, do estranho, do agora. (...) E o que é um performer senão um sujeito perdido entre lugares, abrigos conceituais e experimentações práticas? (...) Meu corpo renasce na experiência da performance. (...) Não acredito em sucesso ou fracasso de um trabalho performático. Acredito em necessidade de aventura, de se sentir vivo e pulsante. Movente."
Albuquerque (2012) e Vanhaesebrouck (2013) concordam que a performance é um processo de comunicação e é realizada sempre para alguém, com a intenção de comunicar uma dada expressão, podendo ser compreendida como uma linguagem ampliada.
Comunicar significa, etimologicamente, “pôr em comum”, portanto, a comunicação exige o partilhar com o outro, por isso, a performance não pode ter uma existência independente do público, ela precisa dele.
Sibilia (2015) acredita que, seguindo a configuração de um novo modo de vida, como registrou Guy Debord (a sociedade do espetáculo), não basta performar, é preciso exibir, mostrar ao público, pois o esforço performático tem como alvo o olhar alheio; sua meta consiste em conquistar a atenção daqueles que observam; logo, somente se performa para o olhar dos outros.
O performer é um personagem, ele sempre tem testemunhas, alguém precisa observá-lo, pois a sua existência está condicionada pelo olhar dos outros. Portanto, o personagem é quem performa, e a performance existe apenas ao estar sendo observada.
Para Albuquerque (2014), enquanto houver uma mensagem para transmitir, a performance fará sentido, à semelhança de qualquer diálogo cultural, social, político e artístico que envolva dois ou mais seres humanos.
Mendonça (2016) acredita que a performance evidencia a obra, ou o movimento, ou o objeto, em detrimento do sujeito que manipula, ou seja, ela valoriza “o que” está sendo apresentado, mais do que “quem” está apresentando.
Schechner apud Mendonça in Pereira, Isaacsson e Torres (2012, p. 259) afirma que “performances são feitas de pedaços de comportamento restaurado, mas
cada performance é diferente das demais”. Phelan (1993) apud Vanhaesebrouck (2013) diz que a performance acontece ao longo de um tempo que não se repetirá, mesmo que haja nova performance, será sempre diferente, portanto, única, permanecendo a sua existência na memória do espectador.
Segundo o pensamento de Mostaço, Orofino, Baumgärtel e Collaço (2009), se a ação é a base da performance, então os Estudos da Performance ou Estudos Performáticos, campo dos pesquisadores e dos críticos para refletir sobre a performatividade (o mundo como performance), consistem em estudar as ações, explorando o comportamento humano, a prática artística, o trabalho de estudo de campo e o engajamento social.
Os autores afirmam que o conceito de performatividade foi introduzido em 1955 pelo filósofo John Langshaw Austin, ao lançar um conjunto de palestras para descrever a natureza da língua (ou linguagem) quando efetiva ou registra atos.
Noção moderna, embora derivada de um antigo verbo inglês1, passou a maior parte do tempo despercebida enquanto tal, provavelmente em função da quase naturalidade que infunde: “fazer” ou “desempenhar” são hábitos tão entranhados no dia a dia que dificilmente nos damos conta de como os realizamos, a partir de que perspectiva e seguindo que modelos.
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1 Segundo o dicionário Houaiss, o substantivo formou-se a partir do verbo inglês performance, registrado pela primeira vez em 1531, de to perform “alcançar”, “executar” e, este, do francês antigo parfourmer “cumprir, acabar, concluir”, de former “formar, dar forma a, criar”, do latim formáre “formar, dar forma” (MOSTAÇO; OROFINO; BAUMGÄRTEL; COLLAÇO, 2009, p. 15-16, grifos do autor).
De acordo com o pensamento de Setenta (2008), o conceito de performatividade refere-se a um modo de estar no mundo, podendo ser aplicado às relações pessoais, sociais, políticas, culturais e artísticas.
A performatividade se caracteriza por movimentos inquietos, questionadores - aqueles que não se satisfazem com respostas já dadas e trabalham para perturbar o domínio do “o quê”, “para que/quem”, “porque” em favor de um ‘como’ que precisa ser sempre construído (SETENTA, 2008, p. 83, grifos da autora).
Mostaço, Orofino, Baumgärtel e Collaço (2009) dizem que Austin investigou o surgimento da pragmática (protocolo), destacando o que existe de performatividade implícita aos atos da fala quando a linguagem é empregada como ação ou para indicar atos perpetrados (rituais, casamentos, juramentos, etc.).
Conforme os autores, as reflexões sobre performance estão numa perspectiva que afirma que a realidade é percebida através de interpretações que devem ser contextualizadas e atender diversos pontos de vista simultaneamente, e que a sua significação depende do conceito onde estão inseridas.
Por meio desse entendimento sobre a performance é possível dizer que essas características são semelhantes, senão iguais, às indispensáveis para o bom desempenho do trabalho do repórter, ou então do próprio jornalismo, que precisa ser contextualizado, atender a diferentes modos de observar os fatos ou posicionamentos, e considerar sempre a realidade onde os fatos se encontram.
De acordo com o pensamento de Mostaço, Orofino, Baumgärtel e Collaço (2009), ao longo do tempo, novos gêneros e percepções foram somados e outros dispensados. No entanto, a noção básica é de que qualquer ação estruturada, apresentada, marcada ou exposta é considerada performance, podendo pertencer a mais de uma categoria ao mesmo tempo.
Um jogador de futebol americano, por exemplo, correndo com a bola e apontando um dedo para cima depois de um tento convertido está performando uma dança e executando um ritual como parte de seu desempenho profissional enquanto astro popular (SCHECHNER, apud MOSTAÇO; OROFINO; BAUMGÄRTEL; COLLAÇO, 2009, p. 26).
Para os autores, outro aspecto da performance é a recepção (leitura e audição). Os diferentes modos em que a palavra escrita ou a audição da literatura oral são praticadas influenciam as relações criadas com o texto, estimulando percepções e sentimentos distintos diante do poético.
De acordo com o pensamento de Mostaço, Orofino, Baumgärtel e Collaço (2009, p. 39), a teatralidade da performance não está naquilo que o espectador enxerga, mas no seu olhar, pois “(...) ela é um produto mental propiciado pelas percepções e, para emergir, não depende de um palco, atores ou cenografia, mas tão somente de uma operação de linguagem intermediando um sujeito e um objeto. Por isso, a teatralidade e a performatividade seriam “filhas” do mesmo estímulo fenomenológico que fundamenta a mais simples experiência de um sujeito: olhar.