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DIANTE DE UM RELATO DE VIOLÊNCIA?

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Ministério Público em suas intervenções a fim de deslegitimar as versões trazidas: 22% das manifestações do Ministério Público buscavam trazer elementos para justificar a ação violenta narrada, tais como resistência à prisão ou violência praticada contra a vítima durante a suposta prática do crime. Quando havia algum documento atestando o atendimento médico à vítima do crime, ele era detalhadamente lido durante a audiência de custódia para frisar a gravidade das agressões que teriam sido cometidas pelo(a) custodiado(a). Os documentos de atendimento médico das pessoas presas, ao revés, eram ignorados.

Outra prática utilizada nesse sentido era narrar outros crimes que constassem em sua folha de antecedentes ou que teriam sido mencionados na delegacia. Além disso, eram feitas perguntas a respeito de membros(as) da família que estariam presos(as), para tirar ainda mais a credibili-dade do relato trazido.

64 O universo, de 122, considera todas as perguntas feitas pelos promotores após um relato de violência. Há casos em que mais de uma pergunta foi feita.

22% a agressão [27] 20% Insinuou que o/a acusado/a estaria mentindo [25] 17% Perguntou detalhes sobre o ocorrido* [21] 11% Você conhecia o agressor? Tinha algo contra ele? [13] 11% Naturalizou a violência [13] 9% Saberia reconhecer agressores? [11] 6% Tentou fugir ou reagiu? [7] 2% Foram os mesmos policiais que levaram te para a delegacia? [3] 2% Perguntou características pessoa que agrediu [2] 10% 0 20% 30% 40% 50%

Reforçar a imagem de criminoso(a) parecia estar diretamente ligado a uma reação que ou igno-rava os relatos de agressão trazidos ou os entendia como parte necessária da atuação policial. Ilustrando uma lógica de legitimação das agressões, em uma das audiências, em meio à sua intervenção, um(a) dos(as) promotores(as) chegou a dizer para a pessoa presa:

“Se não tivesse roubando não tava apanhando... Não que eu ache que tenha que bater” (Intervenção do Ministério Público no caso 281).

Algo também muito utilizado eram as chamadas confissões informais, relatos dos(as) policiais militares de que aquela pessoa teria confessado a prática do crime no momento da prisão. Ainda que não houvesse qualquer testemunha que não os policiais militares, e que a versão não fosse confirmada na delegacia, o Ministério Público corriqueiramente fazia uso dessas confis-sões em suas falas.

Eram comuns, ainda, insinuações de que as pessoas presas estariam mentindo. Quando relatavam que teriam apanhado para confessar, por exemplo, mas não constava confissão no interrogatório, eram comuns intervenções que colocavam em dúvida essas versões, como: “Eu gostaria de saber por que ele apanhou se ele ficou em silêncio” (caso 340).

O uso do boletim de ocorrência e do auto de prisão em flagrante para deslegitimar a versão trazida na audiência era uma prática muito comum. Qualquer informação no sentido de justificar a violência alegada, como relatos de fuga, de resistência, ou um acidente, eram sempre utiliza-dos. Por vezes ocorria, por exemplo, de a pessoa presa narrar que determinados hematomas teriam origem em agressão policial e o Ministério Público contestar com afirmações como “aqui consta que você caiu da bicicleta” (caso 366).

Não foi feita referência ao auto de prisão em flagrante nos casos em que a violência policial era denunciada na delegacia, mas não era relatada em audiência.

A mesma lógica da violência como algo pontual, e não estrutural65, estava sempre presente. Dentre as poucas intervenções, era comum questionar se conheciam os policiais, se a agressão teria sido gratuita, ou, como já dito, utilizar relatos da vítima do suposto crime praticado.

“O senhor conhecia os policiais? Havia algum motivo para eles agredirem o senhor gratui-tamente?” (questionamento apresentado pelo Ministério Público no caso 373);

“Não há por que duvidar que dois PMs estariam a causar injusta e falsa acusação contra dois indiciados que eles não conheciam, a prisão merece ser mantida não havendo qual-quer motivo para o relaxamento” (Manifestação do Ministério Público no caso 367). Muitas das intervenções que buscavam deslegitimar a palavra das pessoas presas eram muito sutis, inseridas nas falas que pediam a conversão da prisão em flagrante em prisão preventiva, na forma como se ignoravam os relatos de violência trazidos, ou até mesmo nas conversas

65 “A análise do comportamento policial não pode ser dissociada do estudo das estruturas políticas, sociais, culturais e normativas que moldam esse comportamento. O comportamento violento de determinados policiais não pode ser explicado simplesmente a partir das motivações individu-ais. Há uma série de normas sociais, leis e regulamentos que norteiam esse comportamento, seja coibindo determinadas ações, seja incentivando outras. Assim, rejeitamos a explicação a partir da idéia de “maçãs podres”, recorrente no discurso de algumas autoridades políticas e policiais” COSTA, 2004, pág. 174-175.

realizadas com os(as) magistrados(as) antes ou depois das audiências, em momentos que não eram gravados.

Em uma audiência em que a pessoa presa estava com várias marcas de que teria sido agredida, com um de seus pés muito inchado, sem conseguir andar, houve um relato bastante detalhado de agressão policial:

“Eles passou em cima do meu pé, me mandou pular no rio [...]. Eles me deitou no chão e passou o carro em cima do meu pé. Eu fugi e entrei no rio, começaram a me dar tiro, me entreguei, eles me deitaram no chão e passaram a viatura no meu pé várias vezes” (Relato em audiência de custodia do caso 71).

Durante as intervenções das instituições, o Ministério Público não fez qualquer pergunta, mas, como de praxe, pediu a conversão da prisão em flagrante em prisão preventiva, ignorando os relatos. No entanto, logo após a audiência ser encerrada, em momento em que as intervenções não estavam mais sendo gravadas, após confirmar com o(a) juiz(a) que o caso seria encami-nhado ao DIPO 5, o(a) promotor(a) que estava presente começou a fazer diversas ameaças66 à pessoa presa, não apenas insinuando que os relatos sobre a violência policial eram mentirosos, mas também dizendo que poderiam ter consequências negativas para ele(a):

“O seu caso vai ser encaminhado para o DIPO 5 e tudo isso vai ser apurado, se ficam com-provado que o senhor mentiu vai ser processado por denunciação caluniosa, entendeu? O que você tá fazendo é muito grave, é bastante grave dizer que os policiais cometeram um crime que não cometeram, você pode ser processado por isso” (Comentário do Ministério Público à vítima após o término da audiência de custódia 71).

Para os(as) promotores(as) que atuavam nas audiências de custódia, parecia estar muito pre-sente a ideia de que havia algum interesse por parte das pessoas custodiadas em criar relatos de agressão, como se pudessem se beneficiar disso. Ao longo do monitoramento, chegamos a ouvir que haveria uma orientação por parte da Defensoria ou de advogados(as) constituídos(as) para inventar situações de agressão para que as pessoas presas pudessem ter sua prisão rela-xada. Contudo, dentre todas as audiências ocorridas no Fórum Criminal da Barra Funda durante o monitoramento, não se teve notícia de sequer uma prisão que tenha sido relaxada em razão das agressões policiais.

7.2.2. Encaminhamentos

Dentre os casos com relatos de tortura ou outros TCDD observados, em 88% não houve qual-quer manifestação do Ministério Público no sentido de pedir apuração da violência alegada. No restante das vezes, houve majoritariamente a solicitação de encaminhamento ao DIPO 5 ou o pedido de encaminhamento genérico para apuração das agressões alegadas. Em um dos casos houve pedido de encaminhamento ao GECEP – órgão que já tinha acesso a todos os procedi-mentos encaminhados ao DIPO 5.