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PERGUNTAS A LUIZ RUFFATO

No documento rodrigodasilvacerqueiro (páginas 115-120)

Marcos Vinícius Ferreira de Oliveira1 Rodrigo da Silva Cerqueira2

Existiu certa polêmica em relação à sua obra num debate ocorrido na revista K entre Ricardo Lísias (no artigo intitulado Sem compasso) e Manuel da Costa Pinto (A forma da

representação e a morfologia da palavra). No artigo de Lísias há uma opinião sobre a

presença, em seus textos, de um narrador “desconjuntado” nas palavras do autor. A reflexão em tom crítico (na acepção corriqueira da palavra) sobre a posição do narrador em Inferno provisório não seria coerente à configuração do projeto? Não digo que o termo seja adequado, mas, a presença de um foco narrativo frágil, distinta de uma posição centralizada e onisciente do narrador, não seria adequada às histórias que você deseja contar, à parcela da população sobre a qual você deseja refletir?

No começo da década de 1980, eu me encontrava num impasse. Decidido a me tornar escritor, e tendo claro o tema que queria perseguir, a vida operária, percebi que necessitava, antes de iniciar minha trajetória, compreender o processo da escrita como forma de expressão. Ou seja, se dominava o conteúdo, faltavam os instrumentos necessários para edificar uma obra, pois para mim não fazia sentido dissertar sobre a questão do proletariado usando a forma do romance burguês, uma narrativa que, mesmo quando se quer caótica, pretende, como fim último, a ordenação do mundo. Eu desejava algo que trouxesse, como forma, a própria essência do impasse da nossa sociedade. Adiei então por quase vinte anos o projeto. Em 1998, senti-me pronto para iniciar-me como escritor: publiquei uma coletânea intitulada Histórias

de remorsos e rancores, logo seguida, dois anos depois, por outra, (os sobreviventes), ambas

tendo como tema a vida operária. Mas, frustrado, percebi que formalmente ainda não me satisfaziam... Somente com o lançamento, em 2001, do que chamo de ―instalação literária‖,

Eles eram muitos cavalos, um livro que tem como personagem a cidade de São Paulo, é que

compreendi o que queria. Então, durante mais quatro anos, refiz o projeto, já agora intitulado ―Inferno provisório‖, que objetiva refletir a respeito da formação da classe operária brasileira, sob a pergunta: como chegamos onde estamos? O que persigo é estudar o impacto das mudanças objetivas (a troca do espaço amplo pela exigüidade, a economia de subsistência

pelo salário, etc) na subjetividade dos personagens. E para concretizar esse projeto, assumo o risco de problematizar também o conceito de romance: cada volume é composto de várias ―histórias‖, unidades compreensíveis se lidas separadamente, mas funcionalmente interligadas, pois que se desdobram e se explicam e se espraiam umas nas outras. Personagens secundárias aqui, tornam-se protagonistas ali; personagens apenas vislumbradas ali, mais à frente se concretizam. E a linguagem acompanha essa turbulência – não a composição, mas a decomposição.

Você escreveu dois livros nos últimos anos que não estão incluídos no projeto Inferno

provisório (De mim já nem se lembra – publicado pela editora Moderna; e Estive em Lisboa e lembrei de você – sua mais recente publicação, vinculada ao projeto Amores Expressos e publicada pela editora Companhia das Letras). Como você relaciona estas

publicações com as abordagens feitas na pentalogia. Em que estes livros se associam ou se dissociam do projeto previsto para cinco volumes?

O fenômeno da imigração, do desenraizamento, da desterritorialização está sempre presente no meu horizonte de interesse ficcional, tanto nas histórias que compõem o Inferno

Provisório, com a imigração dos italianos para o Brasil ou a dos cataguasenses para São Paulo

ou Rio de Janeiro, como em Eles eram muitos cavalos e também em De mim já nem se

lembra e em Estive em Lisboa e lembrei de você. Para mim, todos esses livros fazem parte de

uma mesma e única história: a dos brasileiros que buscam um estatuto de cidadania, muitas vezes tendo de se anular para conseguir sobreviver... Mas, além desse aspecto mais visível, digamos assim conteudístico, há, em todos eles, uma pesquisa formal, evidente em Eles eram

muitos cavalos, mas enfrentada, também, nos cinco volumes (quatro publicados) do Inferno provisório, e nas cartas com que armo o De mim já nem se lembra e no depoimento pessoal

de Serginho, que sustenta o Estive em Lisboa e lembrei de você. Em todos esses livros, perpassa o questionamento a respeito do gênero romance, implícito na assumição, pelo autor, da impossibilidade de narrar o fenômeno do não-pertencimento.

Em Estive em Lisboa e lembrei de você, conhecemos a história de um cataguasense que vai à Lisboa à procura de melhores condições econômicas. Mesmo distante da terra natal, porém, a personagem nunca deixa de lembrar com certa saudade de sua cidade de

origem. Permito-me fazer um paralelo entre esta personagem e Aílton, personagem principal de Carta a uma jovem senhora (história presente em O livro das

impossibilidades, quarto volume da série Inferno provisório), que mesmo distante de

Cataguases jamais deixa de tê-la no pensamento. Como se dá, para você, a presença da cidade em suas personagens de um modo geral? Ela está presente mesmo no sujeito que não a regressa? E que papel ela exerce na elaboração deste sujeito diante de seus caminhos?

O imigrante é aquele indivíduo que perde a condição de sujeito de sua história. Primeiro, porque a imigração ocorre não por sua opção, mas por absoluta falta de condições de permanecer em sua terra-natal. Segundo, porque no momento em que ele deixa seu espaço, ele se perde no mundo, passa a viver no limbo: ainda não pertence ao lugar para onde se transferiu e já não pertence àquele de onde saiu. Com sua fala diferente, seus gostos gastronômicos exóticos, seus valores e hábitos particulares, ele é o estrangeiro, o estranho, o forasteiro. Então, a sua cidade-natal, congelada na memória, torna-se ideal, paradisíaca, pois que geralmente ligada à infância e à primeira adolescência, quando ainda somos potencialmente felizes. Precisamos inventar algo para conseguir sobreviver à dura realidade do dia a dia.

Você é jornalista de formação, mas escritor em tempo integral já há alguns anos. Como avalia a presença da literatura no jornalismo de hoje, seja nos suplementos literários ou em programas televisivos dedicados ao assunto?Falta ainda espaço para a literatura?E, pegando um gancho nesta pergunta, não faltaria à literatura brasileira atual maiores discussões acerca do fazer literário, ou as feiras literárias e os congressos organizados por universidades dão conta deste assunto?

A literatura ainda é um artigo de luxo, feito pela e para a elite. Os raros suplementos literários, em geral ligados a órgãos estatais, obedecem aos preceitos estéticos do grupo que estiver no poder naquele momento. Ou seja, embora editados com dinheiro público, servem a interesses particulares. Já os cadernos literários dos jornais diários, com raras e honrosas exceções, favorecem à lógica do mercado, são vitrinas que apontam tendências. As feiras e festivais literários colocam o autor em contato direto com o público, mas, sem sombra de dúvida, são pontes erguidas subsidiariamente para a venda de livros, não espaços de reflexão. Que, hoje, bem ou mal, estão alojados nas universidades. O considerável aumento dos cursos de pós-

graduação ampliou bastante o número de profissionais dedicados à pesquisa. O problema é que pouco dessa produção transborda dos muros acadêmicos, principalmente por causa da linguagem cifrada ainda utilizada pelo meio. Mas devagar também isso está mudando.

Seus livros mostram uma Cataguases bastante diferente da imagem que dela foi sendo construída por um grupo que se estabeleceu como sendo seu porta-voz para assuntos culturais. Você tem consciência disto?

Cataguases cumpre sua sina de cidade inventada. Em 1927, insuflados por uma conjuntura altamente favorável, Francisco Inácio Peixoto, Guilhermino César, Ascânio Lopes e Rosário Fusco, capitaneados por Enrique de Resende, fundaram a revista Verde, de repercussão nacional. E sua elite cultural sempre buscou manter a pira literária acesa. Assim foi com a revista Meia-Pataca no final da década de 1940; com o movimento do poema-processo nas décadas de 1960 e 1970 e, mais recentemente, com a inversão de capitais na criação de centros culturais. E, a partir dessa realidade, a imagem de Cataguases, progressista e culta, foi sendo construída e amplificada. Mas, se é verdadeira essa imagem, não é menos verdadeira uma outra, a de uma cidade proletária, com problemas inerentes a lugares onde vicejou o capitalismo selvagem, agravados por relações pessoais típicas de cidades pequenas. Não tento contrapor a Cataguases operária à Cataguases modernista, inclusive porque elas se desconhecem. O mito da Cataguases modernista foi edificado como se não houvesse a Cataguases operária. No entanto, aquela não existiria sem essa...

Você concorda que o “Inferno Provisório” não é uma história da classe operária e sim uma história da exclusão pelos processos de modernização de um grupo de pessoas que não pode ser identificado como classe, pois, no Brasil não há consciência de classe?

Se tomarmos o conceito sociológico de classe social, creio que realmente você tem razão. Agora, se levarmos em consideração a classe operária como conjunto de pessoas que vivem de seu salário, ou seja, aquele cidadão que para sobreviver só tem a oferecer sua força de trabalho, aí acredito que possamos falar em literatura sobre este estamento. Aliás, nesse sentido, creio ser um dos pioneiros no Brasil. Anteriormente, houve alguns esforços esparsos, mas somente com a produção do escritor baiano-mineiro Roniwalter Jatobá, na década de

1970, é que o personagem do trabalhador urbano passa a ser representado de maneira digna, desestereotipado. E eu sou filho da literatura de Jatobá. Penso que falar em classe operária, no meu caso, talvez seja mais correto que falar em literatura dos excluídos, porque excluído também é o lúmpen, como os traficantes, e estes não são parte importante do meu universo ficcional. Meus personagens sonham em ser plenamente integrados à sociedade, não lutam contra ela.

Cataguases é, na sua obra, um lugar que reserva aos personagens dois caminhos: a angústia do exílio ou o apodrecimento da conformação. Você concorda?

Se pensarmos em Cataguases como um lugar simbólico sim. O grande dilema de uma sociedade jovem como a nossa - se aceitamos que, a rigor, o caldeamento de sua formação ocorreu a partir do século XVIII - é que tudo está por construir. É da natureza do homem o movimento, mas no Brasil esse movimento tem sido desordenado, provocando grandes e traumáticas rupturas. Assim, tivemos o deslocamento do eixo econômico nacional primeiramente do nordeste para o centro-sul, no Século XVIII, com a transferência da capital do Brasil de Salvador para o Rio de Janeiro; depois, a absorção de mão-de-obra não especializada pela economia cafeeira de São Paulo e Paraná; mais tarde, a grande imigração de nordestinos e mineiros para alimentar a indústria do Rio de Janeiro e São Paulo e finalmente o povoamento do Centro-Oeste. Cataguases, a minha Cataguases simbólica, encontra-se exatamente neste entremeio: por sua origem industrial, acabou formando mão-de- obra especializada, que, não tendo como ser utilizada na região, buscou colocação nas grandes metrópoles. Somos uma cidade de emigrantes. E o deslocamento é sempre problemático, pois quem deixa sua terra-natal não se desfaz apenas das amizades, dos costumes, do sotaque, do conforto de estar entre os seus, mas principalmente deixa para trás os seus mortos no cemitério, ou seja, rompe com a sua história. Deixamos de ter um chão onde descansar. E, assim, temos que nos reinventar como sujeitos...

O que a obra “Estive em Lisboa e lembrei de você” traz de novo em relação aos seus livros anteriores? Ou a literatura não tem essa necessidade de trazer elementos novos a cada obra?

Não creio, efetivamente, que o autor tenha compromisso de se renovar a cada obra. Aliás, quanto melhor domina o ofício, maior a tendência de criar uma marca, uma assinatura, ou

seja, um estilo próprio e identificável. Eu persigo um equilíbrio, que seria aquele em que proporciono ao leitor uma surpresa, ou seja, uma nova história, mas dentro de um universo reconhecível como meu.

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Doutorando em Estudos Literários PPGLetras UFJF

No documento rodrigodasilvacerqueiro (páginas 115-120)

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