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Permanência, artes de fazer no Campus Recife

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4. ANALISE DAS EXPERIÊNCIAS DAS JUVENTUDES NEGRAS

4.6. Juventude negra estudantil

4.6.6. Permanência, artes de fazer no Campus Recife

Pedi a um irmão-mais-velho ajuda para interpretar um sonho. Ele, que é só poesia e travessura, me disse: ―Basicamente, é o seguinte, sonho de macumbeiro sempre tem um sonho depois, que direciona mais a interpretação. Esse segundo já veio?‖.

(SILVA, 2014)

A crônica de Cidinha da Silva parece indagar sobre nossos sonhos, que dizem respeito à necessidade de voltar ao começo refletindo sobre a realidade que nos cerca, de persistir diante dos obstáculos da vida e de lançar-se aos objetivos numa constante indagação.

Diante das questões mencionadas pela poetisa, associadas a trajetórias de vidas singulares das (os) estudantes negros e negras, do Curso de Licenciatura de Pedagogia, percebemos que cada sujeito responde e age de maneira diferente diante das situações, construindo percursos e identidades próprias.

Com base nessa concepção buscamos enfatizar as necessidades afirmadas pelas (os) jovens em distintas formas de considerar o que pensam, são capazes de se organizar e ocupar espaços de saberes no âmbito do aprimoramento dos seus estudos, no campo de pesquisas em diferentes áreas. Como discorre Karla:

Já em relação à pesquisa tenho me dedicado já em alguns projetos da Rural a respeito da Pedagogia hospitalar. Já que devido ao meu curso técnico em Radiologia, acompanhei alguns trabalhos pedagógicos com crianças nas classes hospitalares e nas brinquedotecas, o que me intriga a pensar até que ponto, por exemplo, se faz satisfatório manter o aluno em contato com o seu currículo escolar, enquanto faz um tratamento de câncer. Então, percebi que a pedagogia hospitalar se faz importante para que essa criança, quando retorne a escola, não esteja em defasagem em relação aos conteúdos da sua série. Em contrapartida enxergo essa pedagogia extremamente contraditória, porque acontece em um momento no qual há uma preocupação em reestabelecer a saúde desses alunos. Enfim, eu acredito que queira me aprofundar um pouco mais nessas questões, mesmo achando que dificilmente queira trabalhar como pedagoga em hospitais, até porque a maioria das classes hospitalares são nos setores de oncologia, e pela pouca experiência que tive em estágios nessa área percebi que não aguento a carga psicológica que é lidar com a morte de modo tão constante como é nesse setor, ou melhor, "nessa pouca experiência".

(Karla, entrevistada em 15 de outubro de 2015).

A partir dessa fala percebemos a necessidade da jovem em se envolver em ações educativas na universidade, que interliguem as experiências de seu dia a dia. Desse modo, há interesse pelas questões que tenham relação a outros atributos de sua vida. Como profere Dayrell (2007) como sujeitos sociais vão construindo modo de ser, baseados em seu cotidiano. Dentro dessa ótica indica Élida:

Esse é o primeiro grupo. Quando eu quis participar do grupo foi desde o segundo semestre ou do primeiro período, não lembro bem. Mas, eu tive vontade de participar do grupo de estudos através da professora Denise, porém não tinha tempo, e o meu interesse de participar é justamente, para ter leituras e aprofundar meus conhecimentos. Foi pensando nisso que entrei no grupo para proporcionar que, ajudando, mesmo para uma coisa com que tanto me identifico, quero falar, ter mais domínio e o grupo está me ajudando muito nisso. E antes eu não tinha nenhum conhecimento nesta questão da raça negra. O grupo é novo e eu entrei no semestre passado. Eu sou muito calada (risos) consigo ficar quietinha só escutando (risos). Mas eu faço as leituras, é muito importante ver o que os outros falam, a opinião tem contribuído muito e cada dia me interesso mais em ler para poder falar também.

(Élida, entrevistada em 19 de setembro de 2015).

Como refletimos anteriormente, conforme abordado no primeiro capítulo, as (os) jovens, enquanto ser social vive um determinado tempo e espaço. Entre as características da juventude, destaca-se este tempo e espaços como estabelecimento para estreitar novas relações, como processo de descoberta do outro e da outra jovem. Nessa direção alinha-se a formação tanto de Karla como de Élida, como preparação do presente e do futuro.

Acrescentamos a característica de Élida em se agrupar no espaço de saberes, para enfrentar os conflitos, se expressar mais, aprofundar temas, mergulhar na elevação da auto-estima, na valorização pessoal e no ser mulher negra, nos estudos e pesquisas. Ao se munir de novos saberes, compartilha um exercício de iniciativa individual de busca do conhecimento e superação de uma realidade em que se encontra.

Esse percurso juvenil não deve ser pensado como uma mera transição e ajustamento aos papéis da idade adulta. No entanto, as exigências da sociedade contemporânea em responder aos estudos e a empregabilidade leva a movimentos de tensões, negociações para se manter na academia. Como nos afirma Alexsandro:

Fui convidado agora para participar de um grupo de pesquisa, mas ainda vai começar. É uma pesquisa da professora Aparecida. Ela vai fazer o cronograma pra gente. Eu participo muito de palestras, seminários, mas, geralmente quando é final de semana e alguns são pela universidade. Chega para a coordenadora e ela passa pra gente, vai ter um agora que é 24 e 25/10 lá no Centro de Convenções.

(Alexsandro, entrevistado em 15 de outubro de 2015).

É preciso atentar também que a singularidade é marcada por instabilidades, que são também frutos das estruturas sociais cada vez mais fluídas, presentes na sociedade atual. Podemos perceber estas inconstâncias, por exemplo, quando jovens como Alexsandro trabalha e estuda, o jogo de cintura em conciliar o trabalho e sua permanência na academia.

Parafraseando Certeau (2011) esse ―herói comum‖ Alexsandro vai se constituindo não apenas autor de suas práticas, de criações na academia e em outros lugares, mas no significado que para ele realiza o cotidiano e se ocupa das ―artes de fazer‖ dessas (es) praticantes, busca compreender as regras próprias e de seu desenvolvimento.

São nesses espaços de sociabilidades que encontramos o cenário e os sujeitos de nossas reflexões: jovens que reconhecendo os limites postos pelo tempo e espaço em que estão inseridas (os) ―fazem sentido‖, impulsionam movimentos até imprevisíveis. Esses momentos das escolhas, limites e possibilidades, em seu fazer na academia aparecem no depoimento da Marta:

Eu preciso desse oxigênio que vejo como tempo necessário para respirar, para que possa sentar e estudar, ler e compreender os textos que são fundamentais para minha formação. O tempo de chegar de dez horas da noite ou dez e meia, esse tempo não dá condições para estudar para três, quatro provas, estudar, preparar atividades, é impossível, minha carga física já tem extrapolado há muito tempo. Fica muito exaustivo para mim. Bom, dezembro acaba, tem o recesso no começo do ano para respirar, colocar as coisas no lugar. Tenho que estagiar, porque tenho que receber dinheiro, vai ser bem menor o dinheiro, mas vou ter tempo à tarde para estudar. Vou ter que conciliar com outras coisas, Pastoral da Juventude, Pastoral da Criança, mas vou estar mais tranquila para estudar uma meta.

(Marta, entrevistada em 24 de outubro de 2015).

Tratar da permanência, dos sonhos nos leva a analisar a diversidade de cada sujeito dentro do Curso de Licenciatura em Pedagogia em seus estilos de vida, modos com que cada uma e cada um age na sociedade, distingue suas múltiplas identidades. Nesse caso o fato da jovem estudante Marta possuir outra identidade, coordenadora da Pastoral da Juventude, leva à direcionar seu tempo e espaço – o ―fazer sentido‖. Assim, as probabilidades ou limites em ter que conciliar ser estudante, professora de alfabetização e coordenadora da pastoral pressupõe uma reflexão, a jovem a fazer novas escolhas quanto à ―arte de fazer‖.

São as alternativas possíveis de serem sonhadas e projetadas tanto no campo individual ou coletivamente, que surgem e se desenvolvem tendo como referência o tempo presente, mas se relaciona com o passado e com o tempo futuro. Sendo assim, as escolhas e as decisões que foram e/ou serão feitas irão interferir nos projetos.

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