4. INICIANDO A ANÁLISE
4.4 Permanência e Desempenho: construindo subjetividades
Pesquisas publicadas referem-se ao nível satisfatório de desempenho dos alunos cotistas raciais, num processo que se inicia com os índices mais baixos, mas que no decorrer do curso vai gradualmente se elevando. Como estes alunos conseguem superar suas condições materiais, morais, de preconceito, de autoestima para alcançar o sucesso nesta jornada? Apesar de ser o preconceito racial um fator extremamente preponderante no desânimo dos alunos negros, promovendo condições desfavoráveis que os fazem em certas ocasiões perder o norte, Moya (1996), assevera que estudos recentes indicam que o preconceito ou a discriminação não provoca de forma generalizada consequências psicológicas prejudicais e/ou uma diminuição nos níveis de autoestima. Também não se trata de postular que a condição de preconceitos não repercute nas pessoas, mas o que se quer destacar é o desenvolvimento de diversos mecanismos de defesa, utilizados pelas pessoas afetadas se contrapondo ao que se impõe.
Encontramos nas vivências destas histórias relatadas pelos alunos fatores importantes que se articulam à permanência e ao desempenho. Condições financeiras que impactam nas condições de alimentação, moradia, transporte, materiais de
estudo, repercutindo nas formas de se relacionar e de se apropriar do universo que implica a vida universitária. Neste recorte tentamos evidenciar, através do percurso de alguns dos alunos entrevistados, a trama de significados inscritos no processo da inserção, permanência e desempenho dos alunos cotistas raciais.
Iniciamos esta parte com os depoimentos de Adriano, aluno que tinha ingressado no ano 2005, primeiro ano das Ações Afirmativas ao curso de Engenharia Cartográfica e que mudou para o curso de Direito em 2008. Perguntei o por quê da mudança do curso, ao que ele afirmou:
... a engenharia, a partir de um determinado período, ... a grade vira integral, passa a ser integral, e aí elimina parte da possibilidade de se trabalhar e eu precisava de uma renda, não tinha como. E aí eu acabei levando um ano e, pouco mais de um ano, ... empurrando, fazendo bicos e essas coisas, mas depois de um ano a situação não se sustentava mais. Então o determinante foi... foi a questão do trabalho. Eu precisava trabalhar e não conseguia trabalhar fazendo engenharia e ai eu mudei pra um curso à noite. A ideia era fazer um curso à noite e poder trabalhar durante o dia e aí, com essa renda do trabalho, eu conseguiria me manter. Essa era a ideia (Adriano).
Fiquei surpresa, mas que nada, porque se tratava de dois cursos muito diferentes, que podia justificar uma decisão tão radical? Sem dúvida estava frente a um caso extremo de decisão necessária e muito importante para a sua permanência na universidade. Pedi para ele falar mais disso, então prosseguiu dizendo:
Naquela altura, em 2007 pra 2008, não tinha engenharia. A primeira engenharia da noite foi em 2010, se não me engano [...] o sujeito tem que ter capacidade de... capacidade financeira pra suportar ficar o dia todo na universidade (Adriano).
As circunstâncias obrigaram Adriano a optar por um curso que nunca tinha pensado cursar. Pergunto para ele se tinha bolsa quando estava na engenharia. Ao que ele responde:
Eu tinha uma bolsa de... bolsa permanência [...] Só que a bolsa permanência teve uma evolução a partir de... eu acho que a partir de 2008. Quando eu entrei na universidade, se não me engano a bolsa era duzentos reais, duzentos e dez reais. Então... [...] Não dava muita coisa. Claro, sempre ajuda. Pra quem tem pouco dinheiro duzentos reais é uma grande ajuda. Mas isso não alterava o meu quadro, que as minhas despesas eram bem maiores que duzentos reais naquela altura. Só na Casa do Estudante eu imagino que a mensalidade fosse alguma coisa entre cento e oitenta, cento e noventa reais. Então a
bolsa era praticamente pra pagar a Casa. E aí, enfim, não... não supria os gastos naquela altura (Adriano).
Como nos fala Adriano, a bolsa é valiosa, mas é necessário ressaltar que lamentavelmente, não é suficiente, o que faz com que estes alunos tenham que procurar outros subsídios complementares. Prosseguindo com a entrevista, pergunto: “Como que você se achou com essa mudança, porque os conteúdos são totalmente diferentes. Você conseguiu assumir bem? Como foi isso?”
Então... o processo de readaptação, ele é... o processo de adaptação é sempre bastante doloroso. Sair de uma área que... eu gostava da matemática, era uma coisa que... enfim, tinha uma certa afinidade. E aí por uma opção quase que alheia à minha vontade... mudar de curso faz com que você... que seja um processo um pouco traumático (Adriano).
“E onde ficaram os seus sonhos?”, perguntei….
Você abre mão de uma dose de emoção ali mais por racionalidade. Eu preciso fazer determinada coisa. Até porque não tinha opção né? Se eu optasse pelo meu sonho, de fato, ah... meu sonho era fazer Engenharia. Mas pra fazer isso você precisa de algumas ferramentas. Não tem como fazer Engenharia e sei lá, e não comer, por exemplo... (Adriano).
O que veio primeiro em meus pensamentos com as palavras do aluno foram as palavras de Marx, quando se refere ao primeiro pressuposto de toda a existência humana e, portanto de toda a história: “É que os homens devem estar em condições de viver para poder ‘fazer história’. Mas, para viver, é preciso antes de tudo comer, beber, ter habitação, vestir-se e algumas coisas mais” (MARX, 1996, p.39). As revelações desta primeira entrevista, que foram se repetindo nas seguintes, já foram me impactando e demonstrando que a permanência na universidade deste jovem e da maioria dos outros que ingressam via cotas raciais articula-se às suas condições materiais e significa a luta por sua vida, derivando em diversas estratégias e decisões contundentes voltadas para a superação das condições de vida, motivados provavelmente pelo desejo de ascensão na hierarquia social.
Pergunto para Francisco como foi sua experiência para chegar à universidade, ele me conta...
Eu consegui bolsa né? Eu fui fazer uma prova no cursinho Dom Bosco, era muito caro, muito caro, muito caro mesmo, e aí surgiu uma prova, aí eu fui lá fazer, consegui um desconto muito bom de setenta por cento (70%) da bolsa,
só que também não tinha dinheiro para pagar mesmo com a bolsa, aí a gente teve que fazer um empréstimo, um empréstimo para conseguir fazer o cursinho, porque mesmo vindo de um colégio muito bom que era o CEFET tudo, eu não senti ainda tanto pelo curso que eu queria né? Curso de direito muito concorrido e difícil de entrar, eu não me sentia preparado ainda para isso, então a gente fez lá uns esforços e empréstimos e pagamos o cursinho, fiz o cursinho, no cursinho daí a disparidade de situação econômica, isso é muito daí é muito maior, especialmente em cursinhos grandes, lá agente via um disparidade muito grande de situação econômica (Francisco).
A objetividade de uma realidade histórica marcada pela pobreza, possivelmente de repercussões de uma discriminação racial retratada na posição que a população negra mantém no extremo inferior da sociedade brasileira, o que confirma-se em toda pesquisa socioeconômica realizada, revelando que os alunos negros provêm de extrema precariedade material, com pouco ou nada de subsídios familiares e que precisam trabalhar para se sustentar.
Pergunto para Adriano como fez para poder mudar de curso, ao que o entrevistado relata:
Eu só tinha o dinheiro pra pagar uma inscrição. Então.... eu tinha que optar: ou fazia a inscrição do PROVAR ou fazia a inscrição do vestibular. E como no vestibular tinham quarenta vagas... Quarenta? Não, eram oitenta vagas. Naquela altura, pensei: “Eu acho que é mais fácil eu conseguir pelo vestibular que pelo PROVAR”. E aí eu acabei estudando esse período que faltava em dois, três meses e fiz vestibular de novo (Adriano).
Encontramos aqui uma relação inquestionável entre subjetividade, desigualdade e transformação social, evidenciando, como postula Sawaia (2009), que “por trás da desigualdade social há sofrimento, medo, humilhação, mas também há o extraordinário milagre humano da vontade de ser feliz e de recomeçar onde qualquer esperança parece morta”, refutando a crença de que as pessoas fragilizadas social e economicamente se contentam com pouco, e não se interessam pelo seu crescimento pessoal. Prossegui com minhas perguntas, tentando entender como ele conseguia se sustentar. Perguntei em que trabalhava.
Eu fazia... durante as férias eu trabalhava como .... trabalhava em lanchonetes e restaurantes assim... como garçom. E durante o semestre eu fazia estágio e no contraturno, daí, fazia bicos. Então conseguia durante as férias... sei lá... as férias de final de ano... daí ia pra praia, trabalhava de garçom e conseguia o dinheiro pra juntar dinheiro pra ficar quase todo o semestre (Adriano).
As palavras deste estudante denotam a vida dura que acompanha a universidade, extremamente diferente do que ocorre com os alunos padrão das IFES, remetendo também às mudanças drásticas que se originam da inserção de uma população para o qual o ingresso à universidade é um fato excepcional. Pergunto para o aluno: “Você sente que ela (a universidade) deu subsídios pra você levar em frente os estudos? Assim, por ser, quando você precisou de alguma ajuda econômica, quando você precisou de informação...”
Não, eu... é... quando... depois de ter vindo pro Direito, aí sim, mas eu já tinha... já conhecia o caminho. Mas durante a engenharia, eu... esse foi um processo... eu era... quase que impossível ter uma bolsa... (Adriano).
Entrevistadora: Dependendo do curso é mais fácil ter bolsa ou foi você que foi se apropriando de... do jeito de conseguir as bolsas?
É... a forma... o mecanismo que leva pra ganhar uma bolsa, pra conhecer esse trajeto, é muito mais importante do que propriamente os requisitos ou o curso... Você acaba conhecendo o caminho que leva à ganhar a bolsa... (Adriano).
Entrevistadora: Quais foram as suas maiores dificuldades? Aqui dentro da Universidade...
A adaptação... questão financeira... o...o... o fato de não ter dinheiro pesa em todos os âmbitos da vida, né? O fato de não ter dinheiro faz com que você às vezes não durma bem, faz com que você não coma bem, faz com que você não se relacione bem com as pessoas que estão à sua volta, ter dinheiro é um divisor de águas. Ter ou não ter dinheiro é um divisor de águas. É claro que você consegue trabalhar dentro de uma margem de... então acima de... o céu é o limite... eu consigo manter uma determinada, uma determinada comodidade de vida. Mas abaixo desse limite, isso influencia tudo. Tudo, inclusive o rendimento na universidade. Então, a renda, talvez seja um grande fator... a... a adaptação à mudança de curso também foi... (Adriano).
A história deste aluno nos remete ao que encontramos insistentemente na literatura das relações raciais (HANSELBALG, 1988). Histórias marcadas pela discriminação racial que implicam precariedade, carência, exclusão. O impacto das condições objetivas de vida confluídas na pobreza, mas pouco nos revela sobre a força, a motivação, a coragem do sujeito em transformação, exprimindo sua história para conseguir condições melhores.
O percurso pela universidade é também marcado pela mobilidade, pela luta e pelo sofrimento no relato desta aluna que decide ingressar no curso de química:
Na verdade, no início quando eu fui escolher o curso, eu fiquei em dúvida entre Química e História. Eu queria fazer muito História, mas eu queria muito fazer Química, que eu tinha muita facilidade com números, essa coisa aí. E aí, na dúvida, fiquei ali, “faço química!” E fiz química. Quando eu cheguei lá eu tive muita dificuldade. Muita dificuldade assim, principalmente com a parte de cálculo. E outra dificuldade que eu tive foi que o curso era período integral. Então, eu tinha que passar o dia todo no Politécnico e eu não tinha condições financeiras de me manter daquela forma. E então era... Tinha dia que eu tinha aula às 7:15 a primeira e a última começava às 19:30 e terminava às 22:00 h (Betânia).
As repercussões foram concretas, poucas condições para poder estudar como reflexo de uma série de carências. Questões básicas como comida, transporte, habitação... A relação com a sociedade se dá pelas carências e pelas necessidades não supridas. As Ações Afirmativas chegam pelo lado mais fraco, sem suporte, sem orientação. As condições vividas foram minando o desejo de estar nesse lugar. Por outro lado outros fatores surgem...
E aí, como é que eu ia ficar o dia todo lá e.. sabe? Então foram muitas dificuldades. E daí comecei a pensar que eu também não gostava, não estava gostando daquilo. E a convivência com as pessoas estava me deixando assim, sabe? Então eu estava tendo dificuldade de convivência. Boa parte dos alunos ali eram de classe média (Betânia).
Outro fator extremamente preponderante revelava-se pelas relações instituídas. O encontro no desencontro com os outros, na falta de pertença, a escassa identificação, a diferenciação nos valores que foram demarcando o desejo da saída do curso de Química.
E teve uma situação lá que me deixou, assim, horrorizada. Que uma das minhas amigas era negra. E tiraram uma foto dela sentada assistindo aula. [...] e aí começaram a fazer um monte de comentários absurdos, [...]. Mas meio que foi a gota d'água, assim. Eu não conseguia conviver mais com aquelas pessoas (Betânia).
O que mais pesou na rejeição ao curso, não foram as condições materiais adversas, mas a questão racial, os relacionamentos infortunados que vivenciou a aluna nas interações sociais no espaço acadêmico. Foi a situação de racismo sofrida pela amiga que nos relata, o contexto pouco amigável que foi se tornando violento e
que a fez assumir a séria decisão de mudar de curso. De igual forma, decisões contundentes, para sobreviver na universidade, abandonar. Deu forças o Afroatitude, onde encontra-se com os iguais, encontra um “nós”, e isso tornava-se acolhedor e motivante para a permanência e o empoderamento.
E eu cheguei à conclusão de que era aquilo que eu queria, sem dúvida nenhuma. E aí, no ano de 2006 eu fiz o Provar e em 2007 eu comecei Ciências Sociais (Betânia).
A diferença que se torna desigualdade e que se vivencia como discriminação não foi tolerada. A mesma força que estava no querer ingressar na universidade estava também na saída para um outro lugar da universidade. A transferência como possibilidade de sobrevivência na universidade, e a vontade de lutar e vencer, mas num ambiente que supere os preconceitos, as relações hostis, mais fortes que as carências econômicas e que os sacrifícios e o esforços de suprir as deficiências da escola.
Isso, isso. Eu senti bastante diferença, mas eh... da Química para cá. Ali eu sabia que ninguém ia olhar para a roupa que eu estava vestindo, para o jeito que estava o meu cabelo, se eu era preta ou se eu era branca. Sabe? [...] e isso me deixava mais à vontade para... para continuar (Betânia).
Perguntei para ela se isso facilitou o processo de aprendizagem?
Ah, com certeza, senti muito mais facilidade ali do que antes lá na Química (Betânia).
Betânia deve prosseguir na luta por um espaço na sociedade e para isso deve trabalhar...
Eu trabalhei [...] de 2007 até 2011, na SANEPAR, e daí foi aquela situação [...] reprovei bastante, não conseguia ir para a aula direito, e eu trabalhava ... inicialmente eu trabalhava das 14:00 às 20: 00 horas, e daí eu estudava de manhã. Mas eu tinha matéria à tarde que eu não conseguia... [...] não conseguia acompanhar. E daí, eh... também às vezes chegava muito cansada em casa, não conseguia dar conta das leituras (Betânia).
No ano de 2010, no final de ano, eu fiquei 30 dias em hospital, em tratamento em hospital, eh... com... depressão. Então, assim, foi uma situação bem complicada (Betânia).
Então, eu passei várias dificuldades desse tipo que acabaram baixando meu rendimento. Aí, a solução para mim foi... [...] Em 2011 eu... eu conversei com os meus pais falei assim, “ó, a partir de agora eu vou tentar viver de bolsa. Vou voltar para casa e vou tentar viver de bolsa para recuperar o tempo perdido”. Aí, eu peguei bolsa do curso mesmo (Betânia).
A universidade é significada pelo esforço, o sofrimento aparece na impotência de não conseguir levar o curso. No relato da aluna percebemos como ela foi engolida pelos problemas que proveem de uma historicidade, condições objetivas se inscrevendo no corpo, pela doença, pelo sofrimento psíquico, o sofrimento ético político. Não percebemos em suas palavras o acolhimento, o acompanhamento, a assistência da universidade. Passa a ideia de que a ação afirmativa se dilui, não se expressa e o impacto de sua realização repercute no material, no simbólico e no desempenho, mas vigoriza-se na permanência, pois a aluna não desiste de ter um lugar na universidade. Ao fim das contas, nas estatísticas cotistas raciais são os que menos abandonam. Tendo uma maior apropriação da cultura universitária, conhecendo mais a dinâmica do funcionamento da universidade, promove para ela uma outra estratégia, se inserindo na academia como aluna de pesquisa, concorrendo a bolsa de pesquisa.
... comecei a fazer, a participar desse grupo de pesquisa, eh... comecei a... a fazer todas as matérias que eu podia pela manhã, à tarde e à noite, eu ficava o dia inteiro aqui. Aí eu fiz todas as matérias que eu pude, e no ano seguinte, no final de ano eu me inscrevi para o vestibular, prestei vestibular e pedi equivalência no ano seguinte de tudo, para limpar o histórico. [...] Aí o meu GRR, daí ficou 2011. Daí eu não tenho nenhuma reprovação porque eu pedi equivalência de todas as disciplinas que eu já tinha sido aprovada (Betânia).
Surge aqui o sujeito ativo, que consegue dar uma reviravolta em sua vida, num processo de apropriação de um lugar, a universidade, marcado pelo sofrimento ético-político, que faz adoecer, corrói a resistência, age rompendo o nexo entre o agir, o pensar e o sentir. O sofrimento ou mal-estar psicossocial na mediação das conjunturas estruturais, históricas e subjetivas (SAWAIA, 1995).
... posso dizer que o meu processo foi traumático. Eu, assim, eu rezo para acabar, eu tenho assim, eu tenho esse sentimento de que... sabe, professora? Por mais que (suspiro) eu deveria seguir no mestrado e tudo, eu tenho esse sentimento de nunca mais querer voltar aqui, sabe? Eu tenho esse sentimento (Betânia).
O sentimento que ressalta é aquele que estava mais presente no percurso pela universidade, aquele que torna-se mediação de todo o processo de permanência e que evidencia o quanto foi difícil. A universidade concedeu a vaga, mas não é suficiente, são necessários mecanismos de acompanhamento mais próximos que tornem esse processo mais fácil.
Entrevistando um aluno da engenharia, pergunto para ele: “É difícil o curso de Engenharia Mecânica?”
Então é, o curso é bem puxado [...] faço menos matérias, eu... já não estou com a minha turma, mas... mas como eu falei, é uma coisa que eu gosto de fazer, então, a gente vai e consegue ir levando dessa forma. [...] E daí também principalmente o começo também, essa... essa defasagem do ensino, então muita coisa que você teria que ter de pré-requisto, você não tem. Então você tem que correr e tem que estudar mais para conseguir vencer. Então tem tudo isso também, né? (Pedro).
Pergunto para Pedro: “E o que tem sido importante para a sua permanência... o que tem ajudado na sua permanência?”
Eh... minha permanência aqui, primeiro é a vontade de querer evoluir, de crescer, porque eu acho que do jeito que... de outra forma não tem, se não tem um curso superior, hoje, por mais que você tenha conhecimento, mas sem... sem o... sem a graduação hoje, o diploma também você fica muito difícil eh... queria dar algo melhor para a minha família, também, para as minhas filhas, ter um pouco mais de oportunidades (Pedro).
Possibilita-se o sonho pela oportunidade. Este aluno tinha ingressado inicialmente no curso de Física, mas, estando dentro da universidade, ficou sabendo que existia Engenharia Mecânica noturno, e fez a transferência de curso.
Prosseguindo com o processo que os alunos vivenciam no cotidiano da universidade, trazemos o relato de outro aluno:
...eu entrei por cotas na Geografia, entrei na Geografia, cursei lá um ano e meio, e aí eu tive que parar, aí passou mais alguns anos, eu fiz de novo o vestibular e agora estou na Administração (Caio).
Uma vez mais encontramos as dificuldades, as deficiências históricas se contrapondo ao projeto da universidade, e a mudança de curso como estratégia de sobrevivência. Pergunto para o aluno: “Você conseguiu acompanhar os conteúdos?”
Não, não, eu não consegui, eu acabei no primeiro ano lá, eu acabei ficando em três disciplinas, eu não consegui (Caio).
Entrevistadora: a que você atribui isso?
Minha, minha incompetência mesmo, foi falta de estudo mesmo (Caio).
O aluno isola-se ao olhar para si mesmo, descolado de seu processo histórico,